A Casa Comum

Rio Paiva | Arouca

Rio Paiva | Arouca

Apenas há menos de 2 anos soube que os dentes implicam com a audição e com os olhos. Tinha uns dentes à moda da minha mãe, todos furados, todos caídos, dores terríveis, e não conto mais nada …

Há dois anos disseram-me que …, explicaram-me. Mas quando isso aconteceu já eu não tinha dentes. Nem um.

Conto esta história porque a nossa relação com o planeta foi e é ainda assim: fazíamos, cada um à sua maneira, o que nos dava na beneta. Todos os anos, no parque de campismo, ainda hoje vejo homens e jovens a fazer a barba com a torneira da água aberta o tempo que seja… E isso não é nada: lixo pela janela fora do carro que vai à minha frente, outro automóvel que, mudando de velocidade, expele mais fumo que sei lá o quê, lixeiras abjetas por todos os lados e em qualquer canto, “a terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo”, diz o Papa Francisco (LS 21). É a “cultura do descarte, que afeta tanto os seres humanos excluídos como as coisas que se convertem rapidamente em lixo” (LS 22).

As minudências que refiro, no entanto, são nadas; gravíssimas são aquelas que o Papa refere: o clima (aquecimento do sistema climático); a água (embora o acesso a água potável e segura seja um direito humano essencial, fundamental e universal, a qualidade da água disponível piora constantemente); a perda da biodiversidade (anualmente desaparecem milhares de espécies vegetais e animais); a deterioração da qualidade da vida humana e degradação social: “o crescimento desmedido e descontrolado de muitas cidades” provocou “a exclusão social, a desigualdade no fornecimento e consumo de energia e doutros serviços, a fragmentação social, o aumento da violência e o aparecimento de novas formas de agressividade social, o narcotráfico e o consumo crescente de drogas entre os mais jovens, a perda de identidade”, numa palavra, “uma verdadeira degradação social” (LS 44-45); o ambiente humano e o ambiente natural degradam-se em conjunto mas já não se ouve nem o clamor da terra nem o clamor dos pobres. “Estas situações provocam os gemidos da irmã Terra, que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo, com um lamento que reclama de nós outro rumo” (LS 53). 

Diante deste quadro, que fazer?, que podemos fazer? O grito de Francisco é este:

“Nunca maltratámos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos. Mas somos chamados a tornar-nos os instrumentos de Deus Pai para que o nosso planeta seja o que Ele sonhou ao criá-lo e corresponda ao seu projeto de paz, beleza e plenitude. O problema é que não dispomos ainda da cultura necessária para enfrentar esta crise e há necessidade de construir lideranças que tracem caminhos, procurando dar resposta às necessidades das gerações atuais, todos incluídos, sem prejudicar as gerações futuras. Torna-se indispensável criar um sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a proteção dos ecossistemas, antes que as novas formas de poder derivadas do paradigma tecno-económico acabem por arrasá-los não só com a política, mas também com a liberdade e a justiça” (LS 53).

A China é uma das economias que mais crescem; mas nós — os que estamos aqui — também já vimos na televisão aquelas cidades chinesas em que se não pode sair à rua sem uma máscara, de ar carregado de gazes e que se pode cortar à faca. Isto é: a economia chinesa cresce à custa de quê? Com quem aprendeu a China a proceder assim? Claro que com a revolução industrial europeia. Se os nossos avós procederam assim, porque não podem eles agora fazê-lo também? De resto, aqui ao lado, Madrid também já usa a máscara e os seus automóveis circulam na cidade, sim, mas alternadamente (matrícula par ou impar).

Perante este quadro — pequeníssimo —

“alguns defendem a todo o custo o mito do progresso, afirmando que os problemas ecológicos se resolvem simplesmente com novas aplicações técnicas, sem considerações éticas nem mudanças de fundo.

No extremo oposto, outros pensam que o ser humano, com qualquer uma das suas intervenções, pode ameaçar e comprometer o ecossistema mundial, pelo que convém reduzir a sua presença no planeta e impedir-lhe todo o tipo de intervenção.

(…) Sobre muitas questões concretas, a Igreja não tem motivo para propor uma palavra definitiva e entende que deve escutar e promover o debate honesto entre os cientistas, respeitando a diversidade de opiniões. Basta, porém, olhar a realidade com sinceridade, para ver que há uma grande deterioração da nossa casa comum. A esperança convida-nos a reconhecer que sempre há uma saída, sempre podemos mudar de rumo, sempre podemos fazer alguma coisa para resolver os problemas” (LS 60).

No entanto,

«por causa da alta velocidade das mudanças e da degradação, que se manifestam tanto em catástrofes naturais regionais como em crises sociais ou mesmo financeiras, … há regiões que já se encontram particularmente em risco e, prescindindo de qualquer previsão catastrófica, o certo é que o atual sistema mundial é insustentável a partir de vários pontos de vista, porque deixamos de pensar nas finalidades da ação humana: “Se o olhar percorre as regiões do nosso planeta, apercebemo-nos depressa que a humanidade frustrou a expectativa divina”» (LS 61).

Arlindo de Magalhães, 29 de Janeiro de 2017

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