“À Marcos”

Volto a Marcos. Relembro que – ele que nascera em Chipre e era primo de Barnabé – terá aprendido, já em Roma, via Pedro e Paulo!, muita coisa da vida de Jesus e muita outra dos seus ensinamentos.

Eu, que nunca fui capaz de tirar uns simples apontamentos numa pequena reunião, admiro-me dos que são capazes de o fazer. Marcos é um deles: um acontecimento que aconteceu e um ensinamento que alguém transmitiu, ele guardava-os na sua memória, não havia ainda nem computadores nem papel sequer. Vinham-lhe à memória estes dados, quando deles precisasse.
O seu Evangelho é, por isso, muito simples e muito narrativo. Há uma expressão do nosso popular português aqui inspirada: “diz lá isso à Marcos!”, quer dizer, sem complicações, rapidamente, linguagem que toda a gente entenda!

Marcos, portanto, colheu muito material de Barnabé, de Pedro e de Paulo que lhe serviu para escrever o seu Evangelho. Não nos esqueçamos, entretanto, da besunda que se armou entre Barnabé e Paulo quando Marcos não pôde seguir caminho com Paulo. Depois em Roma, no entanto, já Barnabé desaparecera, vivia com Pedro e Paulo, e deles aprendeu muito do que ele não viveu.

Como prova do que digo, Paulo citou-o nos seus escritos: na Carta aos Colossensses, enviou-lhes saudações de “Marcos, primo de Barnabé” (Cl 4,10); na 2ª Carta que enviou a Timóteo, disse-lhe: “Traz contigo Marcos pois me será de grande ajuda no ministério!” (2 Tm 4,11); e a Filémon disse: “Saúda-te Marcos……, meu colaborador” (24).

Marcos é pois um escrevedor “à Marcos”: duas palavras e está tudo dito.
Um exemplo. Logo no início do seu Evangelho, aparece esta frase tão pequenina carregada de notícias: “Chegado o sábado, Jesus veio à Sinagoga de Cafarnaúm e começou a ensinar. E maravilhavam-se com o seu ensinamento pois os ensinava como quem tem autoridade e não como os doutores da Lei” (1, 21-22).

Está tudo dito, ponto final parágrafo: Jesus era um judeu e, como tal, respeitinho pelo Sábado. Vinham ter com ele à sinagoga, quando ele vinha orar à comunidade sinanogal. Aí se cumpria toda a liturgia judaica: a profissão de fé, a oração, o canto, as leituras da Tora (Lei) e dos Profetas, e as bênçãos. Sem grandes explicações ficava-se também logo a saber que os Doutores da Lei não eram muito queridos… Na Sinagoga, pelo menos naquele dia, havia quase sempre um “espírito maligno” (1,23).

Dali partiram para casa de Pedro…, a sogra estava doente…
Claro que, no Evangelho de Marcos, há muitos mais doentes. Desde logo nesta primeira Jornada de Cafarnaúm, “até à noitinha, depois do pôr do sol! (1,32), trouxeram-lhe tantos doentes e possessos que a cidade quase se juntou inteirinha à porta da casa (da sogra de Pedro).
Mas todos nós sabemos que a hipérbole é uma figura de estilo! É por isso que em muitos lugares e às vezes chove a cântaros ou chovem cães e gatos!

O Evangelho de Marcos é o mais pequeno de todos. Por isto que acabo de tentar explicar.
Num texto breve, Marcos diz muito mas não se perde em explicações. Ouviu Barnabé, Pedro ou Paulo a falar de um acontecimento da vida de Jesus ou uma catequese de Pedro ou de Paulo, fixou tudo na memória, já está! Dizem os peritos que os demais evangelistas, Mateus, Lucas e João se guiaram todos e muito pelo trabalho primeiro de Marcos. Teve cada um muito mais tempo para preparar melhor o seu texto!

Arlindo de Magalhães, 28 de janeiro de 2018

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