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PA NEWS PHOTO 20/4/98

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Situada a Norte da Samaria, que já era praticamente pagã, Cafarnaum era-o ainda mais. Terra dos irmãos Pedro e André, Jesus andou muito por ali: era “a sua cidade” (Mt 9,1), pregou na sinagoga que ali existia (Lc 4,31), onde toda a gente ficava maravilhada com o seu ensinamento (Lc 4,32). Mas a verdade é que o êxito da sua pregação foi tão escasso que o mesmo Jesus, citando Isaías (6,9-10), disse da sua cidade: “O coração deste povo é duro” (Mt 13,15).

A provar isto que digo, Jesus entra em Cafarnaum e aparece-lhe logo um centurião romano, pagão.

O centurião era um soldado profissional do exército de ocupação de Roma que mantém a ordem militar na Palestina, o país de Jesus. O seu ofício não era fácil: os judeus conservaram sempre uma identidade nacionalista muito forte e não se resignavam a permitir que as águias de Roma controlassem os destinos da sua pátria. Aqui e ali levantavam-se mesmo vozes a contestar esta presença romana, o que levaria, algumas décadas depois da morte de Jesus, a um levantamento massivo contra o império. Iam ocorrendo também, aqui e ali, repressões sangrentas do poder estabelecido como a que refere Lucas (13,1/2) quando Pilatos mandou executar alguns galileus, sufocando assim, certamente, uma qualquer rebelião. Por tudo, ser militar romano na Palestina não era nada fácil.

E é sobre este pano de fundo que se situa o relato evangélico de hoje. A sua primeira surpresa vem do facto de um oficial romano ter a estima dos judeus. O texto afirma mesmo que ele «estima a nossa gente»; tinha até ajudado os judeus a construir uma Sinagoga. Tudo nos permite supor que podia tratar-se de um convertido, tornado portanto um prosélito. Prosélito era um grego ou romano que de alguma maneira aceitava a tradição religiosa de Israel, nomeadamente o seu monoteísmo, imitava a sua honradez moral e participava das suas esperanças. Alguns chegavam mesmo a circuncidar-se, tornando-se assim verdadeiros «Filhos de Abraão», marcados na carne. Isto é: convertia-se do paganismo ao Judaísmo.

Este proselitismo judaico era muito forte no tempo de Jesus, de tal modo que muitos chegaram a pensar que a religião judaica chegaria a conquistar espiritualmente o próprio império. Assim se entende a posição do centurião: conquistador de Israel militarmente falando, tinha sido religiosamente conquistado pelos judeus.

O Livro dos Atos fala muito destes prosélitos, abundantes na história da Igreja antiga: eles escutavam com alegria a Palavra de Deus, convertendo-se à Boa Nova de Jesus. No entanto, sobretudo depois da destruição de Jerusalém pelo exército romano no ano 70, com o esmagamento brutal e sangrento da resistência judaica, é o próprio judaísmo que se fecha sobre si, rejeitando estas conversões. E vai ser a jovem Igreja a herdar e levar à prática a velha postura de tipo universalista do antigo Judaísmo, de que já Salomão se faz eco na que foi a primeira leitura de hoje: a Igreja de Jesus (com uma missão universal de pregar o Evangelho) distancia-se dos judeus (fechados no seu nacionalismo religioso).

Já naquele tempo havia comunicação religiosa: são inúmeros os encontros de Jesus e crentes de outras religiões, os Atos dos Apóstolos dão notícias do mesmo.

O Concílio Vaticano II — num documento titulado “A Igreja e as religiões não cristãs” — disse claramente que “é função da Igreja fomentar a união e caridade entre os homens e até entre os povos … [pois que] ela nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo”. E do Islamismo diz assim:

«A Igreja olha também com estima para os muçulmanos. Adoram eles o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração, como a Deus se submeteu Abraão, que a fé islâmica de bom grado evoca. Embora sem o reconhecerem como Deus, veneram Jesus como profeta, e honram Maria, sua mãe virginal, à qual por vezes invocam devotamente. Esperam pelo dia do juízo, no qual Deus remunerará todos os homens, uma vez ressuscitados. Têm, por isso, em apreço a vida moral e prestam culto a Deus, sobretudo com a oração, a esmola e o jejum.

E se é verdade que, no decurso dos séculos, surgiram entre cristãos e muçulmanos não poucas discórdias e ódios, este sagrado Concílio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreensão mútua e juntos defendam e promovam a justiça social, os bens morais e a paz e liberdade para todos os homens.»

E termina assim o Concílio:

“Não podemos invocar Deus como Pai comum de todos se nos recusamos a tratar como irmãos alguns homens, criados à Sua imagem. De tal maneira estão ligadas a relação do homem a Deus Pai e a sua relação aos outros homens seus irmãos, que a Escritura afirma: «quem não ama não conhece a Deus» (1 Jo. 4,8) ”.

Tivemos muçulmanos entre nós e connosco. Espero que possamos ir visitá-los em sua casa (mesquita), de modo que sejamos todos filhos do Pai que está nos céus.

Arlindo de Magalhães, 29 de Maio de 2016

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