O românico de Amarante

Telões-cópiaIgreja paroquial de Santo André de Telões

Directamente derivado da antiga arte dos Romanos, o românico inspirou-se nas basílicas e cidades latinas.

No românico, porém, entraram também elementos bizantinos e orientais. As paredes, de grande espessura e poucas janelas, eram reforçadas com contrafortes. Mesmo assim as naves eram estreitas, e as portas redondas na parte cimeira. No séc. X surgiriam as abóbadas em pedra. E pouco a pouco o desenho do edifício foi ganhando a forma de uma cruz. As fantasias dos arquitectos ficava-se apenas pela decoração dos pormenores: cachorros, capiteis, tímpanos, etc. O espaço sagrado e interior, sempre com pouca luz, colocava o crente num clima de interioridade e silêncio: a não-luz convidava à aproximação ao mistério.

Tudo isto, no entanto, gerava uma estética de identidade própria conforme os lugares — Borgonha ou Vale do Sousa —, as culturas — rural, montanhosa ou ribeirinha —, e os tempos — séc. XI ou XIII.

Assim é o românico que envolve Amarante. Mais rico, mais pobre, mais antigo, mais recente… e nós vamos visitá-lo no próximo fim de semana.

Do mosteiro da Serra do Pilar ao do Salvador de Grejó

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No séc. XVI, estava em ruínas o mosteiro de Grijó que se dizia do Salvador da eclesiola. Eclesiola ou [I]grejo[la] são diminutivos derivados do grego eclesia > igreja pequena ou igrejinha. Reconstrui-lo ou edificar outro? Depois de muito discutir, resolveram os monges construir um outro mosteiro crúzio, mas agora defronte do Porto, do outro lado do rio,  num monte que se dizia de S. Nicolau — ainda hoje se fala no morro (e seu jardim), isto é, no cimo de um monte não muito alto mas de vertentes acentuadas.

Em 1542 havia já crúzios no mosteiro de Santo Agostinho da Serra que ainda se não dizia do Pilar.

No próximo Sábado, dia 30 de Maio, uma caminhada da Serra do Pilar à Casa-mãe do Salvador de Grejó

Siro López

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Um grande grito silencioso

“É fundamental fazer-se ouvir num mar de imagens e mensagens de usar e deitar fora. As minhas imagens pretendem ser reservas de silêncio num espaço cheio de ruídos”

No Auditório Municipal de Vila Nova de Gaia,
23 de Maio de 2015, 21H30
(grátis, mas com bilhete pedido na entrada)

Santa Teresa de Ávila

nascida em Março de 1515
nos 500 anos do seu nascimento,
lembrar que na igreja da Serra do Pilar
há uma imagem de Santa Teresa de Ávila.

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Com a sua, talvez, poesia mais conhecida

(tradução de José Bento):

Nada te inquiete,
nada te assuste;
pois tudo passa,
Deus não muda,
A paciência
alcança tudo.
Quem Deus possui
nada lhe falta.
Só Deus nos basta.

Música no Paraíso

Músicos

A Antena 2 está transmitir um conjunto de programas sobre a História da Música cristã aos domingo às 22 horas

(com repetição aos Sábados às 11 da manhã).

Foram já transmitidos (e podem escutar-se ainda, via Internet):

5 e 11 de Abril: A música bizantina

12 e 18 de Abril: O canto gregoriano

19 e 25 de Abril: A Ars antiqua e a Ars nova

Serão ainda transmitidos:

26 Abril e 2 Maio: O canto monástico de Hildegard von Bigen

3 e 9 de Maio: A música cristã renascentista

10 e 16 de Maio: Palestrina, Allegri e a Nova Música Católica

17 e 23 de Maio: O barroco na Música Sacra

24 e 30 de Maio: Bach e a instituição de uma Nova Música

31Maio e 6 Junho: A Música Cristã e o Iluminismo

A não perder.  Muita qualidade.

Padre Gaspar, morreu há 20 anos

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No dia de Páscoa de 1995, 16 de Abril, mal terminada a celebração da Comunidade para a qual sou presbítero, tomei a Reserva Eucarística para a celebração possível da Ressurreição com o Gaspar. Sabia que ele estava no fim: na tarde do dia anterior, no fim de um forte acesso de tosse, tinha conseguido dizer-me: “Deus está a puxar demais pela corda! Está-me a custar muito morrer!”. Naquela manhã, quando eu entrei em sua casa, tinha ele acabado o seu Tempo.

Manoel de Oliveira

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“Repare que Manoel de Oliveira, que sempre assumiu que o teatro era o paradigma do seu cinema, vai baixar à terra no dia em que se celebra o momento mais teatral e dramático da Paixão de Cristo. (…) Ele teria gostado disso, certamente”, comentou o escritor Mário Cláudio, referindo-se ao filme O Acto da Primavera, 1963, onde o realizador registou um Auto da Paixão realizado em Trás-os-Montes.

“O Manoel estava farto dos filmes — disso que agora só temos nos centros comerciais. Ele gostava era do cinema. Por isso, pegou nos filmes dele e levou-os para o céu” (João Botelho, realizador).

Exultai e alegrai-vos!

Era Mozart (1756-1791) um jovenzito de  17 anos quando escreveu este motete – Exsultate, Jubilate (K 165), Exultai, alegrai-vos! Porquê?

Nascido em Salzburg, hoje Áustria, estava ele em Milão a propósito da apresentação de uma ópera da sua autoria – Lucio Silla – onde conheceu um cantor, castrado como na época era normal. Para ele escreveu então o motete. Nesta altura da sua vida, 17 anos!, tinha já escrito muitas música digâmo-la sacra o Conde-príncipe, que era também o arcebispo, de Salzburg.  Exultai e alegrai-vos! A letra não é famosa, não se conhece sequer o seu autor. Mas está cheia, de encantamento e exultação, clima que Mozart captou e transmite.

Com três andamentos, os dois primeiros conduzem necessariamente para o último que termina num cenário sonoro de brilhantismo exuberante.

Alegrai-vos, porque ele ressuscitou!

Abertura da Páscoa russa

Oito dias antes da “santa semana”, pode ou deve ouvir-se esta obra musical de Rimsky Korsakov.

Nela se misturam reminiscências do tempo pagão, do Antigo Testamento e dos Evangelhos; mas ainda e sobretudo a luz e o pão sem fermento da Páscoa, a alegria e a dança da Ressurreição.

Rimsky Korsakov, músico russo que viveu entre os anos 1844 e 1908, escreveu esta obra nos anos 1887-1888.

Os Lázaros

O próximo domingo, 5º da Quaresma, 22 de Março, é o dia da festa dos Lázaros, pois que nele se lia na Liturgia o texto de S. João (11,3-45) sobre a ressurreição de Lázaro. No Porto ainda não se apagaram as luzes desta antiga festa popular, no Jardim de S. Lázaro, no Porto (ao lado dos Poveiros).

A partir dessa história, Schubert (1797-1829), o grande músico do século XIX, escreveu uma cantata, assim se chamava uma composição em que se cantava ou contava uma história ou acção de índole religiosa. Era uma espécie de ópera sem representação cénica.

Chama-se Lazarus, esta obra inacabada de Schubert (D. 689), descoberta já depois da sua morte. Pode querer isto dizer que teria o compositor consciência de que o que havia escrito precisaria de uma “última mão”. Schubert, o maior melodista da música europeia, dizem os críticos e historiadores, morreu muito jovem ainda, com 32 anos.

“Entra no teu quarto, fecha a porta…” (Mt 6,7) e escuta.

Narciso Rodrigues

Narciso 1971

“O Doutor” nasceu no Porto há exactamente 100 anos (4 de Março). Recordar alguns títulos por ocasião da sua morte, em 18 de Dezembro de 1995, pode não ser muito adequado. Mas, só meia dúzia: A referência de uma geração, Doutor, vamos ouvir os grilos?, Um homem que fez homens, Um século, um estilo, uma vida, Homem espiritual, Um padre seduzido pelo Evangelho…

No seu funeral, ia já longe uma Liturgia interminável, morosa e fria, quando aconteceu o impensável: alguém ousou, lá do fundo do templo (eu escrevi do templo, que não do tempo), começar a cantar o “Meu Senhor Jesus Cristo, ofereço-vos o meu dia inteiro: o meu trabalho, as minhas lutas, as minhas alegrias e as minhas penas …”. Já os mais novos perguntavam que cantiga era aquela, e alguns outros engoliam talvez algum sapo vivo. E enquanto poucos ainda, na capela-mor, trauteavam a antiga oração jocista, já outros não seguravam as lágrimas.

Fazia-se assim justiça a um homem que, de “o meu trabalho, as minhas lutas, as minhas alegrias e as minhas penas” para “as alegrias e esperanças, tristezas e angústias” do Vaticano II, deu apenas um passo

Narciso Rodrigues, presbítero, nado e falecido no Porto (1905 – 1995).

Quaresma

A Luta entre o Carnaval e a Quaresma (1559), de Pieter Bruegel (1564-1638)

A Quaresma tem, tradicionalmente, muitas receitas. Mas, sempre que as práticas religiosas se tornam puro ritual, perdem o seu sentido. A proposta inicial de um tempo catecumenal dedicado à oração, ao jejum e à partilha não pode ser reduzida a algumas rezas mais, à higiene alimentar, aos tostões de reserva para os pobres e às chamadas confissões. Se assim fosse, a Quaresma apenas reforçaria as máscaras que nos escondem de nós mesmos e que disfarçam a situações reais.

Que é, então, a Quaresma, ou, como se deve preparar a Páscoa?

 

A POBREZA MATA!

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O Grupo Justiça e Paz da Comunidade Cristã da Serra do Pilar realiza no próximo dia 27 de fevereiro, pelas 21:30 horas, no Mosteiro da Serra do Pilar, uma reflexão e debate com Manuel Brandão Alves sobre “Acabar com a exclusão social e a pobreza: uma questão de Justiça e de Paz”.

Sabemos que a pobreza mata: os que nela perecem, a felicidade dos que sobrevivem, a vida social e o futuro de todos nós. Como disse Nelson Mandela, «A pobreza não é um acidente. … foi criada pelo  homem e pode ser removida pelas ações dos seres humanos» antes que se transforme numa imensa paisagem.

Pretendemos ir mais além, no debate: refletir e procurar caminhos e ações que permitam um desenvolvimento económico que contemple o combate contra a pobreza. «A necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza não pode esperar. Os planos de assistência, que acorrem a determinadas emergências, deveriam considerar-se apenas como repostas provisórias» (Papa Francisco, Evangelii Gaudium).

Manuel Brandão Alves foi Professor Catedrático do ISEG, Universidade Técnica de Lisboa e Presidente da Associação Nacional de Direito ao Crédito. Integra o Grupo Economia e Sociedade (http://areiadosdias.blogspot.pt/) da Comissão Nacional Justiça e Paz.

Carnaval e entrudo

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Apesar de as origens da palavra serem incertas, crê-se que deriva do latim carnem levare, abster-se da carne.

Esta suspeição coincide com o facto de o Carnaval ser a última festa antes da Quaresma, tempo também de jejum ou partilha com os mais pobres.

A origem da festa pode buscar-se no mundo romano ou até anterior, nas festas bacanais. De facto, Roma era o centro das festas carnavalescas: o esplendor e a riqueza da festividade eram inigualáveis.

Ao longo do tempo já cristão, o carnaval desempenhou um papel importante no desenvolvimento do teatro popular e no folclore.

Tem também o nome de Entrudo, por ser a entrada — introitus, em latim — para a Quaresma.

Os leprosos do nosso tempo

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A grande diferença está em que enquanto o Levítico dizia, para que não restassem dúvidas, “Todo o tempo que durar a doença considerar-te-ás impuro e, como tal, viverás à parte, a tua residência será fora”, Jesus “tocou-o … e o homem ficou curado”.

Todas as gerações da história tiveram os seus leprosos, marginais, arrumados para o canto, deitados para “fora”. São impuros, não se misturam nem deixam que se misturem, os pobres com os ricos, os idosos com os novos, os doentes com os sãos, os desempregados estão mesmo à parte, o interior também face ao litoral, Aldoar com Gomes da Costa, a Quinta da Marinha com a Zona J, os condomínios são fechados, os bancos têm a polícia à porta, quando a gente ouve um carro da polícia a gritar rua fora não é que esteja alguém a morrer, … há muitos leprosos  no tempo que corre. E os maiores são os pobres.

Os que analisam a situação actual coincidem em afirmar que a sensibilidade da humanidade diante do repto da pobreza e da injustiça anda efectivamente por baixo. Até porque há recursos, dinheiro, conhecimen­tos e tecnologia para acabar com ela a curto prazo. Mas falta exactamente a vontade política de o fazer. Muitos falam em “tempos de simulação” ou de perca do sentido da realidade, de “cultura da indiferença diante do mundo das vítimas”.

Dia Internacional Contra a Corrupção

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O tempo está hoje cheio de “demónios”: “Satanás” lhes chamou a Idade Média. Satanás tem hoje muitos outros nomes: Ter, Poder & Saber, Injustiça, Opressão, abuso de Autoridade, manipulação da Informação, Corrupção, Interesse, Lucro… Por tudo isto é que, de há muito, aos batizandos, a Igreja exige a renúncia: “Renuncias a Satanás?”.

O Tempo está hoje dominado por estes demónios. É preciso exorcizá-los, destruí-los com tiro certeiro, “à Marcos”.

Porque o Homem salvo por Jesus Cristo, em vez de dominado, começa a dominar os demónios que vivem no reino das Trevas. E aos batizados foi dito: “Iluminados por Cristo, vivei sempre como filhos da Luz”.

Marcos, o evangelista

S MarcosFilho de uma Maria, em casa de quem se reunia a primitiva comunidade de Jerusalém (Act 12,12), e primo de Barnabé (Cl 4,10), João Marcos, conhecido depois só por Marcos, acompanharia Paulo e o primo Barnabé na viagem apostólica dos dois. No entanto, em Pafos, um porto marítimo na ilha de Chipre, não se sabe porquê — muita coisa correu mal entre os primeiros seguidores de Jesus e entre diversas comunidades, como noticiam os Atos dos Apóstolos! —, Marcos abandonou-os e foi para Jerusalém (Act 13,13). Possível entrado em discórdia com Paulo. Posteriormente, estavam Paulo e Barnabé em Antioquia, este último lembrou-se do primo que estava em Jerusalém, ali perto, que poderia acompanhá-los; e propôs a Paulo que Marcos fosse com eles numa nova investida evangelizadora. Como conta Lucas nos Atos (15,35-41), foi o fim do mundo: argumentando que não tinha sentido nenhum levar por companheiro quem deles se tinha já separado, Paulo e Barnabé entraram em discussão com tal violência que acabaram por se separar. Paulo seguiu o seu caminho com Silas (15,40), o que seria em Roma o escriba de Paulo e de Pedro, e Barnabé dirigiu-se à Cilícia e à Síria, levando consigo o primo, o nosso (João) Marcos (15,39).

Seja como for, não muito tempo depois, Marcos aparece em Roma ao lado de Paulo (2 Tm 4,11; Flm) e de Pedro que lhe chama “meu filho” (1 Pe 5,13). A tradição admite que tenha sido Pedro, mais velho que ele pela certa, que lhe tenha proporcionado grande parte da informação com a qual Marcos escreveria depois o seu Evangelho.

O seu escrito é o mais antigo dos quatro — Mateus, Marcos, Lucas e João -, o mais pequeno e, digamos, o mais vivo. Concentra-se mais nos factos e nas viagens de Jesus do que nas suas palavras.