Passagem

Barnett Newman, ‘black fire’ (1963)

Peço desculpa de quantas vezes repetir o mesmo: há coisas que são fundamentais e outras ridículas. Sabem porque é que o baixo clero meteu na cabeça do povo que em certas sextas-feiras não se pode comer carne? Repetirei para outra vez!

Agora. Antes de mais nada, a Igreja primitiva celebrou uma festa pascal semanal: foi o “primeiro dia da semana”, o “dia a seguir ao Sábado”, aquele em que Jesus ressuscitou, mais tarde chamado o domingo ou “dia do Senhor”, também “dia do sol” e “oitavo dia”. É clara a ressonância pascal de todas estas expressões referidas ao Senhor Jesus ressuscitado.

Como é que desta Páscoa semanal se passou à anual? Tratou-se de facto de um passo importante na Liturgia cristã, de amplas consequências para o futuro, pois a Páscoa anual viria a ser o verdadeiro gonzo de toda a Liturgia cristã e do próprio ano litúrgico.

Mas é hoje praticamente impossível determinar quando isso aconteceu. Certamente que muito cedo: é até possível que a Carta de Pedro, centrada no tema do Batismo e da Páscoa do Senhor, seja uma verdadeira “folha da celebração” de uma Vigília Pascal celebrada em Roma já pelos anos 50 do séc. I. No entanto, as primeiras notícias que nos chegaram da festa da Páscoa anual são relativamente tardias, da segunda metade do séc. II. Parece certo que ela começou por se celebrar primeiro no Oriente, em Jerusalém concretamente, só depois tendo depois passado a Roma.

A Páscoa cristã assenta numa festa anterior religiosa muito mais antiga, que primeiro foi pagã e de clara ressonância cósmica: repito mais uma vez. Quando a Natureza se renovava e renascia, com o nascimento da Primavera, os nossos antepassados pagãos louvavam as divindades oferecendo-lhes as primícias dos seus frutos: os pastores um cordeiro, os agricultores um pão novo (sem fermento) cozido com a farinha moída do primeiro trigo colhido nos campos do Médio Oriente. Sobre esta festa pagã e seus rituais – cordeiro assado, saladas, pão ázimo e depois vinho – assentou depois a festa pascal judaica que celebrava um facto histórico: a sua libertação do Egipto. É sobre esta festa judaica, que Jesus celebrou com os seus, que assenta a festa cristã da Páscoa da Ressurreição do Senhor que continuamos a celebrar ritualmente com “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29 e 36), pão de trigo sem fermento e com vinho.

Que celebramos então na Páscoa?

Foi certamente S. João quem melhor respondeu a esta pergunta, pondo na boca de Jesus, sentado já à mesa para a “última ceia”, estas palavras: “Saí do Pai e vim ao mundo; agora deixo o mundo e retorno ao Pai” (Jo 16,28).

Nelas faz o evangelista toda uma síntese do mistério de Cristo. A vida de Jesus não é uma pura sequência de factos soltos, mas uma existência penetrada de uma dinâmica clara e consequente.

Define-a, antes de mais nada, todo um processo de humilhação e/ou abaixamento que se torna visível com o seu nascimento (“desceu dos céus e incarnou … e se fez homem”) e que acaba na morte (“Humilhou-se até à morte e morte de cruz” – Fl 2,8). Depois, um movimento inverso, um processo de glorificação e retorno ao Pai, encenado por Paulo com estas palavras: “[Deus] ressuscitou-o dos mortos e sentou-o à sua direita nos céus, muito acima de [tudo] … não só deste mundo como do que há de vir” (Ef 1,20-21).

Há, portanto, nesta leitura da vida de Jesus a ideia de passagem de uma etapa a outra, o que o próprio S. João refere com as palavras “Tendo chegado a hora de passar deste mundo ao Pai…” (13,1). E é na cruz que, de uma maneira clara, se dá esta passagem, nela convergindo, digamos que de maneira misteriosa, tanto a humilhação e a morte de uma vida, como a sua glorificação e triunfo. O Cristo da Cruz é, assim e ao mesmo tempo o homem das dores, sacrificado e morto, e o Senhor triunfador, vencedor da morte.

Paulo, como só ele sabe fazer, dirá tudo num dos seus conhecidos hinos cristológicos:

«Cristo – que era de condição divina -,
não pretendeu dizer-se igual a Deus;
antes se esvaziou de si mesmo
e tomou a condição de escravo.
Tornando-se igual aos homens
e passando por um simples homem,
rebaixou-se a si mesmo,
submetendo-se inclusive à morte,
e morte de cruz.
Por isso mesmo Deus o exaltou,
e lhe deu um nome
acima de todos os nomes.
Assim sendo, que todo o joelho se dobre
ao nome de Jesus,
no céu, na terra e nos abismos,
e que toda a língua proclame:
Jesus Cristo é Senhor
para glória de Deus Pai» (Fl 2,6-11).

Neste hino se descreve todo o trajeto do mistério de Cristo, interpretado à luz da Páscoa. Os dois aspetos que ele reúne – humilhação e glorificação – aparecem aqui claramente desenhados e ligados, formando uma unidade indissolúvel.

Não esqueçamos que, como muitas vezes tenho dito, a Páscoa foi no princípio a única festa anual da Liturgia cristã (embora, desde o princípio, ela se celebrasse semanalmente no “domingo”). Só muito mais tarde, no séc. IV, apareceu a celebração do Natal.

Isto não quer dizer que a Igreja tenha estado quatro séculos sem a celebração total, ou completa, do mistério de Cristo; pelo contrário, porque na Cruz se termina o processo da sua humanidade começado na Natividade (a Incarnação) mas começa também o da sua glorificação, na cruz acontece esta passagem.

É tudo isto que celebramos na Páscoa. Por isso, e não por acaso, a palavra Páscoa significa “passagem”: celebramos a passagem de um Deus a homem, um Deus que passou do mundo de Deus ao do homem (Incarnação), e deste voltou ao de Deus (Redenção). E nós com ele e como ele: “Ou ignorais que todos nós fomos batizados [como ele] na sua morte e caminhamos por isso mesmo para uma vida nova?” (Rm 6,3).

Mas antes disso, por interesses teológicos, a Páscoa passou a significar outra coisa! Como veremos, espero!

Arlindo de Magalhães, 24 de março de 2019

Êxodo

Lucio Fontana, ‘Concetto spaziale, Attese’, 1960

Quem não sai do sítio e da situação que o sitia, quem não levanta os olhos do chão onde morre, não percebe as dimensões do mistério de Cristo. É preciso sair dos sítios e das situações que não levam a nenhuma saída, que não realizam nenhuma vocação, que não contribuem para nenhuma obra digna desse nome.

Foi por isso que Abraão, de Ur, da Caldeia; Moisés, do Egipto do Faraó; Elias, do Israel do tempo do rei Acab, etc, todos eles fugiram dos lugares onde estavam, rompendo com o “estado de sítio” que lhes retinha as vidas. Piraram-se!

Abraão, sabemos, procedente de Ur, na Caldeia, terra onde nasceu a História e vivia o povo mais culto de então, onde funcionaram os mais antigos tribunais e parlamentos que a História conheceu, onde se elaboraram as primeiras legislações sociais, e onde a técnica nascente atingiu, ao tempo, um altíssimo grau de desenvolvimento, Abraão ouviu a voz de IAVÉ, “o Senhor”, um Deus desconhecido para ele: – “Deixa a tua terra natal e da Casa de teu Pai e vai para a terra que eu te vou mostrar. Farei de ti um grande povo” (Gn 12,1/2). E ele partiu.

Seguiu-se-lhe Moisés. Estava retido na corte do faraó, mas viu a opressão do seu povo exilado no Egipto e escutou o seu clamor” (Ex 3,7); depois de muito hesitar, fugiu também com o povo atrás de si; e se começou por matar um egípcio (Ex 2,11-14) acabou a lançar ao mar os carros de guerra do faraó e todo o seu exército (Ex 15,4). Mesmo assim, haveria de morrer às portas da terra prometida, mas não alcançada.

Depois Elias, o Profeta com letra grande, mas que não escreveu, mas que teve que enfrentar o rei e as fúrias da rainha, e teve também de se esconder e fugir para não ser morto (1Re 19,1-8).

Apesar das promessas que Iavé lhe fizera, Israel nunca conseguiu ser a “terra dos vivos” que deveria ser, e, por isso, entrou em conflito com os profetas: a uns maltratou-os, a outros matou-os, a outros ainda expulsou-os; e eles tiveram de fugir e de se defender.

Mas tudo isto foi necessário para chegarmos ao Êxodo irreversível, à Páscoa última, a de Jesus. Porque a de Jesus carrega um pouco ou um tudo das páscoas ou passagens de Abraão, de Moisés e de Elias.

(Saltando a 2ª leitura,) No texto de Lucas, mais mistérico que episódico, aparecem os três, de novo, não como fantasmas do passado mas como pessoas vivas encontradas com o único que dá sentido aos seus próprios percursos; ele é o Cristo transfigurado, isto é, o ressuscitado avant la lettre; eles são Abraão – o pai na fé de todos os crentes, Moisés – o da primeira Páscoa, Elias – o príncipe dos Profetas de Israel. O primeiro, Abraão, foi grande pela fé com que saiu de Ur à procura de uma Terra Nova, o segundo, Moisés, pela coragem em enfrentar as causas da injustiça e da opressão, Elias, o que enfrentou os esbirros do Poder. Três figuras incontornáveis do percurso histórico do antigo Israel: o homem da fé contra toda a esperança (Abraão), o homem da coragem diante da opressão (Moisés) e o homem que enfrentou o ímpio rei Acab e sua pérfida esposa Jezabel.

Quem são as testemunhas deste encontro? Os três privilegiados amigos do Jesus, Pedro, Tiago e João. Pedro, nome que se traduz melhor por calhau, duro e firme, que por pedra – foi o Cabeça; Tiago, o primeiro (dos Doze) a cair em testemunho da fé (At 12,2), assassinado por mandato de Herodes logo no ano 43 da era cristã; e João, irmão de Tiago, um dos mais próximos e sintonizados com o Mestre, o tal que na manhã da ressurreição, correu com Pedro para o túmulo quando lhes disseram que o Senhor ressuscitara. E quando chegou, esperou que arribasse o velhote (Jo 20, 3-8). Então, concordaram os dois e começaram a crer” (Jo 20,8)

Digamos que está nestas seis figuras toda a história anterior e posterior: os anteriores, que levaram até ao Cristo (Abraão, Moisés e Elias), a posteriori, Pedro, Tiago e João que viram. E no centro o ressuscitado.

Depois deste enquadramento “histórico”, digamos assim, dum lado as três grandes figuras do Antigo Testamento, do outro as outras três que num momento particular da Igreja apostólica emergiram com particular relevo, o episódio evangélico termina abruptamente. Diz o texto que,  depois, Jesus ficou sozinho. No fim de narrar este momento, João diz que malta queria fazer Jesus “rei mas ele se retirou sozinho, para o Monte (6,15)

Dizem alguns comentadores: para ele devem olhar a Igreja e os crentes.

Maria, se tem estado lá, tinha certamente repetido o que dissera em Canã da Galileia: “fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).

Arlindo de Magalhães, 17 de março de 2019

Da Natureza à Páscoa

Peter Brüning, Nr. 136 (1962)

O homem antigo vivia numa profunda ligação com a Natureza que lhe aparecia conduzida por leis mais ou menos misteriosas de fecundidade ou de esterilidade, de renovação ou de morte. Coisa verdadeiramente sagrada!, a Natureza. Renovava-se periodicamente, tornava-se episodicamente furiosa e vingativa, alimentava o homem ou deixava-o na penúria. Mas o homem primitivo pressentia Deus na Natureza, era o seu Criador e Senhor.

Por isso, se ofereciam, ano a ano, à divindade, os primeiros frutos que, com dificuldade, o homem encontrava na terra ou da terra arrancava. O homem primitivo foi, por isso, desde muito cedo, caçador ou pescador, depois, pastor e só mais tarde lavrador.

Oferecer a Deus as primícias da Natureza era, para o homem antigo, reconhecer a sua condição de criatura e fazer um ato de fé no Deus Criador, a quem pedia que o abençoasse.

Mas, se o homem primitivo colhia da Natureza – do mundo botânico (silvestre) ou do animal (caça) – o que precisava para comer, já a seguir, não, porque ele próprio passou a dominá-la. Os animais, alguns, esses domesticou-os, os campos cultivou-os e logo aprendeu a conservar e a guardar: os cereais, a carne, alguns frutos; logo aprenderia a fazer compotas e conservas, etc., e a guardar naquelas velhas arcas dos meus avós…, vinham ainda muito longe frigoríficos e outras técnicas…

Assim nasceu a festa da Primavera, da Natureza rejuvenescida: de tempos longínquos, nela se imolava e comia ritualmente, em família, um cordeiro. Com o cordeiro, comia-se pão ázimo, pão novo, sem fermento, feito com a primeira farinha da primeira colheita possível depois de longo e rigoroso Inverno.

Era a festa dos Ázimos (Ex 23,15). O Livro do Êxodo legislava minuciosamente: “Guardarás a festa dos pães sem fermento” (Ex 23,15). Mas o Deuteronómio era mais minucioso:

tomarás as primícias de todos os frutos que colheres da terra e que o Senhor, teu Deus, te houver dado. Pô-los-ás num cesto e apresentá-los-ás no lugar que o Senhor tiver escolhido para aí habitar o seu nome [isto é, no Templo]. Apresentas-te ao sacerdote e ele receberá o cesto da tua mão e depositá-lo-á no altar de Iavé” (Dt 26,1-4).

Mas “o animal do rebanho[a comer] será sem defeito, macho, cria de um ano, cordeiro ou cabrito (Ex 12,5).

A atitude religiosa deste homem primitivo diz pouco ou mesmo praticamente nada ao moderno que somos, que nada sabemos já dos ritmos da Natureza: até à pouco havia sempre uma mercearia e, hoje, há sempre nem que seja um simples supermercado que, no nosso Primeiro Mundo, tem sempre tudo, peixe, fruta fresca e legumes com fartura, aconteça o que acontecer.

Mas, mesmo ainda no tempo antigo, tudo se complicou. “A fome era violenta em toda a terra”. Sabendo Jacob que havia trigo à venda no Egipto disse aos filhos: “Estais a olhar uns prós outros? Ouvi dizer que há trigo à venda no Egipto. Ide lá comprá-lo, para continuarmos vivos. Senão morremos! … e partiram a comprar o trigo no Egipto” (Dt 41,57 — 42,1-2).

Resumindo tudo: na memória histórica desta intervenção de Deus em favor do seu povo, entrariam depois José, filho de Jacob, Moisés e a fuga de Egipto, tudo acontecido no rebentar da Natureza (no campo e no rebanho), donde a festa do pão Ázimo (Ex 12,15ss), do pão sem fermento) e do nascimento dos “animais do rebanho” (Ex 12,3).

É aqui que assenta a festa da Páscoa judaica. Depois de uma (aparente e invernal) morte da Natureza, o Inverno, assim o povo que descende de um arameu errante (Abraão) ressurge anualmente na festa da Páscoa, que é a celebração da libertação histórica que Deus lhe inspirou e que o seu enviado – Moisés – encabeçou. “Mesmo depois de entrardes na terra que vos prometo, guardareis este rito (isto é, comereis um animal do rebanho, cordeiro ou cabrito, pães sem fermento e ervas amargas, Ex 12,8) e, quando os vossos filhos vos perguntarem ‘Que significa este rito?’, dir-lhes-eis: é a Páscoa do Senhor, que salvou as vossas casas e feriu o Egipto” (Ex 12, 26-27; Dt 16, 1-7).

O Deus de Israel não era apenas um Deus ligado aos ciclos naturais de fertilidade; era muito mais, era um Deus que estava com os sofrimentos do povo; e por isso o libertou. E esse acontecimento, verdadeira passagem de um estado de escravidão a um outro de liberdade, passou a ser celebrado com os mesmos ritos entranhados já no homem primitivo, o mesmo cordeiro, o mesmo pão sem fermento e as mesmas ervas amargas. Esta celebração fazia-se de noite, que de noite o povo fugira do Egipto: Esta é aquela noite!, Ó noite bendita!, cantaremos depois, na festa da Páscoa.

Mas não terminou ainda aqui a história da salvação. Na plenitude dos tempos, seria Jesus, enviado do Pai, a salvar o que estava perdido: quando o drama começou, era já de noite (Jo 13,30). E, quando morreu na cruz, inocentemente condenado, houve trevas em toda a parte (Lc 23,44), como se fora de noite. Esta é aquela noite!, Ó noite bendita!

Mas Deus ressuscitou-o (At 2,24; 3,15; 4,10: 5,30; 10,40; 13,30; 17,31; Rm 8,11; 10,9; 1 Cor 15,15; 2 Cor 1,9; 4,14; Hb 11,18, etc). E tudo isto juntamos na celebração da Páscoa: a morte e ressurreição de Jesus, e tudo o mais que está para trás, a Páscoa da Natureza e a gesta de Israel. E isto porque se Cristo não ressuscitou, é vazia a minha pregação e vazia a vossa fé (1 Cor 15-14). Exatamente por isso eu vos anunciei, antes de mais nada, o que eu próprio recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as mesmas Escrituras, e depois apareceu a Cefas e, a seguir, aos Doze (1 Cor 15, 3-4).

Como celebramos nós tudo isto? Com os mesmos ritos dos nossos antepassados: com cordeiro, não já do rebanho, mas cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, e com pão de trigo sem fermento, afinal a matéria de toda a celebração da Eucaristia, que, como dizemos todas as semanas na Anáfora, é memória da morte e ressurreição de Jesus.

Mas, para celebramos tudo isto, preparamo-nos. É a Quaresma.

Foi mau terem-nos metido na cabeça, no passado, uma Quaresma individualista: cada um prepara-se a si próprio, pela multiplicação de práticas mais ou menos penitenciais: jejum, abstinência (de quê?), confissão, via-sacra, conferências, etc. Cada um prepara-se, mas a Comunidade não se preparava, esperava antes que eles o fizessem. Mas é importante que a Comunidade o faça, porque a festa é da Comunidade.

Arlindo de Magalhães, 10 de março de 2019

Deserto

Nancy Eckels

Desde o século III que, claramente, toda a experiência vivida no Deserto pelo Povo hebreu, sobretudo na saída do Egipto no regresso do exílio, e por Jesus na preparação da sua missão, está presente no espírito da Quaresma cristã. A Liturgia quaresmal faz-lhe continuamente apelo, convidando a Igreja a repetir essa experiência. Porque foi no deserto que Deus falou ao homem de modo muito especial.

Como lugar geográfico, o deserto é um lugar não abençoado por Deus: nele, a água é rara, tal como acontecia no Jardim antes que Eloim fizesse chover sobre ele (Gn 2,5). Nenhuma vegetação nele sobrevive, e é escusado tentar cultivar o seu solo.  Fazer dum país um deserto, através da guerra, por exemplo, é reduzi-lo ao caos de antes da intervenção criadora de IAVÉ. Este lugar desolado é o oposto da «Terra», tal como a maldição é o contrário da bênção. No deserto só habitam demónios e animais selvagens.

No entanto, o deserto não é só terra de desolação. É também um dos lugares privilegiados da História da Salvação.  Porque, se Deus fez passar o seu Povo por esta «terra medonha» (Dt 1,19), é para o fazer entrar numa outra «onde corre o leite e o mel». Este é um dos períodos capitais da história de Israel que dará ao deserto uma significação religiosa muito profunda. De facto, se é um lugar de desolação, é também o lugar onde, durante 40 anos, o Povo se formou e IAVÉ se lhe revelou.

No deserto, o Povo caminhou, caminhou — um deserto só se pode atravessar — caminhou o povo, a esperança no coração e os olhos em frente. A sua travessia não é fácil, mas é nele que recebe a Lei e que IAVÉ faz com o Povo a Aliança (Nm 1,1s).

Durante 40 anos, o Povo atravessou-o, é verdade. Mas como era dura a travessia! O abandonado Egipto até parecia um paraíso!: a comida abundante e a segurança um realidade (Ex 14,12). Não é verdade que o Povo se pôs contra o Deus da Libertação?

Muitos morreram na sua travessia. E, no entanto, ao povo que se queixa, Deus dá uma comida e água (Ex 15,25). Só pouco a pouco ele irá percebendo a «lógica» deste Deus.

Um dia, o Povo chegou à Terra Prometida, de facto «de leite e mel», e a sua vida prosperou. Tanto que, rapidamente se esqueceu de Deus e começou a adorar ídolos.

Ao tempo de Jesus, algumas comunidades de crentes fugiam de Jerusalém e refugiavam-se no deserto (é o caso por exemplo dos Essénios de Qumrân). O próprio João Baptista se acolhe a ele para aí proclamar a sua mensagem. E logo renova os corações com a água do batismo, enviando-os para a vida normal, a trabalhar (Lc 3,10/14).

Na perspetiva dos evangelistas, Jesus revive as diversas etapas do Povo de Deus. É para isso que o Espírito de Deus o leva ao deserto, logo no início, para aí o pôr à prova (Mt 4,1/11); e, aí, ele ultrapassa e vence a prova permanecendo fiel ao seu Deus.

De algum modo ainda, a figura do deserto ajuda-nos a compreender o que é a vida cristã, um combate e um lugar de passagem até que, finalmente, entremos no repouso de Deus (Hb 4,1). Temos, entretanto, a certeza da vitória porque o Cristo, que nos precedeu, nos abriu o Caminho.

Arlindo de Magalhães, 6 de março de 2019

Quarta-feira de Cinzas

Grandes festas, grandes preparações.

Começa na 4ª feira, 6 de março,
a preparação da celebração da Páscoa 2019, às 21H30.

Naturalmente breve, às 23H00 estará toda a gente em casa,
que o dia seguinte é de trabalho.

Não é necessário salientar a importância desta celebração
no conjunto do ano litúrgico.

Quem quiser participar no jantar comunitário de jejum,
traz o seu pão e a sua maçã e comeremos em fraternidade às 21H00.
Da água trata a Comunidade.
No fim passa a cesta a recolher o resultado para a Partilha Fraterna.

Quaresma

Psalm 90: Before the Heavens Were Formed” by Linda Witte Henk

A Quaresma não é um tempo litúrgico autónomo. É, perdoem-me a imagem, uma espécie de escada para chegar acima, não um banco para a gente se sentar. A Quaresma foi criada para preparar a Páscoa.

A ressurreição de Jesus é o acontecimento central de toda a História da Salvação e foi como tal percebida desde o início pelos cristãos. Por isso, ao lado da Páscoa semanal que os cristãos sempre celebraram, hoje já não — o “primeiro dia da semana” ou o Domingo —, os cristãos, dizia, desde muito cedo começaram também a celebrar uma Páscoa anual. Só temos notícia desta celebração pascal anual um pouco mais tarde que a do Domingo, ali por meados do séc. II. A partir da Eucaristia dos primeiros tempos cristãos: “no primeiro dia da semana, … reunidos para partir o pão…, a pregação prologou-se até à meia-noite…, Eutico estava sentado numa janela, adormeceu a caiu…, [e tudo isto] até de madrugada” (At 20,7-12).

Tão grande festa, no entanto, precisou de preparar-se: um dia, dois e três …, 40 dias (Quadragesima > Quaresma). Por outro lado, e por influência da igreja de Jerusalém que tinha à mão os ipsissima loca (os próprios lugares) onde tudo aconteceu, foi-se formando uma liturgia episódica que celebrava, passo a passo, os “passos” da Paixão e Morte de Jesus. Assim nasceu o Tríduo Pascal, os três dias centrais da celebração da Páscoa, que se estendeu a uma quarentena de preparação — na cultura judaica o nº 40 apontava preparação.

E assim se foi formando em Jerusalém uma liturgia episódica da morte e ressurreição de Jesus. Uma mulher do séc. IV, de quem se não sabe nada a não ser que era galega, foi, entretanto, a Jerusalém em peregrinação e escreveu e já na cidade santa escreveu como, aí, se celebrava episodicamente a liturgia pascal. O Ocidente recebeu a notícia trazida por Etéria ou Egéria e organizou depois uma liturgia pascal também episódica: a Ceia, o partir do pão, o lava-pés, a leitura dos acontecimentos, a cruz, a morte, a alegria da Ressurreição…

Estava, portanto, organizada a celebração pascal, com o Tríduo no seu auge.

Mas, se o tempo de preparação festiva cresceu até aos 40 dias, a festa foi muito mais longe. Nas culturas antigas, a festa, fosse qual fosse, nunca se fazia só num dia. Ainda hoje há por aí casamentos de ciganos celebrados durante… quantos dias?; eu ainda fui a um casamento  à minha terra natal que durou 3 grandes dias! Se a Quaresma tinha 40, o Tempo Pascal — dizia — só parou nos 50 (penta + konta > cinco dezenas) dias seguintes: é o Tempo Pascal, o tempo da plenitude.

A Quaresma que esta semana iniciaremos foi desde o princípio percebida e vivida nas Igrejas como um tempo de disciplina ou jejum. Não era procurado por si, o jejum, pois que visava a libertação do espírito, necessária para atender ao essencial, sobretudo à partilha fraterna, a pensar nos mais pobres. [Claro que, hoje em dia, já não pensamos que o jejum é uma simples privação de boca. Os cristãos encontrarão hoje, na vida moderna, mil hipóteses de jejum, a muitos níveis, em muitos sectores de vida, dos hábitos adquiridos ao claramente supérfluo. Tempo de jejum daquilo de que me posso privar, até porque o irmão pode ter necessidade do que, pelo menos, não me faz grande falta].

Mas a Quaresma assumiu também, podemos dizer, uma dimensão batismal.

De início, era na grande noite da Páscoa, e só nela, que se celebrava o Batismo. Assim, ao tempo em que se batizavam apenas adultos que eram preparados para o primeiro dos Sacramentos da Iniciação ao longo de um tempo alargado, na Quaresma dava-se um apronto final para a grande e festiva celebração. A Liturgia da Palavra dos 5 domingos da Quaresma é uma sequência de 10 grandes quadros catequéticos de resumo ou repetição, 5 do Antigo Testamento e outros tantos do Novo Testamento. No ciclo C, que este ano ocorre, do Antigo Testamento: Moisés (e os egípcios), Abraão, Moisés e a manifestação de Iavé no Horeb, José e a Páscoa judaica, e o profeta Isaías a dizer «Algo de novo está a aparecer, não vedes?» (Is 43,19); e, do Novo Testamento: as tentações de Jesus no deserto, a sua transfiguração, a conversão (“se não vos arrepender-vos…”), os episódios do filho pródigo e da adúltera. Estes grandes quadros catequéticos ajuda(va)m as Igrejas e cada um dos já batizados a uma espécie de retorno às Fontes da Salvação, às Águas Batismais, a celebrar a Páscoa (ainda hoje, na Vigília Pascal, a água passa por toda a assembleia como referência memorial do Batismo).

Finalmente, terceiro, a Quaresma adquiriu também uma grande e importante componente penitencial. Porque a fragilidade do homem o leva quantas vezes a perder a Graça Batismal, porque o espírito do mundo (Satanás) é contrário ao Evangelho e continuamente desvia o homem do Caminho, é necessária a revivificação da penitência, eventualmente sacramental.

É verdade que a Quaresma — dizia — se transformou nos últimos séculos num tempo apenas penitencial. É esse o sentido fundamental do gesto da imposição das cinzas.

É curioso! A carga penitencial carregou de tal modo a Quaresma… que, mesmo aqui na Serra, nos últimos anos, tem vindo às cinzas (penitência) mais gente que às Ceias de jejum do Tríduo pascal (jejum > partilha de bens)!

Tudo somado, a Quaresma reduziu-se a um tempo de decadência que hoje ainda aumenta.

Perdida a dinâmica batismal do início, desaparecida a ligação íntima entre o Batismo e a Penitência, caída a Igreja num formalismo perigoso e sempre redutor que fez se perdesse o sentido do autêntico jejum (e da abstinência: abster-se do supérfluo), a Quaresma resume-se a exterioridades (procissões, paramentos roxos, confissões, a festa dita dos Lázaros, etc.) — folclore é o nome —, praticamente sem sentido. Em muitos sítios, perdeu-se mesmo a ligação da Quaresma à Páscoa, deixando de ser entendida e vivida como tempo de preparação para a festa pascal.

Mas sem Quaresma não pode haver Páscoa, e sem Páscoa para que serve a Quaresma? Venha o diabo e escolha! Porque se não há Quaresma sem Páscoa para que seve Páscoa sem Quaresma.

Comecemos então a celebrar a Páscoa pela 45ª vez!

Arlindo de Magalhães, 3 de março de 2019

O amor aos inimigos

Antoni Tàpies, “A.T.”.

No princípio, por um nada se matava um homem: por um rego de água, uma sacholada; hoje, com um tiro em qualquer escola americana ou em qualquer periferia degradada de uma grande cidade europeia, em Paris, Estrasburgo ou Estados Unidos, arma-se um morticínio. É o direito da vingança ilimitada dos tempos bárbaros. Por isso, se alguém matasse um Caim, a morte seria vingada sete vezes (Gn 4,15). Pior ainda: Lamec, um descendente de Caim, poderia ser vingado “setenta vezes sete” vezes por ter assassinado um homem que o houvesse simplesmente ferido e um rapaz que simplesmente o tivesse pisado (Gn 4,23-24).

Depois, houve um grande avanço: a tua vingança será só “olho por olho, dente por dente” (Ex 21,24), isto é, preceituava-se já proporção entre o agravo e a punição. Era a justiça da Lei.

É verdade que, já ao tempo de Jesus, certas correntes do Judaísmo se perguntavam se podia ser assim. E os rabinos judeus de Corinto formularam mesmo, ao tempo de Jesus, a regra de ouro negativa (ou de ferro): não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. Mas já conhecemos o caso do samaritano, inimigo, portanto dos judeus como João informa (4,9), que socorreu um outro “que descia de Jerusalém”, portanto judeu, que havia sido assaltado, espancado e abandonado meio morto (Lc 10,29-37).

Mas só o cristianismo soltaria definitivamente as amarras da Lei. Só ele formularia “fazei aos homens o que quiserdes que eles vos façam” (Mt 7,12), a lei de ouro positiva.

Isto é, só o cristianismo englobaria o amor dos inimigos no superlativo amor do próximo: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos perseguem e maltratam” (Mt 5,43-44).

Durante os primeiros anos do cristianismo, o mandamento do amor dos inimigos fazia claramente parte da identidade cristã. O que não foi fácil. Para que não houvesse dúvidas, Lucas, por exemplo, em vez de se pôr com teorias, contava histórias. Duas só, como exemplo. Jesus na Cruz: “Pai, perdoai-lhes que não sabem o que fazem” (Lc 23,24); e Estêvão, a ser apedrejado até à morte: “Senhor, não lhes leves em conta este pecado” (At 7,60). O amor aos inimigos não era uma regra jurídica, mas uma atitude característica e distintiva dos discípulos da primeira hora.

Nem se pense que foi fácil. As primeiras dificuldades que se colocaram aos cristãos vieram mesmo dos judeus: nesta guerra, a primeira vítima foi Estêvão. Depois foi o Império. Mesmo assim, paradoxalmente, Paulo escreveu: “recomendo principalmente que se façam súplicas, orações e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos aqueles que têm autoridade, para que tenhamos vida pacífica e tranquila, com toda a piedade e honestidade” (1 Ts 2,2).

Mas então? É que não se ama um amigo como um inimigo. E se o amor de um familiar ou de um amigo é questão de sentimentos e de ações, o do inimigo é uma questão de perdão, e de outras ações.

O Antigo Testamento não tinha dúvidas: “vossos inimigos cairão à espada diante de vós” (Lv 26,7). O cristão é chamado a fazer doutra maneira, como recomenda Paulo, citando aliás um dos últimos livros do Antigo Testamento (escrito apenas uns 200 anos antes de Cristo): “Não pagueis a ninguém o mal com o mal. (…) Se o teu inimigo tem fome, dá-lhe de comer, se tem sede, dá-lhe de beber. Fazendo assim, amontoas carvões em brasa em cima da sua cabeça” (Rm 12,17-20, citando Pr 25,21-22), isto é, dás-lhe a volta. O cristão não destrói (não mata) o seu inimigo, trabalha pelo seu futuro: ele quer ganhar o adversário, qualquer que ele seja. O amor aos inimigos não é uma simples resistência passiva, embora tenha sido um moderno a apontar uma atitude correta, numa expressão hoje já consagrada: luta não violenta. Não menos dura, não menos difícil. Ele que lutou com ela morreu às mãos dela. Estou a falar de Gandhi. “Ó meu Deus!”, foi a única coisa que se lhe ouviu, já prostrado com três tiros.

Tudo isto são as teorias. Depois na vida, elas apertam e a gente não sabe muitas vezes como fazer.

Há guerras que são para ganhar doutra maneira, de uma maneira muito mais difícil. Mas que é a única maneira de ganhar. Porque será que S. Paulo disse: “façamos o bem a todos os homens, mas sobretudo aos irmãos na fé” (Gl 6,10)?

Arlindo de Magalhães, 24 de fevereiro de 2019

As Bem-aventuranças

Demolição da igreja de St. Lambertus em Immerath, Alemanha (2018)
© Daniel Chatard, Juror’s Pick, Documentary, LensCulture Visual Storytelling Awards 2019

Mais ou menos, todos conhecemos esta página do Evangelho: Jesus subiu ao monte … e ensinava (os discípulos) dizendo-lhes: Bem-aventurados … Mas isto é no Evangelho de Mateus (cap. 5). No de Lucas, em lugar paralelo, quase tudo é diferente: Jesus desceu do monte e deteve-se num sítio plano com numerosos discípulos e uma grande multidão … e disse: Bem-aventurados…

Mas há mais: Mateus tem 9 bem-aventuranças, Lucas apenas 4; às de Mateus seguem-se as ditas antíteses (Ouvistes o que foi dito aos antigos … eu porém digo-vos…), às de Lucas as apóstrofes, ie, verdadeiras descomposturas (Ai de vós os ricos, os que estais fartos, os que agora rides…).

Todas estas diferenças — estou em crer — já não nos metem confusão. Estamos diante de escritos muito antigos que nos exigem um esforço de compreensão maior e diferente do que se nos pede ao lermos, por exemplo, o jornal diário.

Digo doutra maneira: sobre o como as coisas efetivamente se passaram e o autêntico ensinamento de Jesus (porque neste capítulo de Lucas trata-se de facto de um ensinamento autêntico de Jesus) passou já muito tempo; são de resto dois escritores diferentes — Mateus e Lucas — a dar uma diferente interpretação dos acontecimentos, tanto mais que tinham atrás de si comunidades diferentes que de modo diferente interpretaram os ensinamentos de Jesus.

A bem-aventurança é um género literário muito utilizado nos diversos espaços culturais do tempo, do Egipto à Grécia. No Antigo Testamento há vários exemplos: “Feliz o homem que não segue o conselho dos ímpios”, diz, por exemplo, o Salmo 1. Utilizava-se fundamentalmente na literatura sapiencial e no culto: “Felizes aqueles que guardam os meus caminhos” (Pv 8,32). Mas utilizava-se também, como hoje aliás, na vida familiar, a marcar momentos felizes. É de bom tom começar ou terminar um brinde com uma bem-aventurança, a exprimir um voto ou mesmo uma prece.

As bem-aventuranças do Evangelho são, no entanto, bem mais radicais. E desde logo três delas (a dos pobres, a dos que têm fome e sede e que choram, e a das perseguições); são tão radicais que, hoje ninguém duvida, foram mesmo ditas por Jesus. Diante de muitas coisas que o Evangelho diz que Jesus disse, como é que vamos saber se ele as disse ou não? Há uma regra que nunca falha: se se trata de uma coisa que só ele pode ter efetivamente dito, não há dúvida, disse-a mesmo. Por exemplo: chamar Abbá a Deus; Jesus disse isto de certeza absoluta, mais ninguém poderia ter tido a ousadia de o fazer, era impensável que alguém o dissesse no seu tempo.

É o que acontece com as bem-aventuranças (melhor dito, com as referidas três bem-aventuranças): elas soaram de maneira tão inesperada e nova aos ouvidos dos seus contemporâneos, isto é, é tão impossível que um qualquer rabino com a cultura do seu tempo pudesse tê-las dito, que — não há dúvida — foi Jesus que as disse, de certeza. Ponham o Vasco da Gama a falar de comboios a ver se a coisa pega!

Mesmo assim, Jesus terá dito “bem-aventurados os pobres em espírito” (pobres que o são no seu coração), como anota Mateus, ou simplesmente “bem-aventurados os pobres”, como regista Lucas? Eis a questão.

Chegados aqui, a esta pergunta, vamos lá pensar.

Lucas era um médico de origem pagã. Pertencendo a uma classe social no mínimo média, não era propriamente o que possa dizer-se um pobre, sobretudo naquele tempo. No entanto, o problema da pobreza, dos pobres e da propriedade atormentava-o; tanto mais que estava mesmo convencido que a relação do homem com a propriedade era campo de verificação da fé. Não esqueçamos que no seu outro livro — Os Atos dos Apóstolos — este mesmo Lucas insiste em informar que os cristãos de Jerusalém tinham tudo em comum, vendiam as suas propriedades e bens e dividiam o produto por todos segundo a necessidade de cada um (2,45), e que não havia entre eles nenhum necessitado porque todos os que possuíam terras ou casas as vendiam, trazendo depois (para a comunidade) o preço do que tinham vendido (4,34). Para além disso, é ainda Lucas que informa pormenorizadamente que, grassando uma grande fome em toda a região … os discípulos [de Antioquia] resolveram, cada um segundo as suas posses, enviar socorro aos irmãos da Judeia (At 11,29). E não passe pela cabeça de ninguém que Lucas estava a inventar pois que Paulo também nos dá três notícias deste movimento de solidariedade para com Jerusalém espalhado às Igrejas da Grécia (1 Cor 16,1-4; 2 Cor 8, 1-15; Rm 15,25-28).

Isto é, Lucas, originário duma classe no mínimo média, confronta-se e inquieta-se com o problema da pobreza: como poderia ele não falar senão da pobreza-pobreza, dos pobres-pobres? Bem-aventurados os pobres, porque vosso é o Reino dos Céus.

Mas Mateus tem outra sensibilidade, viveu certamente noutro contexto, noutra comunidade; e, porque para ele a Palavra de Deus não é uma realidade rígida que permita apenas uma interpretação literal, ele refere-se não unicamente aos pobres-pobres mas aos que têm um coração pobre ou de pobre, numa interpretação mais universal e alargada de pobreza. Qual deles tem razão? Afinal o que disse Jesus exatamente?

Não vou agora prosseguir em grandes explicações, mas mesmo assim peço a Agustina Bessa Luís que me ajude: “A desgraça não traz o desejo das humilhações, e é preciso conhecer certo direito aos padrões da riqueza, para apetecer outros mundos. Só um deus transcende a vileza e nasce miserável, para não perturbar a condição do que é humano. Porém, um homem rodeado de abismos deseja transpô-los e pouco lhe sobra da vida para a santidade” (Santo António, 1973, p. 147). Esta afirmação toca o fundo do mistério da Incarnação do Filho de Deus: “sendo de condição divina … humilhou-se a si mesmo assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens” (Fil 2,8); e explica também – a contrario – porque é que a esperança da moderna civilização ocidental colocada bem perto, no material, na riqueza ao alcance da mão, conduz apenas à desilusão e ao desastre.

Jesus, pelo que sabemos, não conheceu durante a sua vida terrena nem a riqueza nem o aplauso nem, por seu nascimento, participou dos bens culturais e económicos da classe superior. A Igreja primitiva não viveu em melhores condições.

E se Lucas radicalizou a questão da pobreza indo até ao fim, aos pobres-pobres, aos pobres de tudo, Mateus, por sua vez, universaliza a questão, abre-a, porque há ricos-pobres e pobres-ricos. Verdade ou mentira?

E já que falamos da Igreja de Jerusalém de que Lucas nos dá notícias a este propósito, da sua experiência direta de viver em necessidade e da necessidade de receber  de outras comunidades, não posso esquecer o texto mais violento de todo o Novo Testamento contra a riqueza, escrito paradoxalmente pelo tradicionalista e conservador Tiago, o irmão do Senhor, que foi o seu segundo responsável:

“Vós, os ricos, chorai e gemei por causa das desgraças que sobre vós hão de vir! As vossas riquezas apodrecerão e as vossas roupas serão comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata carregar-se-ão de ferrugem e ela dará testemunho contra vós e devorará as vossas carnes, como se de um fogo se tratasse. O salário que roubastes aos ceifeiros dos vossos campos clama e grita, e os seus gritos chegaram aos ouvidos do Senhor que tudo pode. Viveis em delícias e poucas-vergonhas sobre a terra, mas apenas saciais o vosso coração para o dia da vingança. Condenastes e matastes o justo, e ele não resistiu” (Tg 5,1-6).

É muito dura esta palavra, mas no fundo é apenas outra interpretação — vivida — da afirmação de Jesus — “bem-aventurados os pobres” — que afinal não conhecemos com exatidão. Ainda bem que dela temos várias interpretações, e qual delas a mais exata! Isto é como uma obra de arte: ninguém pode pretender dela a interpretação exata, ninguém pode afirmar foi isto ou aquilo que o seu autor pretendeu dizer com ela. Nós, os cristãos, não somos fundamentalistas (isto é, não pretendemos ser interpretadores literais das Escrituras, pois que a religião se baseia fundamentalmente na fé).

Tal como a Igreja primitiva, eu estou convencido que o grande testemunho cristão da Igreja hoje em dia é junto dos pobres, é partilhar com os pobres, pobres de todos os tipos, de bens materiais, mas, cada vez mais, não só. Tive fome, tive sede, estava nu, mas também estava só, estava a chorar, não sabia, não podia, quem de vós me deu a mão, me ouviu, me ajudou, me sentou à sua mesa? Vivi só, desesperei da minha doença, não me entendia com sei lá o quê, e ninguém me deu a mão!

Os pobres – o mundo da pobreza – são hoje o maior sacramento do Cristo que “sendo de condição divina … se humilhou a si mesmo assumindo a condição de escravo e assemelhando-se assim aos homens” (Fil 2,8). E este é o maior desafio da Igreja do nosso tempo juntamente com o da evangelização da cultura. Quer queiramos quer não, um grande desafio que a Igreja primitiva resolveu como pôde, e nós…

Arlindo de Magalhães, 17 de fevereiro de 2019

O movimento de Jesus

Henri-Matisse, ‘The snail’, 1953

Quem é que Jesus escolheu por companheiros? Quem foram os primeiros que o seguiram? Gente sem influência e sem meios, sem títulos de Saber ou de Ter, gente pobre ignorante, à primeira vista incapaz de grandes voos e de arriscados planos, gente pequena e sem ambições… Assim nasceu o chamado “movimento de Jesus”.

Pedro bem o haveria de avisar, numa premonição a que a História posterior viria a dar razão: “Afasta-te de mim que sou um homem pecador!” (Lc 5,8).

De facto, entre a vocação de Isaías, o Profeta, clarificada no meio de Serafins e vozes divinas (ver cap. 6 do Livro de Isaías), e a (já referida) vocação de Pedro vai toda a distância que separa o Antigo do Novo Testamento. E, no entanto, tanto um como o outro — Isaías e Pedro — rebentaram ambos com os cânones oficiais da Lei e da Religião: nem o Profeta nem o Apóstolo receberam a vocação por descendência carnal ou por sucessão clerical. Tanto um como o outro foram chamados fora dos quadros da instituição.

Então, a Lei e a Instituição são más? Sim, se escravizarem o homem e não lhe permitirem o crescimento. Foi o que aconteceu à Antiga Aliança. Por isso, um dia Jesus recordou uma coisa que ainda hoje sabemos evidente: que “o Sábado foi feito para o Homem” (Mc 2,27). É que, no tempo de Jesus, as coisas tinham chegado a tal ponto que parecia exatamente o contrário: que o Homem tinha sido feito para o Sábado.

Nem a Lei nem a Instituição são más. Mas porque podem tornar-se más é que, do “movimento de Jesus” liderado pelos Apóstolos, nasceu e se organizou a Igreja Apostólica à qual, por contributo do Espírito, “o Senhor Jesus deu início” (LG 5).

Os últimos Concílios têm-se esforçado por melhorar a teologia e reformar os seus desenvolvimentos históricos, à luz daquele princípio sempre aceite na Tradição cristã que diz que «Ecclesia semper reformanda» (a Igreja deve estar sempre em a reformar-se).

Todos sabemos que coadunar a prática do dia-a-dia com os princípios (temporais ou doutrinais) é coisa sempre muito difícil. Que o digam as famílias, os casais, os namorados, os amigos, as empresas, os partidos, as nações, os clubes, a sociedade em geral, tudo. No princípio, parece tudo fácil e um mar de rosas. Mas o dia-a-dia faz-se sempre – no melhor dos casos – com duros debates e rupturas, com confrontações e afrontamentos, e – no pior dos casos – com guerras e destruições, tribunais, divórcios, corte de relações, “é mesmo necessário”!, dizia Paulo.

Assim é na Igreja ou assim é a Igreja. Entre os Apóstolos houve dificuldades imensas, resistências impensadas, eles que possuíam carismas e dons únicos e originais. E como poderia tudo isto não ter existido ao longo da sua história, como poderá isto não existir no nosso tempo?

Em situação de divergência de opinião, de debate aberto ou mesmo de procura séria e esforçada da verdade, é preciso apenas que se respeite aquela regra com que Agostinho, Bispo de Hipona, esclareceu tudo, numa das suas célebres «bocas»: No certo, Unidade; no incerto, Liberdade; em tudo, Caridade.

Não se pense que na Igreja está tudo bem: por isso mesmo, «Ecclesia semper reformanda». Se assim não fosse, arriscar-nos-íamos a canonizar o pecado como os Judeus canonizaram o Sábado. É que o homem, seja ele qual for, não existe para a Igreja; a Igreja é que existe para o Homem.

Os debates na Igreja. A importância do debate na Igreja. A necessidade do debate na Igreja. Não era muito mais simples que a Igreja não tivesse de seguir a Lei da Humanidade?

Mas “a Igreja peregrina, enquanto instituição humana e terrena, reconhece com humildade os erros e pecados que obscurecem nos seus filhos o rosto de Deus e está decidida a continuar a sua acção evangelizadora, para ser fiel à sua missão, com a confiança posta no seu Fundador e no poder do Espírito” (Puebla 209, 3ª Conferência dos Bispos sul-americanos, 1979).

O Papa Francisco, que era um bispo sul-americano, escreveu já assim: “Sonho com uma opção missionária — refere-se à Igreja — capaz de transformar tudo, costumes, estilos, horários, linguagem e toda a estrutura eclesial…, pequenas comunidades [até, que] são uma riqueza da Igreja que o Espírito suscita para evangelizar todos os ambientes e sectores. Frequentemente trazem um novo ardor evangelizador e uma capacidade de dialogo com o mundo” (EG 27.29).

Não poderei esquecer aquele dia, tarde ou manhã, já não sei, estava eu a ler pela primeira vez, um documento — Evangelização — acabado de sair das mãos do Papa (hoje já São) Paulo VI que dizia assim, era Dezembro de 1975: “(pequenas comunidades) Nascem da necessidade de viver mais intensamente a vida da Igreja, ou do desejo e da busca de uma dimensão mais humana do que aquela que as comunidades eclesiais mais amplas dificilmente poderão revestir, sobretudo nas grandes metrópoles urbanas contemporâneas, onde é mais favorecida a vida de massa e o anonimato ao mesmo tempo”(58).

São Paulo VI, ora pro nobis

Muita coisa, já vinda e a vir, acontecida depois de eu ser ordenado presbítero, há 51 anos! Coisas com que sonhei ou ia sonhando.

E quanto mais e com que facilidade acontecerá que muito mais ocorrerá na Igreja de Jesus no próximo cinquentenário!

Arlindo de Magalhães, 10 de fevereiro de 2019

Cafarnaum

Joan Miro

Quando Jesus chegou à Sinagoga de Nazaré, não se pôs logo a arengar às massas. Pelo contrário, seguiu o caminho da sua Humanidade. A Sinagoga era o lugar de culto da religião judaica, onde qualquer israelita podia falar e co­municar à assembleia um pensamento e uma palavra de edificação, estava aberta todos os dias, como as igrejas paroquiais e capelas cristãs do tempo antigo, embora nos Sábados se juntasse mais gente pois que o Sábado judaico era o que era para nós o “primeiro dia da semana”, o domingo. Qualquer judeu podia levantar-se e falar à assembleia. Jesus “percorreu então toda a Galileia, ensinando nas sinagogas e pregando as boas novas do reino.” (Mt 4, 23): “Sempre ensinei numa sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem.” (Jo 18,20).

Já no Jordão não foi ele que se apresentou a si mesmo: “Do céu veio uma voz: Tu és o meu Filho muito amado” (Mc 1,13); e que João, o batista, o apresentasse aos primeiros discípulos: “Esse é aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias” (Jo 1,27)

Depois, em Caná da Galileia, ninguém, a não ser os discípulos, perce­beu o que se passou com o vinho (já aqui falei disso).

Mas, em Cafarnaum, como os pobres não têm muros nem vivem isola­dos, a sogra de Pedro levantada da cama onde estivera retida com febre (Lc 4,38) chamou a atenção das primeiras multidões que, logo de seguida, não cabendo já nos luga­res do dia a dia, só encontraram como lugar possível de reunião a orla do mar (Lc 5,1): aí sim, podiam ouvir a Boa Nova e abrir os olhos à nova «luz que veio ao mundo para iluminar os que andavam nas trevas».

Antes disso, porém, já ele havia sido pro­curado pela família que achava que ele não andava bom da cabeça. Foi então que, quando lhe disseram que sua mãe e “irmãos” o procuravam, ele disse para quem quis ouvir que, mãe e irmãos, eram para ele os que faziam a vontade do Pai (Lc 3,31-35).

Regressado depois a Nazaré, Jesus, o filho do carpinteiro José, bem conhecido desde pequeno pelos vizinhos e por toda a gente da terrinha, de­pois da leitura do Livro de Isaías, espantou tudo e todos com a mensagem e “as palavras cheias de sabedoria” que lhe saíam da boca. Apesar disso, foi espanto de pouca dura: a realidade da sua baixa condição social veio logo ao de cima: “Não é ele o filho do carpinteiro?”.

No rio Jordão, em Cafarnaum como em Nazaré, Jesus seguiu sempre o caminho da sua humanidade, com todas as suas implicações pessoais, familiares e sociais: «Não tenho dúvidas que, qualquer dia, haveis de me lembrar o ditado “Médico, cura-te a ti mesmo!”» (Lc 4,23), ou ainda “Em verdade vo-lo digo: nenhum profeta é bem aceite na sua terra!” (Lc 4,24).

Jesus não era um milagreiro, e os milagres (traduzamos por alguma coisa inexplicável pelas leis conhecidas da Natureza), quando os fez, eram sinais inequívocos metidos no coração da própria fraqueza para levantar os pobres, os caídos e os desanimados, e nunca para provar coisa nenhuma. O único milagre que ele fez para provar foi quando as pessoas começaram a duvidar que um pecador pudesse, pela Graça, tornar-se santo, pudesse levantar-se e transformar-se. Então curou o paralítico (Lc 5,17/26). Fora este caso, Jesus nunca fez milagres para provar coisa nenhuma, e mesmo quando lhe pediram um sinal para poderem acreditar nele, ele apenas apontou o sinal de Jonas no ventre da baleia (Mt 12,40), sinal da sua própria morte e sepultura.

Jesus seguiu sempre o caminho da sua humanidade, como vemos neste domingo a partir do que aconteceu em Nazaré. “A estas palavras, todos na Sinagoga, ficaram furiosos. Ergueram-se então e expulsaram Jesus da cidade. Depois, levaram-no até ao cimo de um despenhadeiro que havia na colina em que a cidade estava construída, a fim de o precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho” (Evangelho hoje lido).

O evangelista Lucas não diz porque é que eles acabaram por não o atirar para o esterqueiro, diz apenas que Jesus, “passando pelo meio deles, seguiu o seu cami­nho”. Isto é que a sua humanidade escandalizou os Judeus. Eles es­peravam um super-homem e apareceu-lhes um “filho do carpinteiro”, às tantas, na altura, ainda só aprendiz…

É a partir do mais simples, dum lugar como os outros, dos dias que se confundem com todos os mais, das noites mais escuras entre as noites escuras de todos os que vivem à nossa volta, pessoas que em nada se distinguem de todos os mais, é a partir disto – disse – que a Novidade salta e desconcerta o Mundo: HOJE realizou-se a Palavra que ouvistes.

Mas…, parece que nada aconteceu, e tudo segue o seu curso, sem mais! Mas, na verdade, é aí que a Novidade acontece… ou não acontece?

Arlindo de Magalhães, 3 de fevereiro de 2019

A Novidade de Jesus

Mark-Tobey, ‘Edge of August’

Como diz esta página de Lucas acabada de ser lida, Jesus começou a sua “vida pública” na sinagoga de Nazaré, onde leu e comentou um texto de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim; ele mandou-me a anunciar a Boa Nova aos pobres” (61,1-2). Resumindo, Lucas – que escrevia depois e à luz da Ressurreição – põe na boca de Jesus um programa de vida. Nós hoje compreendemos a perspetiva do evangelista.

Diante disto, duas reações típicas. Primeira: “todos davam testemunho em seu favor e se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca” (4,22); segunda: “Ao ouvirem estas palavras na sinagoga, ficaram furiosos, expulsaram-no da cidade subiram ao cimo do monte e queriam precipitá-lo dali abaixo” (4,29).

Ainda hoje acontece isto muitas vezes: eu quase diria “ai daquele a quem isto não acontece!”: é uma normalidade na vida pastoral das Igrejas. Com Eliseu foi assim, com Paulo foi assim, com a Igreja sempre foi assim, com Jesus não poderia não ter sido assim. Sempre que há missão, pode naturalmente haver dificuldades e mesmo recusa. Nisto os evangelistas informam rigorosamente, historicamente. A posição de Jesus era fatalmente desconfortável: o mundo – aqui leia-se: a sua terra – não o entendeu, a família também não, como se diz noutros lugares (Mt 12, 46-50, Mc 3,31-35). Os problemas com o Judaísmo começaram também de imediato. O estilo da vida de Jesus, o que ele dizia e fazia, dava para perceber: punha em causa o que parecia ser a tradição.

Daí a oposição. Os conterrâneos, chocados e escandalizados, a gente está mesmo a ver: naquele tempo, quiseram deitá-lo pela escarpa abaixo, era por ali que se despejavam lixos e outras coisas. Então, este tipo, que não passa de filho do Zé carpinteiro, vem pr’àqui…! (Mt 13,55).

“Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho”, isto é, eles acabaram por não lhe fazer nada e ele “seguiu o seu caminho”, da Galileia a Jerusalém, onde, então sim, acabou por consumar-se o que já se esboçava desde Nazaré. Não esqueçamos que Lucas escreve depois da ressurreição. Jesus prosseguiu um caminho que só no fim e à luz da sua morte e ressurreição se entendeu verdadeiramente.

A Sinagoga era um lugar onde qualquer israelita podia falar e comunicar à assembleia um pensamento e uma palavra de edificação. Todos os Sábados isso se fazia nas Sinagogas de Israel: o Povo de Israel era, pelo menos em teoria, um «povo de Profetas» (Num 11,29); não como na Igreja cristã, onde fala só um e (quase) sempre o mesmo. Jesus não procedeu assim.

Já no Jordão, não foi ele que se apresentou a João, esperou que, isso, o Pai o fizesse e, depois, que João o apresentasse aos primeiros discípulos: «… mais forte do que eu, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias!» (Mc 1,7); “Ao ver que Jesus se dirigia para ele, exclamou: Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1,29). Depois disto, em Caná da Galileia, não foi ele que entrou em cena, foi a mãe: “Não têm vinho!” (Jo 2,1-11).

Foi então para Cafarnaúm, ao lado (do lago) de Genesaré. E como os pobres não têm muros nem vivem isola­dos, inteirou-se logo da doença da sogra de Pedro e apresentou-se imediatamente, em sua casa (Lc 4,38). A notícia espalhou-se logo. Apareceu imediatamente gente vinda de todos os lados, tanta que não cabia nem no terreiro da aldeia…, só à borda do mar (Lc 5,1): aí, sim, na praia, havia lugar para todos poderem ouvir a Boa Nova e abrirem os olhos à nova «luz que veio ao mundo para iluminar os que andavam nas trevas» (Lc 1,79).

Por esta altura, foi pro­curado pela família, que achava que ele não andava bom da cabeça. Foi então que, quando lhe disseram que sua mãe e “irmãos” o procuravam, ele disse, para quem quis ouvir, que mãe e irmãos eram para ele os que faziam a vontade do Pai (Mc 3,31-35 ou Lc 8,19-21).

No rio Jordão e em Cafarnaum, como em Nazaré, Jesus seguiu sempre o caminho da sua humanidade, com todas as suas implicações pessoais, familiares e sociais: «Não tenho dúvidas que, qualquer dia, haveis de me atirar com o ditado: “Médico, cura-te a ti mesmo!”» (Lc 4,23), ou ainda: “Em verdade vo-lo digo: nenhum profeta é bem aceite na sua terra!”» (Lc 4,24).

Mas Jesus não era um milagreiro. Aquilo que eles queriam era ajuda, tratamentos e conhecimentos, que eles, coitados, não percebiam nada de nada: expliquei aqui há pouco tempo dos moucos que não lavavam os ouvidos e, por isso, não ouviam e que começaram logo a cantar, milagre! Àquela pobre gente que pensavam ser endemoninhados (Mc 9,14-23) não lhe passava pela cabeça que se tratasse de epilepsias ou coisas semelhantes. O que se diria hoje de um alzheimer…!

Isto é, o que escandalizou os Judeus foi a humanidade de Jesus, porque eles esperavam um super-homem e apareceu-lhes foi o “filho do carpinteiro” (Mt 13,55 e Mc 6,3), às tantas, na altura, ainda só carpinteiro como o pai, tão homem que até os fintou e desarmou: “passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho”.

Tal como Jesus, foi a partir do que há de mais simples numa terra tão anónima como todas as mais, duns dias que se confundem com todos os dias, dumas noites tão escuras como todas as noites escuras, que a Novidade saltou e desconcertou todo o Mundo: também HOJE se realiza a Palavra que, naquele dia, se ouviu na Sinagoga de Nazaré.

Arlindo de Magalhães, 27 de janeiro de 2019