Uma história que se celebra

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Efetivamente, faz hoje 50 anos que fui ordenado presbítero na Sé Catedral do Porto pelo Bispo Florentino de Andrade Silva, Administrador Apostólico da Diocese, que D. António Ferreira Gomes era ainda um exilado do salazarismo. 13 de Agosto de 1967.

O concílio Vaticano II havia terminado em Dezembro de 1965, eu acabei o meu curso de Teologia em Junho de 66 e, por decisão superior, ia ser músico. Fui-o por algum tempo mas pouco depois, o Bispo António não tinha ainda regressado do exílio (1969), fui dizer ao Administrador Apostólico que era padre não músico. Nessa altura havia já sido integrado na equipa formadora do Seminário Maior do Porto, onde trabalhei até 1974. Nesses primeiros anos comecei a descobrir na riqueza do Vaticano II uma palavra ou realidade que dele escorreu: Comunidade.

E foi no Seminário Maior do Porto, e também nas paróquias de Santo Ovídio e de Vilar de Andorinho (— Vós, Vilarenses, lembrais-vos do Ogiva?), onde deitei uma mãozinha, e comecei a perguntar-me a mim mesmo que novidade continha a palavra comunidade, e se a comunidade podia tornar-se realidade? Eis a questão.

E fiz experiências, houve discussões ou debates em sítios vários e quanto mais tudo se complicava mais eu tentava avançar, até que, um dia, já D. António regressara do exílio, na criação da paróquia de Nossa Senhora da Ajuda (Porto), em 1972, ele disse isto:

“uma Igreja que se sente missionária, que tem o mandato deste mundo de hoje como ele é, que se sente pequeno rebanho, assembleia convocada e convocante, com missão principalmente de converter e cristianizar os cristãos ou na alternativa, de passar aos bárbaros, essa Igreja ensaia novos caminhos de acesso às inteligências e corações deste tempo, a nova linguagem no diálogo com o homem de hoje e os novos métodos de inserção da graça na natureza deste mundo que se quer personalizado e de dimensões humanas na socialização das estruturas e mentalidades. (… Por tudo isto,) É tempo de pastoralmente mudar: e, agora, ou mudamos ou seremos os novos pagãos a caminho igualmente do fim”.

Oh, maravilha sem par! O que tu acabas de ouvir! O problema foi que, depois de tão grande esperança, andou-se mas para trás.

Neste contexto, no ano 1974, eu tinha exatamente 30 anos, vim parar aqui, à Serra do Pilar, com a tal palavra — Comunidade — não me lembro se na pasta se na cabeça. Essa é uma história outra, que encaixou perfeitamente nesta, mas da qual não há relato aqui.

À palavra Comunidade juntou-se a palavra “Evangelização”. O Papa Paulo VI publicaria em Dezembro de 1975, uma Exortação Apostólica espetacular — “Anunciar o Evangelho”. Foi aí que dei um dos dois saltos mais altos da minha vida (o outro seria no interior da Biblioteca Nacional de Paris, em 1993): “as pequenas comunidades … nascem da necessidade de viver mais intensamente a vida da Igreja; ou então do desejo e da busca de uma dimensão mais humana do que aquela que as comunidades eclesiais mais amplas dificilmente poderão revestir, sobretudo nas grandes metrópoles urbanas contemporâneas onde é mais favorecida a vida de massa e o anonimato ao mesmo tempo”. Está aqui o que eu já sabia mas nunca tinha lido nem ouvido! O tal salto!

Estava traçada e decidida a minha ação pastoral.

Mais tarde, em 1978, comprei em Fátima, um livrinho — De la vie Communautaire (A vida Comunitária), de um autor que certamente ainda não conhecia — Bonhöeffer (1906-1945) — onde li esta coisa espantosa: “Uma comunidade, [coisa] visível sobre a terra, é já uma espécie de antecipação misericordiosa do Reino que há-de vir. Mas esta graça não é acessível a todos os crentes”. Estarreci: “a existência de uma comunidade visível é uma graça não acessível a todos os crentes”!!! “Para o cristão, a presença sensível de outros irmãos constitui uma fonte incomparável de alegria e reconforto”!

A comunidade da Serra do Pilar, ainda bebé pois tinha nascido há 4 anos, era portanto uma graça não acessível a todos os crentes! Que quer isto dizer? Que encargos carregamos?

Construir é sempre mais alegre e exultante que manter vivo depois. Em 1992 eu estava cansado, morrera-me a mãe mas não só, mas o bispo Júlio… e eu fui parar a Salamanca e depois a Madrid. Regressei 5 anos depois, a Católica apanhou-me mas voltei à Comunidade, que estava muito diferente …

Paulo, o perseguidor, o fundador de comunidades, o viajante, o anunciador e evangelizador, sempre a correr, a cuidar, a pregar, a acudir, de certeza que também a chorar, a arrepender-se das asneiras que fazia, agora escondido e depois preso, aqui – descido numa cesta muralha abaixo (At 9,25), ali – escondido em Bereia (ct 17,10), aqui acusado de “alvoroçar o mundo inteiro” (At 16,6) depois de, em Atenas, o terem mandado passear, e ele foi (ct 17,32)… Mesmo assim, quando Festo, Procurador da Palestina, lhe disse: “Estás doido, Paulo! A tua grande sabedoria fez-te perder o juízo!”, Paulo respondeu-lhe: “Eu não estou doido, excelentíssimo Festo. Pelo contrário, estou a falar a linguagem da verdade e do bom senso!” (At 26,24-25)…

Ordenado portanto há 50 anos, aqui vivi muito mais de metade da minha vida. E por isso dou graças: “a Gaio que me recebe como hóspede, a Erasto, o tesoureiro da cidade” (Rm 16,23), a mesma coisa. “Fico feliz com a chegada de Estéfanes, Fortunato e Arcaico que me substituíram na minha ausência” (1 Cor 16,17). Entretanto, via “casa de Cloé”, chegam-me notícias de que há discórdias entre vós (1Cor 1,11). Mas eu próprio, depois de ter andado com Barnabé nos “caminhos do Senhor” (Act 13,10), em Antioquia, em Tarso, em Chipre, em Icónio, em Listra e de ter estado no Concílio de Jerusalém, apesar disso, discuti com ele tão violentamente que nos separámos um do outro (At 15,39) e nunca mais nos encontrámos.

Neste momento, aos meus irmãos de longe envio-vos Tíquico, o irmão querido e fiel no Senhor que vos contará o que se passa por cá” (Ef 6,21), saúdo também os da “casa de César” (Fl 4,22), saúdo a família de Onésimo (Col 4,9), e mando abraços a Erasto (Rm 16,23) – que ficou em Corinto, a Trófimo – que deixei doente em Mileto (2Tim 4,20). Daqui cumprimento Êubulo, Pudente, Lino, Cláudia e todos os mais irmãos (2Tm 4, 19-20). Vós, os de Roma, sois tantos que eu não posso nomear-vos todos aqui; “Saudai-vos vós uns aos outros como todas as igrejas de Cristo vos saúdam a vós” (Rm 16,16). E, já me esquecia, “Saudai também Prisca e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus, pessoas que, pela minha vida, expuseram a sua cabeça” (Rm 16,3), e Febe, a diaconisa da Igreja de Cêncreas, a primeira “protectora de muitos e de mim pessoalmente” (Rm 16,2).

Eu «Tenho servido o Senhor com toda a humildade e com lágrimas, no meio de provações. Jamais recuei perante qualquer coisa que vos pudesse ser útil. Preguei e instruí-vos, tanto publicamente como nas vossas casas…

Agora, tomai cuidado convosco e com todo o rebanho, de que o Espírito Santo vos constituiu administradores, para apascentardes a Igreja de Deus, adquirida por Ele com o seu próprio sangue.

Sei que, depois de eu partir, se hão de introduzir entre vós lobos temíveis que não pouparão o rebanho. Estai, pois, vigilantes. Confio-vos a Deus e à palavra da sua graça, que tem o poder de construir o edifício e de vos conceder parte na herança com todos os santificados.

Nunca cobicei nem prata nem ouro, nem o vestuário de alguém. E bem sabeis que foram estas mãos que proveram às minhas necessidades, recordando-vos as palavras que o próprio Senhor Jesus disse: “A felicidade está mais em dar do que em receber”» (At 20,17-35).

Permiti-me também que, com toda a seriedade, vos diga estas palavras do meu amigo Leonel: “O que eu sou devo-o a vós! O que ainda não sou, devo-o a mim” (1983.10.22).

Tantos irmãos e amigos! E anjos e arcanjos não há? Há pois, Anjos e Arcanjos, Domínios e Principados, Querubins e Serafins! Um destes últimos, meio ano depois de tudo começar, em Julho de 1975, escreveu-me assim num papel que me enviou depois por correio: “… o momento do café, hoje, e a posterior leitura da folha dominical que me deste levaram-me a sentir qualquer coisa que não pode exprimir-se: ser conduzido pelo Espírito! (…) Não me compete declarar se o Espírito está ou não está no sentido da Lumen gentium, mas dou testemunho de que ele anda por perto”.

“Regozijemo-nos e alegremo-nos!” (Ap 19.7).

Arlindo de Magalhães, 13 de Agosto de 2017

Bem-vindo

Bem-vindo ao site da Comunidade Cristã da Serra do Pilar. Aqui poderá conhecer um pouco da nossa história, consultar os textos das nossas celebrações e acompanhar as nossas notícias.

Breve história da Comunidade

De Outubro de 1962 a Dezembro de 65, o Concílio Vaticano II foi a sur­presa da Igreja. Os seus frutos continuam a fazer-se sentir, para lá de todas as resistências e oposições: é incontrolável a força do Espírito.

A redescoberta da Comunidade – que na Igreja e diante do Mundo os cristãos vivam efectivamente como Irmãos – foi um dos seus primeiros frutos. É curioso, no entanto, reparar que a Comunidade não foi propriamente uma cate­goria conciliar: o Concílio pouco falou da dimensão comunitária da Igreja, para lá de genéricas referências na Lumen Gentium (n.os 8 e 9) e de quanto se diz no Documento sobre a Actividade Missionária.

Ele desencadeou, no entanto, um fortíssimo vento comunitário a tal ponto que a palavra Comunidade passou a ser quase mítica nos anos que se lhe seguiram.

Esta necessidade de revalorizar o comunitário não era, entretanto, exclusivamente sentida na Igreja: toda a sociedade começara a notar a urgência de refazer o seu tecido humano, reconstruindo aquela teia de relações e coopera­ções que o mundo urbano-tecnológico rompera. Mas na Igreja este apelo sentiu-se sobremaneira: porque, quando os Filhos de Abraão se calam, gritam as pedras (Luc 19,40), o mundo puxou pela Igreja, sugerindo-lhe e pedindo-lhe sinais con­cretos e visíveis de fraternidade, de ajuda, de cooperação, de humanidade, numa palavra.

Recordo-me bem de ter vivido meio deslumbrado a descoberta da di­mensão comunitária da Igreja, em ocupações pastorais anteriores à minha vinda para a Serra do Pilar.

Aliás, já desde Medellín (1968), 2ª Conferência dos Bispos Latino-Americanos, que se ouvia falar de Comunidades de Base. Não se sabia bem o que era, mas falava-se muito.

Em 1975, um ano depois do 3º Sínodo dos Bispos dedicado à Evangelização, o Papa Paulo VI, num documento que ficou célebre (Evangelii Nuntiandi), falou de modo claro:

«As pequenas comunidades… nascem da necessidade de viver mais intensamente a vida da Igreja; ou então do desejo e da busca de uma dimensão mais humana do que aquela que as comunidades eclesiais mais amplas dificil­mente poderão revestir, sobretudo nas grandes metrópoles».

Penso que esta foi uma palavra decisiva. E se, neste texto, Paulo VI ainda reuniu num mesmo «e» copulativo «pequenas comunidades e comunidades de base», o tempo imediatamente posterior desfaria confusões: as Comunidades de Base são o florir dessa «Nova Forma de Ser Igreja» (assim se titulava um docu­mento o Episcopado Brasileiro de 1982) na América Latina, bem diferentes (na concretização) das pequenas Comunidades que, entretanto, surgiam na velha Europa. É a esta realidade pastoral (europeia) que se referem os documentos da Conferência Episcopal do Piemonte (Norte de Itália) sobre «As Pequenas Comunidades Eclesiais», e, sobretudo «O Serviço Pastoral das Comunidades Cristãs Pequenas», de 1982, da Conferência Episcopal Espanhola.

Em 1977, no 4º Sínodo dos Bispos, sublinhar-se-ia na linha do que Paulo VI escrevera em 1975, a importância das pequenas comunidades cristãs, di­zendo-as de «talha humana», aptas para o «partilhar da Fé» e para a «educação no exercício do amor fraterno», definindo-as como «lugar de autêntica expe­riência da vida eclesial».

A Diocese do Porto tem também neste capítulo a sua história, não pe­quena, que está por escrever.

Para lá de toda uma série de iniciativas da responsabilidade quer do Centro de Cultura Católica, quer no âmbito das então ricas Semanas de Actualização Teológico-pastoral[1], salientaria dois momentos:

Em 1973, na criação da Paróquia da Senhora da Ajuda (Pasteleira), no Porto, o então Bispo Ferreira Gomes falou da «crise da paróquia sob a rajada do urbano», e afirmou que era «tempo de mudar pastoralmente; e agora ou mudamos ou seremos os novos pagãos, a caminho igualmente do fim» – acrescentou. E ex­plicava de seguida: «Nestas condições, uma Igreja que se sente missionária, que tem o mandato deste mundo como ele é, que se sente pequeno rebanho , assem­bleia convocada e convocante, com missão principalmente de converter e cris­tianizar os cristãos ou, na alternativa, de passar aos bárbaros , esta Igreja ensaia novos caminho de acesso às inteligências e corações deste tempo, a nova lingua­gem no diálogo com o homem de hoje e os novos métodos de inserção da Graça na natureza deste mundo, que se quer personalizado e de dimensões humanas». Sempre considerei esta uma palavra profética que nunca teve sequência pasto­ral prática.[2]

Mas, logo em Setembro de 1974, numa célebre Carta à Comunidade, a Equipa Pastoral do Padrão da Légua, a cuja acção pastoral presidia o nosso co­nhecido Pe. Leonel, se escrevia assim: «Precisamos de encontrar urgentemente formas progressivas de vida comunitária intensa, onde cada um se conheça pelo seu nome, pelos seus problemas, pelas suas possibilidades e pelos seus dons, pela sua Fé. É necessário ultrapassar, custe o que custar, ainda que seja preciso arris­car tudo por tudo, a igreja-das-grandes-massas, onde cada um corre o perigo de andar a vaguear mais ou menos irresponsavelmente, em risco de se perder. É preciso que acabe definitivamente o escândalo de as pessoas se perderem dentro da própria Igreja. A igreja-das-grandes-massas nunca pode ser Comunidade»

Muito mais seria preciso referir, para a história ser completa. Mas não é aqui o lugar de a fazer.[3]

Entretanto, neste contexto, em Novembro de 74, sem ninguém dar por ela, nascia a Serra do Pilar. A nível da Igreja Universal, o processo comunitário era então imparável; a nível diocesano, no entanto, os tempos começavam a não ser de muita esperança, que o debate Comunidade/Paróquia anunciava já o seu fim e as experiências pastorais novas começavam a agonizar. E não foi fácil apostar aqui num trabalho pastoral apoiado naqueles pontos que, di-lo-iam os Bispos no Sínodo de 77, definem essencialmente a Igreja, para lá da sua concreti­zação histórica (a consciência clara da vinculação a Cristo e ao Pai, no Espírito; a Palavra de Deus como modo de conhecer o desígnio de Deus sobre os homens; a celebração da Fé, sobretudo dos Sacramentos; a oração comunitária ou individual, à luz da Palavra de Deus; a fraternidade na Caridade; a consciência da missão da Comunidade no Mundo; o conhecimento da limitação própria e da complementa­ridade das outras comunidades; e a comunhão com o Papa e os Bispos).

Eu chegava aqui vindo de outros lugares e tarefas, com todas as inépcias, com a consciência de que tinha pela frente um trabalho pastoral de grande alcance e novidade, mas ao mesmo tempo de alto risco. Como de facto, Mas arrisquei.

Crescera e fora educado num mundo cheio de certezas onde parado­xalmente tudo estava e era posto em questão.

Menino bem comportado mas rebelde, tudo aceitara, colocando no entanto interiormente, perante quase tudo, um grande cepticismo. O meu pri­meiro grande drama terá sido esse exactamente: a difícil clivagem entre as mi­nhas intuições (quase todas de tipo racional) e os códigos a que me via obrigado.

A Razão e o Instinto, a Força e a Graça, a Ordem e a Liberdade, não encon­travam harmonia dentro da minha Natureza tumultuosa, domada apenas por alguns valores e muitos preconceitos. Porque eu era, já na altura, uma ima­gem viva de um in­ferno de contradições. Por isso, nunca me iludi na ilusão de uma serenidade que não tenho.

Uma educação de tipo iluminista privilegiara-me a racionalidade descui­dando aquela parte do Homem que é feita de sensibilidade e afectividade (coração). Toda a minha vida tenho carregado este peso.

A minha primeira postura pastoral foi muito marcada por isso. Tudo me parecia mal, da Igreja à Sociedade, mas eu sentia-me impotente.

A descoberta dos outros e sua riqueza foi então para mim muito im­portante. Reunir companheiros pareceu-me o caminho

Para além deste caminhar que ia avançando no meu dia a dia, acon­teciam as experiências mais exaltantes do meu viver: o Vaticano II, o Maio de 68 e o 25 de Abril. Não me tra­zendo certezas, deram-me no entanto contornos mais definidos da dificuldade do cami­nhar.

E tudo me ajudaria a perceber que a racionalidade não esgota o Homem, nem – só ela – lhe ilumina o caminho.

Esta questão entronca de resto com a da Fé: do Deus que se procura e tenho encontrado sobretudo no concreto do Homem. Porque «a maior glória de Deus é o ho­mem».

Começara pois a aventura chamada Serra do Pilar, história que todos conhecem, uns melhor e outros pior, uns há muito tempo, outros só mais recen­temente aqui chegados. Foi preciso vencer resistências de dentro e de fora, as desconfianças e tentativas de intromissão, as oposições e calúnias: o desmontar de um muito velho, e por vezes caquético, rosto de Igreja. João XXIII falara do seu necessário «aggiornamento» .

Depois, o construir a Igreja, aqui e agora: descobrir a vocação bap­tismal, o Mandamento Novo e as novas relações de Fraternidade, a dimensão do Serviço, a Liturgia (celebração da Fé), logo veio a urgência da educação da mesma Fé (o Catecumenato, principalmente), a inadiabilidade de o cristão assu­mir o seu papel na construção da Cidade dos Homens, Pedra vida de uma Igreja que se sabe e quer Sacramento Universal de Salvação. Tudo isto, de início, no contexto eufórico e difícil de um conturbado período político-social; depois, as crises de crescimento e da adultez, as habituações, os marasmos, os acomodamen­tos, as mortes de alguns dos melhores (o Santos, o Chico…), e a necessária e indis­pensável complexificação da vida que, longe de nos fazer esquecer o idealismo dos inícios, nos exigia uma cada vez maior lucidez. De resto, como poderemos es­capar um certo ambiente de «invernia» eclesial e mesmo social?

As crises: «em certos momento da nossa existência surge a ameaça da perda, o medo do futuro, a tentativa de a gente se agarrar ao que já possui, e a resistência a abrirmo-nos à hipótese da mudança, à riqueza ou ambiguidade de um futuro sobre o qual no fundo não temos controle. E no entanto, é unicamente por estas experiências de perturbação e de ruptura que poderemos progredir para o crescimento e a perfeição» – assumo a afirmação de dois psicólogos, o casal Whitehead.

Foi aqui, na Serra do Pilar que eu aprendi isto: que é de ruptura em ruptura, de passo em passo, sempre abandonando o conquistado mas permanen­temente em atitude de conquista, que se faz o caminho. Muitas vezes foi para mim muito dolorosa esta aprendizagem, e alguns de vós sabem-no particularmente. Sou europeu: e aprendi, aqui na Serra do Pilar, existencialmente, que uma das maiores características desta cultura que é a minha tem sido a de fazer ruptura e mesmo revolução, para, à frente, chegar a uma nova síntese.

(Homilia na Serra do Pilar, em 92.02.23, 7º Domingo do Tempo Comum)

[1] Este texto foi feito a partir de um outro, anterior, de 1984, escrito para os 10 anos da Comunidade. Nesse primeiro, neste lugar dizia-se assim: “Em 1972, o Centro de Cultura Católica promoveu pelas paróquias da cidade e arredores um assim chamado “Curso de iniciação pastoral” que, pela primeira vez entre nós e de forma sistemática, agitou a questão: A Igreja na cidade de amanhã. Pela primeira vez se falou da Igreja numa sociedade em transformação e da urgência da redescoberta da dimensão comunitária de uma fé pessoal. Vinha-se insistindo nas técnicas pastorais da Renovação Paroquial inspiradas no Movimento por um Mundo Melhor, haviam-se criado na década de 60 variadíssimas paróquias novas suburbanas e urbanas, e este curso, digamos o nome que se lhe deu, inquietou, agitou e levantou protestos”.
[2] A seguir a este parágrafo, o texto mais antigo dizia: “Ainda em 1973, o Centro de Cultura Católica organizou novo Curso de Iniciação Pastoral pelas paroquias do Grande Porto: Ao serviço da Comunidade Cristã. De novo a dimensão comunitária da Igreja. A nível pastoral concreto, o Padrão da Légua e a Zona Ribeirinha [do Porto], o Cerco do Porto, a Pasteleira, percorriam caminhos de pioneirismo tentando ir da paróquia tradicional à Comunidade, e, tema de debate aceso, começavam a sofrer processos de envolvimento”.
[3] Neste lugar acrescentava-se assim: «E no “Ideário… para a construção da Igreja da Zona Ribeirinha” [do Porto] podia ler-se que se tomava a opção de considerar a pequena comunidade como meio normal para a dimensão duma Fé pessoal e comunitária” (Outubro 1974). Mas quando, em 1976, se organizou uma Semana de Actualização teológico-pastoral sobre A Paróquia, comunidade fundamental da Igreja, era já outro o tom do discurso oficial. Mas houve debate, ainda assim. Na edição de 1978 da Semana de Actualização teológico-pastoral, Anunciar a Fé, hoje, assistiu-se já a uma exposição monocolor, e alguns tiveram mesmo de manifestar ruidosamente a sua alegria quando o Dr. Manuel Pelino (que contamos ter entre nós no Advento próximo) surgiu a defender a inadiabilidade pastoral da opção comunitária. Entretanto, morrera o Padrão da Légua, morrera a Zona Ribeirinha, a esperança das equipas (de presbíteros) pastorais fora-se, etc, etc, e aparecera já uma nova tábua de salvação pastoral que começou a dar para tudo e fez esquecer a anterior: chamava-se Catecumenado. E foi tudo a correr atrás da nova panaceia».

Cuidado do Espaço

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Contaram-me — não sei quem — que, no princípio, varria quem sujava. Isto é: todos sujavam, todos ou quase todos varriam. Organizavam-se equipas e não custava nada. Mas depois… parece que foram dizer ao presbítero que era melhor contratar uma empresa de limpeeeeeza que… Mas parece que ele respondeu que só por cima do cadáver. E deixou de se varrer a igreja. E um domingo, meia hora antes da celebração, ele pôs-se a varrer a Igreja. As pessoas chegavam, ficavam admiradas, queriam tirar-lhe a vassoura, mas ele, nada, continuou a varrer até à hora de começar a Liturgia. Resultado: não foi preciso mais nada. Ele nunca mais disse uma palavra.

Hoje em dia, bem, acho que ele devia fazer o mesmo outra vez. As flores, outro que tal. A linguagem das flores, todos a entendem: sobre um túmulo, numa mesa de festa, como oferta, a flor pode ser a mesma mas o sentido é muito diferente. Na vida social como na Liturgia, flores bonitas, bem postas, cor e perfume, significam tanta coisa: alegria, festa, respeito, amor, gratidão… Um grupos de jovens celebrava a Eucaristia ao ar livre, era em África. Havia uma grande pedra a servir de altar. Um pastor, também jovem, passava um pouco ao lado com o seu rebanho, olhou e não viu, trazia uma flor na mão, aproximou-se, não disse nada, pousou a flor em cima da pedra e foi-se.

A beleza de uma criatura trazida ao Criador. É difícil exprimir sentimentos com flores. Mas é necessário fazê-lo. Faz parte da Liturgia, dizia já o Concílio de Trento. Muita gente não percebe: pensa que as flores só são bonitas quando são muitas e caras. Não percebem que quanto mais luxo, mais lixo. Mesmo tratandose de flores. Limpar e adornar o espaço sagrado é muito importante: “despontam as flores na terra, chega o tempo das canções” (Ct 2,12).

Serra do Pilar, 2014.04.02

Prof. Lapa ao coro da Serra

Meus queridos amigos:

Passada quase uma semana, gostaria de vos deixar umas palavritas sobre a nossa festa bonita da música para a liturgia na comunidade da Serra do Pilar. Agora tenho um pouco mais de tempo, apesar de esta roda continuar a girar sem descanso…

A primeira coisa que gostava de dizer é que me senti e sinto muito feliz com aquilo que pudemos preparar e realizar para os outros nesta nossa “empreitada” conjunta. A concretização esteve bastantes furos acima daquilo que poderiam prever os menos confiantes.

Não me espanta, porque sei bem como sabemos fazer as coisas quando as escolhemos porque gostamos, porque vale a pena. E este projecto tem esses condimentos todos.

O concerto foi bonito. E bem feito. Ponto. Os grupos, os instrumentistas, todos os outros estiveram à altura do nosso sonho. Ainda que possamos lembrar-nos de algumas pequenas imperfeições – elas existirão sempre, em todos os concertos de todos os intérpretes. A obra humana traz sempre algo disso. Nunca nos deve fazer esquecer a imensidão da qualidade musical, artística, técnica, celebrativa, de verdadeira comunhão que foi a maior parte do nosso canto colectivo.

Quero felicitar-vos por tudo isso. Porque vocês foram um elemento importante em tudo o que aconteceu. Desde logo no papel central de todo o concerto, como coro que mantém estes cânticos no activo, nas celebrações ao longo do ano. O Coro da Serra é o intérprete natural destas músicas. Por isso vos dei mais trabalho no conjunto do programa. A vossa resposta foi excelente, apesar da juventude de muitas das vozes do coro actual. (Gostei muito de ver isso. O futuro faz-se assim, desde agora.)Permitam-me que destaque “O Senhor está próximo” e “Esta é a aliança”. Sem esquecer o grande gesto, aberto e festivo de todo o “Grande Hallel”. Como quem acredita no que está a cantar. Houve alguns momentos muito fortes ao longo do concerto, onde me parecia que todos éramos muitos mais do que o que se via, com o espaço cheio de som por todo o lado. Por exemplo no “Glória ao Pai” final, que, de peça insegura e menos natural, se transformou naquilo que sempre pensei: um largo canto de louvor.

Quero agradecer-vos ainda pela forma atenciosa e amiga como foram respondendo a todas as etapas do percurso: assiduidade e empenhamento nos ensaios, cuidado e aprumo naquilo que o exigia, vontade de fazer bem, simpatia. E pela forma como conseguiram fazer encher a Igreja para o nosso concerto.

Mas quero felicitar-vos também pela organização cuidada e “profissional” de tudo. Interior e exterior ao concerto: pastas para todos os coros, divulgação do concerto, materiais de publicidade, arranjo dos espaços, qualidade gráfica de cartazes e afins, sem esquecer as garrafinhas de água… E uma outra coisa de que não falámos, mas que foi o ponto de encontro descontraído de todos nós e dos nossos muitos amigos, no final do concerto, à volta de uma mesa que nem por sombras imaginava que pudésseis prever. Muito obrigado.

Sei bem que estas coisas são sempre obra de muita gente. Alguma dela nunca se sabe o que fez. Mas esteve lá, fez ou fez fazer. Permito-me destacar aqueles que foram os meus interlocutores mais frequentes: o Fernando Fonseca, o Arsénio, e sobretudo o Vasco. Não posso deixar de referir a velocidade com que conseguimos (o Vasco conseguiu) dar a volta a um problema de última hora, mobilizando a Catarina para tocar flauta (com qualidade e competência) já com a meta à vista… Sem esquecer o muito jovem, mas excelente organista que nos trouxe.

Por tudo isto, em meu nome pessoal, quero deixar aqui um grande abraço para todos vós. Com as minhas felicitações pelo bom resultado do concerto. Com o meu reconhecimento por tudo o que fizeram. E pela forma como o fizeram. Talvez nos possamos voltar a encontrar noutra qualquer aventura musical. Entretanto “façam o favor de ser felizes”.

Fernando Lapa, 25-01-2014

Grupo Coral

O CORO DA SERRA DO PILAR, a quem foi confiado o serviço de música, tem como missão a prestação de um serviço humilde e de grande simplicidade, tentando ajudar a dignidade de cada celebração, sem pretensiosismos, mas com beleza. É um grupo composto por cerca de 25 elementos, marcado por uma heterogeneidade de vozes e idades, mas que tenta dar o seu melhor para ajudar a comunidade a celebrar e a orar melhor.

A comunidade precisa da colaboração de todos nos seus diferentes serviços. A música é um deles. Em cada Domingo, mais do que com as vozes, é, sobretudo, com os corações que estas pessoas cantam. O nosso reportório é essencialmente litúrgico, para além de variado, incidindo em especial em peças dos compositores Fernando Lapa, Ângelo Cardita (o nosso maestro, que, embora ausente por motivos profissionais, continua a ser titular!) e Ferreira dos Santos. O coro tem como organistas o Samuel Pinto, que se encontra a estudar Música na Alemanha, e o António Pedrosa, que agora o substitui. Acompanham ainda o coro, com alguma regularidade, os flautistas André Rei e Gonçalo.

Tentamos, tanto quanto nos é possível, respeitar a Liturgia, muito especialmente o espírito e tema que o presbítero lhe pretende imprimir em cada dia da Páscoa semanal que celebramos todos os Domingos. O centro da nossa preocupação é a Páscoa anual, com especial incidência na Vigília Pascal, como a Mãe de todas as noites, a noite em que a Vida triunfou da Morte! Essa é a nossa meta e o nosso fim. Para ela tendemos e dela partimos cada Domingo.

Serra do Pilar, 2014.01.27

Catecumenato – 40 anos

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Ainda não são os 40. Porque tudo começou nos inícios de 1975, sem o querermos. Quando demos por ela é que concluímos que o que estávamos a fazer era Catecumenato. E por aí tínhamos de seguir. Prioridade absoluta.

Ouvi falar de Catecumenato pela primeira vez era já presbítero. A pedido de um Senhor chamado Dr. Narciso Rodrigues, apareceu um espanhol chamado Casiano Floristán a falar aos presbíteros recém-ordenados. No meu curso de Teologia, tal nunca foi assunto. Nem sequer em História da Igreja.

Casiano falou do catecumenato, falou do France, pays de mission?,  e disse que o futuro da Pastoral ou ia por aí ou não haveria Pastoral.

Ouvi e guardei. E logo encontrei o Padre Leonel.

Praticamente há 40 anos, o catecumenato de adultos é prioridade na Serra do Pilar. Até hoje houve 16 grupos, quatro anos cada um. Média de 12 catecúmenos por grupo.

É pouco?

Jesus, discípulos não teve mais, só Doze. E três anos com eles, dia e noite.

E, no fim, um dos Doze enforcou-se.

Não há catecumenato sem comunidade mas também não há comunidade sem catecumenato. Acreditam? Primeiro a galinha ou os ovos?

Está a começar o 17º… grupo catecumenal na Serra do Pilar!

Tipográfica

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A primeira multicópia da Comunidade imprimiu-se na Páscoa de 1975 (a Comunidade tinha nascido em Novembro de 1974). Não tínhamos ainda duplicador, íamos à paróquia de Coimbrões. Não descansámos enquanto não começámos com uma Folha Dominical, a exemplo do que se fazia no Padrão da Légua. A nº 1 foi publicada em 13 de Abril de 1975.

Um dia, foi numa noite, rebentou sobre o Porto/Vila Nova de Gaia uma tal e tremenda trovoada que a instalação eléctrica da igreja da Serra do Pilar ardeu praticamente, e tudo o que estava ligado à corrente ficou queimado. Ficámos sem órgão, sem tudo. E sendo a acústica da igreja muito complicada, então é que não se ouvia nada do altar para a assembleia. Remédio? Publicar os textos da Liturgia dominical em folhas duplicadas, o que começou a ser feito em 19 de Novembro de 1975.

Ferramentas? Tudo começou com uma pequeníssima máquina de escrever portátil, comprou-se depois uma outra, muito melhor, tipo comercial — Aquela máquina!, lembram-se? —; comprou-se logo um duplicador meio manual e outro meio electrizado, a seguir veio uma máquina de escrever dita já eléctrica, com alguma memória, comprou-se entretanto uma duplicadora já que tal!, e uns anos passados uma impressora a sério já sem stencil nem aquela tinta horrorosa que sujava tudo e todos. Existe ainda e trabalha bem. A seguir, chegaram os computadores.

Quem manobrava tudo isto? Começou por ser o Arlindo, claro!, lembro-me que a seguir foi o Quim do Amen, logo o Pedro, este durante anos, mas ainda em casa do Arlindo. O Pedro fazia par com o Avô Pereira, homem experimentado na impressão de um dos jornais diários do Porto. Entretanto casou, foi viver para outro lado, e apareceu o Manel Vieira, profissional este de Litografia, a ajudar o avô Pereira, e alguns mais, o Cancela, por exemplo. Semanalmente, depois do trabalho do(s) escrevedor(es), do corrector de textos e do formatador digital, entram em cena os impressores. Trabalho duro, por vezes — sobretudo na Páscoa e no Natal — esgotante, mas sempre bem feito, sem falhas, tudo muito dobradinho, levado da Casa Pastoral para a igreja e para o Correio. Ultimamente, apareceu um jovem trabalhador, Manuel Moreira. Dizem os mais velhos que óptimo!

O Acolhimento distribui à entrada e saída da Liturgia. Mas já há, disponíveis, duas pessoas: um senhor de 50 anos e um jovem de 80 anos. A esta equipa de impressores deu-se o nome de A Tipográfica. Um dos grandes ministérios da Comunidade.

Serra do Pilar, 2014

A Partilha Fraterna

A Luta entre o Carnaval e a Quaresma (1559), de Pieter Bruegel (1564-1638)

A Luta entre o Carnaval e a Quaresma (1559), de Pieter Bruegel (1564-1638)

Claro que reconhecerão que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros (Jo 13,35). Por isso, a fé sem obras é morta (Tg 2,17). Claro também que tudo o que fizerdes a um destes mais pequeninos é a mim que o fazeis (Mt 25,40). Também neste campo, a prática dos primeiros cristãos é notável e normativa: de Jerusalém à grande campanha desencadeada por Paulo nas igrejas da Grécia a favor da comunidade primitiva, até mesmo à Igreja de Roma, a quem, exactamente pela sua capacidade de atender aos pobres, foi entregue a presidência da caridade de todas as igrejas.

Pecados? Tiago não foi inocente ao dar um exemplo: Suponhamos que entra na vossa assembleia um homem com anéis de ouro e bem trajado, e entra também um pobre muito mal vestido… (2,2). Nem Paulo aos Coríntios: enquanto um passa fome, outro embriaga-se (1ª, 11,21). Eles sabiam do que acontecia pelas comunidades! Mesmo assim, ao longo do tempo, a História regista a impressionante capacidade da Igreja de, em tempos adversos, animar e inspirar obras de caridade, suprindo, na maior parte dos casos, a inércia e a incapacidade de resposta da sociedade civil. Só já quase no nosso tempo é que uma grande tomada de consciência viria alterar muita coisa: é preciso ir às causas. Por isso,

torna-se necessário um discernimento cada vez mais apurado para captar, na sua origem, situações nascentes de injustiça e instaurar progressivamente uma justiça menos imperfeita. (…) A atenção da Igreja deve entretanto, [também] voltar-se para os novos pobres – impedidos por toda a espécie de dificuldades, inadaptados, velhos e marginais de origem diversa – para os aceitar, para os ajudar e para defender o seu lugar e a sua dignidade numa sociedade endurecida pela competição e pelo fascínio do êxito (Paulo VI – OA, 15).

Neste sentido, escrevia há pouco a Profª Manuela Silva:

Há um paradoxo que atravessa a relação da Igreja portuguesa com a pobreza: é inegável que a Igreja se preocupa com os pobres e está na primeira linha da ajuda directa aos pobres. Mas, enquanto faz isso, tem um défice manifesto em tudo o que se refere à denúncia dos processos de empobrecimento, das situações de injustiça na génese da pobreza e na formação da consciência dos cristãos acerca dos mecanismos da desigualdade e da exclusão.

Partilhar bens (não só nem principalmente serviços e dinheiro) é uma palavra. Ir às causas, outra. Sobretudo nas Comunidades, a terceira.

Uma Igreja que não partilha não responde ainda a toda a exigência da comunhão com Cristo e em Cristo. (…) [Mas] É urgente, cada vez mais, nas nossas comunidades, este espírito de partilha, abrindo-se às necessidades dos irmãos e das outras comunidades mais carenciadas (Bispos Portugueses – Os cristãos leigos…, 1989, 15).

Isto não quer dizer, no entanto, que a Igreja não deva organizar-se neste campo da partilha de bens, quais?, a nível diocesano e nacional. Foi este o espírito que ajudou a nascer entre nós, no já longínquo início dos anos 80, o nosso Serviço da Partilha ou Ajuda Fraterna, carregado de nomes (a Zirinha, o Santos, o Chico, o Rocha, etc) e de méritos. Mas não vivemos do passado. E é este o espírito que precisamos de recuperar.

Duas coisas. O Serviço da Partilha Fraterna da Comunidade não dispensa nem a atenção nem a ajuda fraterna efectiva de cada um dos membros da comunidade, onde for preciso, a quem for necessário. A Ajuda Fraterna é uma obrigação da Comunidade, não apenas do Serviço. Em princípio, o Serviço da Partilha Fraterna apenas poderá responder melhor a algumas situações concretas. Mas não funciona como descarga de consciências individuais.

Segundo. O nosso serviço de Partilha Fraterna está em fase de reorganização. Porque casos novos a exigirem intervenção estão sempre a aparecer. E porque se sente necessidade de reunir num só serviço uma série de capacidades vocacionadas para esta área que não faz sentido nenhum trabalharem cada uma para seu lado. Precisa de dinheiro este Serviço? Sim, precisa de algum dinheiro. Mas não muito. A essas necessidades cada vez mais responde o Estado, via Segurança e Assistência Sociais. A Ajuda Fraterna precisa, sim, de capacidade(s) para ajudar fraternalmente.

As contribuições em dinheiro para a Ajuda Fraterna depositam-se naquele pequeno móvel que está à entrada da igreja, miniatura de um antigo templo, uma pedra por cima, e assim não sabe a [mão] direita o que faz a esquerda (Mt 6,3). E uma vez por ano, neste início do Advento, revertem para ela as ofertas recolhidas numa celebração da Comunidade. Em tempo de Advento, convém recordar sempre: Aquele que há-de vir que é Aquele que já veio, vem hoje. Quando, Senhor? Quando te vimos com fome e com sede, e nu e preso, e te atendemos? (cf Mt 25). Sabemos todos a resposta.

Serra do Pilar, 2003

História da Partilha Fraterna

inventario 18

Móvel da Partilha Fraterna. “A mão direita não sabe o que faz a esquerda” (cf Mt 6,3). Por isso, do dinheiro que ali cai não há contas. Mas, sobre ele, uma pedra por cima.

Ao longo da História tem sido impressionante a capacidade da Igreja de, em tempos adversos, animar e inspirar obras de caridade, suprindo na maior parte dos casos a inércia e a impossibilidade de resposta da sociedade civil. No entanto, foi só quase no nosso tempo que ela percebeu que era necessário ir às causas da pobreza, mais do que curar-lhe as feridas. Escreveu há anos já a Profª Manuela Silva:

“Há um paradoxo que atravessa a relação da Igreja portuguesa com a pobreza: é inegável que ela se preocupa com os pobres e está na primeira linha da ajuda directa aos pobres. Mas enquanto faz isso, tem um défice manifesto em tudo o que se refere à denúncia dos processos de empobrecimento, das situações de injustiça na génese da pobreza, e na formação da consciência dos cristãos acerca dos mecanismos da desigualdade e da exclusão”.

Partilhar bens (não só nem principalmente serviços e dinheiro) é uma coisa; ir às causas, outra.

“Uma Igreja que não partilha não responde ainda a toda a exigência da comunhão com Cristo e em Cristo. (…) “[Por isso,] É urgente, cada vez mais, nas nossas comunidades, este espírito de partilha, abrindo-se às necessidades dos irmãos e das outras comunidades mais carenciadas” (Bispos Portugueses – Os cristãos leigos…, 1989, 15).

Isto não quer dizer, no entanto, que a Igreja não deva organizar-se neste campo da partilha de bens, a nível diocesano e nacional. Foi este o espírito que ajudou a nascer entre nós na já longínqua volta dos anos 70 para os 80 o nosso Serviço da Partilha ou Ajuda Fraterna. Dei-me um dia destes à tarefa de investigar como e quando. A Comunidade tinha nascido nos finais de 1974 e era ainda adolescente. De início não se preocupou com a questão. 4 anos depois, no entanto, estávamos em 1978 (12 de Dez), dissese assim na homilia: “Porque é que a nossa Comunidade tem tido sempre dificuldade em reflectir e levar à prática a partilha de bens, materiais ou de outra ordem, partilha que é, no entanto, absolutamente indispensável em qualquer Comunidade Cristã?”.

No início da Quaresma seguinte, 1979, distribuiu-se a toda a Comunidade um documento – Reflexão para o tempo da Páscoa – dividido em três partes: A Comunidade Cristã, A vida de Caridade e A Partilha de Bens. Na homilia de 5ª Feira Maior desse ano, assim: “Temos falado muito de Partilha de Bens. Mas percebeis, Irmãos, porque é que sempre defendi que fosse a Eucaristia o lugar único de Partilha de bens materiais? É que Eucaristia e Caridade são inseparáveis na vida da Igreja”. E na Vigília Pascal desse mesmo ano: “ Continuamos em mãos com uma reflexão sobre a Caridade Fraterna e a Partilha. E temos de levar à frente esta tarefa. Os grupos que se têm reunido para o efeito continuarão a fazê-lo” (FD 199).

Não foi fácil esta caminhada, a julgar do facto de nos papéis se não encontrarem mais notícias dela. No entanto, em Dezembro desse mesmo ano de 79, publicava-se a primeira de cinco folhas dominicais (226, 227, 228, 233, 444) que, com o mesmo título – “Idosos, reformados e sós” -, noticiavam o movimento que originou a criação de Centro da Convívio da Serra do Pilar. A Comunidade passava aos actos. A par, surgiria uma coisa que levou o nome de “Casos especiais”: “A Comunidade tem sido solicitada em alguns casos inadiáveis, graves e bastante onerosos. … Propomo-nos, portanto, organizar um serviço de Partilha Fraterna que … atenda a estas necessidades” (FD 298).

Em Setembro de 1981, dizia-se na abertura duma Assembleia da Comunidade no início do Ano Pastoral: “A comunidade Cristã vive no espírito de partilha de bens, o que tem de verificar-se, antes de mais, no seu interior”. E em 2 de Maio de 1982: “Para as despesas da Comunidade, o dinheiro não chega, temos saldo negativo. Pelo contrário, para a Ajuda Fraterna, tem chegado, embora também só possamos atender a alguns casos mais graves e urgentes”. Nesta altura, estaria, portanto, já estruturado e em funcionamento o grupo da Partilha Fraterna. Tanto assim que o arquitecto Zé Nobre desenhou e Pai Carvalho executou o móvel dito da Partilha Fraterna que ali está, à entrada da igreja, para ser apresentado à Comunidade no dia 5 de Dezembro de 1982.

A Folha dominical desse dia publicou os desenhos do Zé Nobre e sua interpretação. Em título, [Móvel da] Partilha Fraterna. Só que, nesse 5 de Dezembro, um domingo, ninguém o viu ou olhou para ele: todos os que entravam na igreja eram imediatamente agredidos com a notícia “O Sr. Santos morreu”. Quem era o Sr. Santos? No Livro da Vida está escrito assim:

“Ele foi dos primeiros que entre nós se encarregaram deste serviço (PF) comunitário. A grandeza de estatura que inegavelmente tinha entre os Irmãos, homem de coisas essenciais que com elas unicamente se ocupava, ajudou a que, com a discrição que lhe admirávamos (dava-se sempre pela sua falta quando não estava), um Serviço que nascera contestado se tivesse afirmado pela Partilha generosa dos Irmãos”.

Um ano depois da sua morte, decidiu-se que o 2º domingo do Advento, em princípio o mais próximo do 5 de Dezembro, o dia da sua morte, fosse, entre nós, o dia da Partilha Fraterna. Quando, em 2002, o Serviço da Partilha Fraterna se esvaziou de responsáveis houve que, imediatamente, responsabilizar outros, que uma Comunidade Cristã, seja ela qual for, não pode estar sem Partilha Fraterna. Porque Ele anda por aí com fome e com sede, sem abrigo de qualquer espécie, nem de roupa. O Serviço da Partilha Fraterna da Comunidade não dispensa nem a atenção nem a ajuda fraterna efectiva de cada um dos membros da comunidade, onde for preciso, a quem for necessário. Porque a Ajuda Fraterna é uma obrigação da Comunidade, não apenas do citado Serviço.

Em princípio, a Partilha apenas poderá responder melhor a algumas situações concretas e especiais. Mas não funciona como descarga de consciências individuais. Viria depois o Banco Alimentar. Não é fácil e exige muita disponibilidade. E que bem funciona! E sempre a mão esquerda sem saber o que faz a direita (Mt 6,3). Porque estas coisas esquecem e há sempre alguns que o não sabem, digo ainda que todas as contribuições em dinheiro – mesmo o € semanalmente jejuado – destinadas à Ajuda Fraterna, se depositam naquele pequeno móvel que está à entrada da igreja, miniatura de um antigo templo. Hoje é diferente: hoje, até as ofertas a recolher de imediato se destinam à Partilha Fraterna. Em tempo de Advento, convém sempre recordar: Aquele que háde vir é Aquele que já veio, e o mesmo que vem hoje. “Quando, Senhor? Quando te vimos com fome e com sede, e nu e preso, e te atendemos?” (cf Mt 25). Sabemos todos a resposta.

Homilia na Serra do Pilar, 2011.12.04, 1º domingo do Advento

Grupo de Jovens

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Faz agora quatro anos que nos unimos. Há quatro anos que somos um grupo. Há quatro anos que começou aquilo, que nunca pensámos que íamos ser juntos.

Não éramos mais do que jovens com a catequese terminada e sem qualquer tipo de rumo a seguir. A idade em que vivíamos era crucial. Enfrentávamos aquela fase de mudança que pode ter influência no resto da nossa vida. A vontade que tínhamos de viver em Comunidade, juntamente com o resto da Serra do Pilar era grande mas surgia sempre a grande pergunta: Onde é que nos enquadramos? Já não éramos as crianças que tinham catequese mas estávamos longe de ser os adultos que têm seus ministérios na vida da Comunidade. A verdade foi que tudo isto fez surgir um grupo de jovens: foi a grande tentativa de nos enquadrarmos e sermos valorizados pelo resto da Comunidade.

Facilmente a ideia foi apoiada por toda a gente. Todos eram de acordo com a formação de um grupo para nós, os meninos que haviam acabado a catequese e quando demos por ela, já as sessões tinham começado. Aquilo que com certeza todos nós sentimos foi medo. Mas um medo bom. Aquele medo que nos leva ao silêncio e à timidez. Não sabíamos o que esperar. Talvez lá no fundo, a nossa expectativa era de que fosse algo como a catequese, quase como uma espécie de continuação. Começámos por comunicar por olhares. Olhávamos as pessoas que se tornariam nossos companheiros. Esperávamos sempre que alguém falasse por nós, alguém que quebrasse o silêncio constrangedor que nós não conseguíamos ainda quebrar.

À medida que o tempo ia passando, começavam a escapar das nossas bocas os bons dias e os olás e mais cedo ou mais tarde os olhares confusos que víamos uns nos outros antigamente, tornaram-se suficientes para perceber que por alguma razão precisávamos uns dos outros, precisávamos de ali estar. A adolescência é uma altura em que corremos o risco de ficar dependentes de certos perigos. A verdade é que a nossa dependência era outra, dependíamos uns dos outros.

A nossa união tornou-se tão grande que precisávamos de a demonstrar. Precisávamos que toda a gente soubesse e percebesse a importância do grupo na nossa vida. Toda esta vontade de estarmos presentes e vivermos em comunidade começou a transformar-se em canções escritas por nós, jantares organizados por nós, e o nosso começo na convivência e interacção na maioria das actividades organizadas pela Serra do Pilar. Aquilo que nos deixa mais orgulhosos após quatro anos é podermos dizer que os nossos objectivos iniciais estão a ser cumpridos e outros novos continuam a surgir. Todos nós aprendemos bastante com todo este processo e principalmente crescemos com ele. Acima de tudo deu-nos oportunidade de nos definirmos a nós próprios. Não são os outros que nos definem, somos nós. A escolha é nossa. Podíamos ter seguido muitos outros caminhos, mas juntos escolhemos seguir aquele que ainda hoje percorremos.

Conseguimos agora viver connosco e em comunidade. O grupo de jovens transmitiu-nos valores dos quais nos lembraremos para sempre, porque ao fim ao cabo foi muito mais do que uma continuação da catequese. Tudo isto só foi possível graças à nossa orientadora, que sempre lutou, luta e lutará por nós aquela que nunca nos deixou para trás, quase como uma segunda mãe. Por isso devemos-lhe tudo. Sem ela não seriamos o grupo que somos, ela faz de nós diferentes, únicos. Devemos-lhe todos os ensinamentos e lições e agradecemos a diversão e o ‘ombro amigo’. Agora o dever é nosso, é a nossa vez de transmitir tudo o que aprendemos com ela ao próximo. É a nossa vez de fazermos os outros serem diferentes como nós. Foi tudo isto que fez com que encontrássemos a nós próprios e o local onde pertencemos. E isso é das poucas coisas que temos a certeza que não vamos nunca perder. Grupo de Jovens, Março de 2014

Um dia a relembrar

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Foi algo único, extraordinário, nunca antes ocorrido na Comunidade da Serra do Pilar. O grupo de jovens Cres’Ser Jovem veio conhecer a nossa Comunidade “por dentro e por fora”. Foram sete amigos que nos vieram visitar e trazer a alegria num dia em que as nuvens começavam a espreitar.

Iniciámos o nosso encontro com uma pequena visita guiada à igreja, ao claustro, à sacristia e às salas da catequese, explicando um pouco da história da Serra do Pilar no decorrer da visita. As expressões faciais e reações dos nossos convidados ao visitarem os diferentes anos de catequese foram magníficas: transpareceram sentimentos de surpresa e admiração, mas ao mesmo tempo com um agrado pelo modo como a catequese é transmitida às crianças na nossa comunidade. Muitas vezes o mais importante não é a quantidade, mas sim a qualidade e é desta última característica que os nossos meninos resplandecem.

A hora da Eucaristia aproximava-se e dirigimo-nos então para os nossos lugares habituais, cada um ocupando “a sua função” na comunidade. Durante a Homilia fomos congratulados com a explicação de uma bióloga sobre a questão do surgimento do Universo e a questão do Bosão de Higgs. Quem melhor para falar neste assunto senão um entendido na matéria? Posteriormente gerou-se o convívio na sacristia a que estamos habituados. O âmbito deste nosso “café” é a angariação de fundos para os diferentes grupos da comunidade e ao mesmo tempo proporcionar um momento de descontração e diálogo.

Chegou a hora do almoço e todos nos deliciámos com as agradáveis bifanas que prepararam para nós. De seguida, deu-se um dos momentos mais altos do nosso encontro: a reflexão com o Padre Arlindo. Começámos por ouvir os comentários do grupo Cres’Ser Jovem, face àquilo que tinham observado ao longo do dia, isto é, face à nossa comunidade. A seguir, o Padre Arlindo deu-nos o seu ponto de vista e contounos algumas histórias da comunidade. Falou-nos sobre o seu paramento, que é diferente de todos os outros, e sobre as razões de alguns dos gestos e rituais que se realizam na Comunidade da Serra do Pilar. Falou-nos da importância das leituras serem feitas por leigos e não por membros do clero e do motivo pelo qual a mesa não se encontra posta no início da celebração. “O partir do pão” é levado à letra na nossa Comunidade e distribui-se pão de trigo sem fermento a toda a assembleia. Para que se percebam estes gestos é necessário ir à origem da questão. Jesus, durante a Última Ceia, partiu o pão para que chegasse para todos os discípulos. Se pretendemos que o seu gesto permaneça, considerando agora o pão como o corpo de Jesus, porque havemos de transformá-lo em hóstia? São algumas das ideais que a nossa Comunidade partilha. “Viver a Igreja”, participando nos seus rituais e percebendo o seu significado, fazendo-o da forma mais acertada.

De seguida realizámos uma atividade lúdica como momento de descontração e de diversão. Pintámos um biombo em conjunto, sem regras e sem temas. Pintámos o que sentimos no momento. Ficou algo indescritível, mas mais surpreendente foi a “tela humana” que começou a surgir. As pinceladas que de repente pintavam a nossa cara ou os nossos braços foram como rajadas de alegria que se espalhavam entre nós. No fim, convivemos mais um pouco e de seguida fomos todos para casa. No entanto, algo especial continuou a ligar-nos quando nos despedimos. Para mim, foi um daqueles dias em que adormeci a pensar: “Isto sim, é viver!”

Joana Lourenço, 2014-03-09

Páscoa 2014
3ª semana da Quaresma

Depois de Abraão, Moisés, o homem da libertação e da Lei. A Liturgia quaresmal não podia, por isso, esquecê-lo: o processo catecumenal estava a chegar ao fim com a Páscoa à vista.

Moisés

Moisés                                                                           Marc Chagall

No seguimento da promessa de uma numerosa descendência que Deus fizera a Abraão, o Livro do Génesis termina com a história de seu filho Isaac, seguida da do filho deste, Jacob ou Israel. O livro seguinte, do Êxodo, começa com a lista dos doze filhos deste último, detendo-se particularmente em José, o filho predilecto de Jacob que os irmãos venderam e foi parar ao Egipto. Em tempo de vacas magras viria, afinal, a ser ele o salvador de toda a família. Tornado entretanto Grão-vizir do Faraó, haveria de abrir aos irmãos [que o tinham vendido por ciúmes: era o preferido do pai] a possibilidade de, acompanhados do próprio Pai, se refugiarem no Egipto, fugindo assim à fome que assolava o país, a Norte.

Aí “os filhos de Israel, foram fecundos e multiplicaram–se, tornando-se tão numerosos e poderosos que encheram o país. Todavia os egípcios tornaram-lhes a vida amarga com uma pesada servidão: barro, tijolo, toda a espécie de trabalhos no campo, tudo uma dura servidão” (Ex 1,7-14).

É nesta situação que nasce Moisés, descendente de Levi, um dos irmãos de José. Iavé chamá-lo-ia mais tarde do meio de uma sarça ardente para lhe comunicar: “Eu vi a opressão do meu povo que está no Egipto e ouvi o seu clamor; conheço os seus sofrimentos. Mas vou descer a fim de o libertar da mão dos egípcios e fazê-lo vir para uma terra onde corre o leite e o mel” (Ex 3,7-8). Esta história conhecêmo-la todos, mais ou menos, particularmente os catecúmenos.

Há diferentes maneiras de ler estes relatos. Podem ser interpretados de um modo fundamentalista, à letra, como se se tratasse de reportagens escritas para um jornal moderno. Quando se fazia uma leitura assim, pensava-se que ela era a única possível. Mas de facto não; uma leitura dessas não levava em linha de conta o que o autor tinha querido transmitir, não era capaz de interpretar o estilo literário utilizado, muito menos reparava que o autor se exprimia segundo a sua cultura, a do tempo em que escrevia, e não na cultura do leitor que lê o texto muitos séculos depois. É preciso, pois, fazer uma leitura inteligente do texto pois que uma leitura fundamentalista “é uma forma de suicídio do pensamento”.

A figura de Moisés enche na prática todas as páginas do livro do Êxodo. Mas, a sugestão da Liturgia, fixamo-nos na entrega do Decálogo ou dos Dez Mandamentos, das tábuas da Lei, e na renovação da Aliança já feita com Noé e com Abraão.

Este texto (Ex 20) é um dos mais célebres de toda a Bíblia. Para o percebermos bem seria necessário varrermos da cabeça todas as ideias que, na Catequese ou na Escola, nela nos meteram, o que não é fácil.

No início do relato, Iavé, por intermédio de Moisés, diz assim ao povo: “Fui eu, o Senhor, quem te tirou da terra do Egipto, dessa casa de escravidão”. Assim se apresentou Iavé ao seu povo a lembrar-lhe que não estava esquecido da promessa que fizera anteriormente àqueles dois também grandes vultos da história religiosa que evocámos nas semanas anteriores, Noé e Abraão. Deus não se esquece, é fiel.

No seguimento, entrega-lhe um pequeno código, um conjunto de regras elementares para a vida em comum. Códigos desta ordem tinham já ao tempo alguns povos da região do Grande Crescente. Anterior a este, por exemplo, era o Código de Hamurabi, rei da Mesopotâmia, uns 18 séc.s aC. Mesmo assim, no Decálogo, há leis mais antigas, as que começam por Não… (ainda hoje, aos meninos pequeninos dizemos não) e leis mais modernas e desenvolvidas, digamos, as positivas (Amarás o Senhor, teu Deus…).

Não é um vulgar legislador, um rei ou dirigente político quem faz isto; não é também um ídolo ou um deus como os outros deuses, é o Senhor, Iavé, o Totalmente-Outro, o Surpreendente, Aquele cujo mistério se não podia penetrar mesmo quando parecia estar à mão de ser apanhado: parecia uma sarça a arder mas não se consumia! (Ex 3, 2 ss),.

E noutro lugar, o livro do Deuteronómio resumiria tudo: “Escuta, Israel! O Senhor nosso Deus é o Maior. Tu amá-lo-ás de todo o teu coração, com todo o teu ser, com toda a tua capacidade. As palavras dos mandamentos que hoje te entrego estarão sempre presentes no teu coração. Tu ensina-los-ás ao teu filho, e di-los-ás quando estiveres em tua casa e quando caminhares estrada adiante, quando estiveres deitado e quando estiveres de pé” (Dt 6,4-7).

Depois de tudo isto ter acontecido, “Moisés relatou ao povo todas as palavras do Senhor e ele respondeu a uma só voz: poremos em prática todos as palavras que o Senhor pronunciou”.

Quem foi afinal Moisés, para lá de todas estas histórias que o texto bíblico dele nos conta?

Esta figura – histórica?, tipológica? – como que nos revela um Deus interessado pela história dos homens, um Deus cheio de paciência mas também de amor exigente. Em Moisés percebemos a existência de crentes que, numa época quase perdida na noite dos tempos, foram capazes de falar com o seu Deus. É verdade que o pensavam ainda um pouco à nossa maneira humana, um Deus que gostava de nós e que derrotava os nossos inimigos, é verdade, mas que ralhava também, que se irritava, que castigava e que perdoava. Para proteger o seu povo era às vezers intratável, intriguista até. Não era, portanto, um Deus abstracto: num Deus assim, até é fácil acreditar, digamos. Seja como for, Iavé era um Deus vivo, interventivo. Finalmente, com a sua sensibilidade e numa linguagem tão diferente da nossa hoje, quase só faltou a Moisés ter dito que Deus é Pai. Mas isso havia de revelá-lo Jesus, o filho e nosso irmão, aquele cuja Páscoa nos preparamos para celebrar.

(Homilia na Serra do Pilar, 3º Domingo da Quaresma, 2006.03.19)