O justo vive pela fé

 

Já disse que Martinho Lutero, nascido em 1483, era um monge agostinho. Ordenado presbítero em 1507, foi Doutor na Universidade de Wittenberg (1508) e depois seu professor (1513).

A sua primeira educação, a familiar, foi bastante dura: por todos os lados, bruxas, demónios, duendes, feitiçarias, aparições mágicas… A fé, melhor, a crença alemã daquele tempo era toda ela supersticiosa, de origem pagã, espíritos malignos que voavam pelos ares ou penetravam nas águas e nas terras pantanosas… Lutero foi educado a temer o demónio. A luta entre Deus e o diabo, entre Cristo e Satanás, decidiria quem possuía a Igreja e o Mundo. Foi neste contexto, que o pai quis que o filho estudasse Direito. Mas ele começou pela Filosofia.

O demónio, o inferno, o medo de não se salvar e a necessidade de procurar Deus, de o encontrar, a ele, à sua graça e à sua salvação, já Doutor, decidiu-se pela vida religiosa. A vida monástica uma realidade popular e reconhecida socialmente. A todo o custo, o jovem Martinho queria sossegar as suas inquietações espirituais e, por isso, trocou os barulhos do mundo pelo silêncio eloquente do mosteiro. O prior que o recebeu, uma vez conhecidas as suas qualidades intelectuais, concluiu que Lutero oferecia suficientes garantias de poder ser chamado por Deus para a vida religiosa e, portanto, entrou no convento. Assim aconteceu em 1506, tinha 23 anos.

Ordenado presbítero um ano depois, 1507, em 1508 era professor de Filosofia e estudante de Teologia. Com tudo isto, no entanto, o ânimo de Lutero não se livrava das suas melancolias e inquietações, e dos seus escrúpulos. Continuava a não saber como ultrapassar as suas inseguranças e temores, continuando a pensar que Deus era um juiz aterrador e castigador, tremendamente justiceiro e misteriosamente arbitrário. A aparente grandeza e soberania de Deus era para ele uma fonte de angústia.

Em 1510, era já professor de Teologia, e no ano seguinte foi a Roma com um outro irmão seu, religioso, tentando esclarecer um assunto da Ordem monástica. Já então, como diz o dito popular, Roma veduta, fede perduta (“Ir a Roma é perder a fé”), veio de lá convencido que Roma era uma cidade morta, e a Igreja… é melhor não pensar nisso…

Regressado, em 1512 era Doutor e continuou professor de Teologia. No meio de todas as suas dúvidas, tentou alcançar a verdade teológica: professor, começou a denunciar não!, a encontrar no cristianismo que se vivia desordens teóricas e práticas que levantavam muitas dúvidas.. A partir da sua cátedra começou mesmo a fustigar bispos, presbíteros, doutores e religiosos. Mas manteve-se fiel: “Os hereges querem mal à Igreja porque a atacam falsamente e dizem que é um lodaçal de vícios e perversidades. Mas não. A Igreja é o novo povo da fé, nascido da água e do Espírito, a sua cabeça é Cristo; ela cresce e aperfeiçoa-se no meio de luzes e sombras, de pecadores e santos, de perseguidores e hereges. Deus vivifica-a e condu-la à glória futura” (Texto de Lutero).

Estávamos em 1515, Lutero costumava estudar numa sala com estufa situada numa Torre do convento agostinho e, um dia — deve ter dado um grande berro —, apoderou-se dele uma firmíssima intuição ou iluminação concetual como fruto maduro de tanto pensar e orar:

A justiça de Deus não é uma justiça distributiva, nem condenatória, nem punitiva.

A justiça de Deus justifica “per solam fidem” (só pela sua fé). Deus acolhe o pecador e comunica-lhe a sua justiça. A salvação não resulta do esforço do homem [sacrifícios, promessas, peregrinações, rezas…], é totalmente gratuita: recebe-se só pela fé (“sola fides”). A justiça de Deus é aquela de que S. Paulo fala na sua Carta aos romanos: “Iustus autem ex fide vivit” [O justo vive da fé] (Rm 1,17).

Fixado nesta descoberta ou limpeza, encetou ou tentou a purificação da Igreja: tudo o que era lixo, quase tudo, foi para a lixeira. Ficou a fé, porque o justo vive da fé. E basta.

Antes odiava o Deus justo e castigador dos pecadores. Mas agora, uma vez que por “justiça de Deus” se entendia aquela graça (Paulo chama-lhe justiça) pela qual Deus justifica o homem, convertendo-se num Deus de misericórdia, agora o cristão sente-se como que se as portas do Paraíso se lhe abrissem à sua frente e ele (o cristão) nele (paraíso) entrasse. Agora, “o justo vive da fé”!

Não é verdade que “o homem vive da fé”, como diz Paulo (Rm 1,17)? “Eu, que tinha perdido Jesus, o Cristo, na teologia escolástica, encontrei-o agora em Paulo” (Lutero).

Consequências?

Arlindo de Magalhães, 12 de Novembro de 2017

O novo povo da fé

Se o mundo europeu estava muito mal — o século XIV tinha sido “desgraçado” — a Igreja estava pior.

Primeiro, desde 1054 que a Igreja estava partida em duas: a ortodoxa e a romana, num Cisma dito “do oriente” (skisma, palavra grega > separação). Os cabeças das Igrejas ocidental e oriental, Roma e Constantinopla, excomungaram-se mutuamente. Até hoje, apesar de todos os perdões! Depois, num período de 40 anos, 1378 e 1417, outro cisma, este “do Ocidente”. Houve neste tempo dois Papas ao mesmo tempo. A França acusava que o Papa era sempre e só romano — e o papa foi viver para Avinhão, na França; a Itália apareceu logo a dizer que Papa só em Roma, e logo arranjaram outro que ficou em Roma. Dois Papas, cisma do Ocidente.

Dentro da Igreja, de resto, na Igreja de Jesus!, o padre era o único cristão: o leigo não tinha, não podia, não sabia, ninguém o ensinava, ele só tinha que fazer o que os clérigos mandavam; os leigos cumpriam sem perceber porquê nem para quê.

Os leigos eram uma desgraça mas os Papas eram pior, preocupados apenas com os estados pontifícios e com as suas famílias. A sua vida moral nem dela se deve falar aqui. Tinham filhos que depois eram cardeais e coisas do género… Os papas não eram papas, eram militares e políticos…, eram apenas papas-reis ou reis-papas.

E tinham os cristãos que fazer muitas coisas para se salvar: muitas devoções piedosas, culto de santos, relíquias, peregrinações, jejuns, sacrifícios, rezas, as 1as sextas feiras chegaram mais tarde… Mas já havia Purgatório que “purgava” os pecados até à sua eliminação completa… Só assim as almas podiam chegar à presença de Deus.

Mas mais. Em vida, os cristãos podiam enviar pontos para as almas do Purgatório. De cá (deste mundo) ajudavam-nas assim a sair de lá (do Purgatório); mas podiam também depositá-los na sua conta, o que lhes permitia libertar-se mais depressa do fogo do Purgatório, se lá caíssem. Para isso, já se celebravam muitas missas, é verdade. Mas surgiu então outra maneira de acumular pontos.

Roma queria e estava a construir os palácios da Renascença.

À volta do papado, cardeais e patriarcas, bispos e arcebispos, abades e monsenhores, prefeitos apostólicos, prelados e vigários, todos queriam era rendas (dinheiro). Formação teológica não existia, tudo vivia na incultura, na ociosidade, no concubinato.

E o pobre homem ou mulher, ainda se não chamava leigo nem leiga, se viviam preocupados era a sua salvação, a salvação da sua alma: Céu, Inferno ou Purgatório? É aqui que começa o individualismo, como disse já na semana passada: eu quero é salvar a minha alma; tu arranja-te como puderes! Neste quadro histórico ressurgiram as novas indulgências.

Os papas de Roma, cidade em ruínas, quiseram fazer nela um céu na terra. Que ainda hoje existe: Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci, Botticelli, Rafael, Bramante, capela Sistina, etc, etc, etc. Mas como pagar isto tudo?

Já à missa só se assistia, portanto dela não participava a assembleia (enquanto o padre botava a missa, os nossos avós rezavam o terço!); já a Bíblia não se lia, que ninguém sabia latim e ela não se podia traduzir para as línguas vernáculas porque tinha muitas coisas que… (eu ainda sou do tempo em que o IX Canto d’Os Lusíadas também não se podia ler nem imprimir em livros escolares).

Tempos de muitas estupidezes!

A questão das indulgências, hoje, é difícil de explicar e entender.

Na Igreja primitiva havia três pecados que impediam a comunhão com Deus e com os irmãos: o homicídio, o adultério e a negação da fé. Para ser readmitido na comunidade, isto é “na Igreja”, o penitente tinha de converter-se (tempo houve em que tinha de fazer um catecumenato penitencial de anos muitos, de meses então, etc).

Esta dura exigência …, 1º) alargou a lista de pecados, 2º) mas também amoleceu a dureza do tempo penitencial. E a Igreja começou a ter indulgência com o pecador. Esta palavra latina tem uma amplitude muito grande, mas é aqui um sinónimo de condescendência, de tolerância.

Estávamos no século XVI. E que aconteceu?

Em 1506, o Papa Júlio II (1503-1513) prometeu indulgências — perdão ou abrandamento de certas obrigações penitenciais — a quem ajudasse com dinheiro a construção da basílica de S. Pedro, em Roma. O pior, um verdadeiro escândalo, foi quando no Sagrado Império romano-germânico (digamos na Alemanha) se organizou uma campanha que distribuía indulgências mas exigia que se pagasse uma taxa: um “autêntico negócio pecuniário”.

Contra esta pouca-vergonha, levantaram-se muitas vozes: “A descomposição da Igreja era tal que absolutamente se levantaram vozes em busca do autêntico cristianismo, à procura de Deus e da sua graça; isso implicaria limpar o campo da fé de toda a prostituição”.

Mas o nosso Lutero não disse que a salvação depende unicamente da fé e da graça de Deus (solus Deus, sola fides, sola gratia: os três solus de Lutero).

Daqui nascerá uma nova conceção da Igreja. A Hierarquia, o sacerdócio ministerial, o Papado, não têm razão de ser. Lutero dirá mesmo que este último é “uma invenção do Diabo”.

Rejeitada a Igreja podre, visível e institucional, começa a perceber-se que era necessário voltar à Bíblia (nem todos saberão que a imprensa nascera em 1445, 38 anos antes do nascimento de Lutero: o primeiro livro impresso por essa “épica invenção” foi a Bíblia, que rapidamente se espalhou por todo o mundo e que permitiu que se voltasse à Sagrada Escritura!).

Tudo isto na busca de «“um povo novo”, o “novo povo da fé”, nascido da água e do Espírito Santo, povo cuja cabeça é Cristo, povo que cresce e se aperfeiçoa no meio de luzes e sombras, de pecadores e santos, de perseguidores e hereges, povo que Deus vivifica e conduz à glória futura» (texto de Lutero).

Arlindo de Magalhães, 5 de Novembro de 2017

Desperta, Jerusalém

Adolph Gottlieb, “Frozen Sounds”, 1951 | © The Adolph and Esther Gottlieb Foundation

 

 

Babilónia terá nascido cerca do ano 1750 aC e conheceu o seu apogeu com Nabucodonosor II (605–562 a.C.) mais de 1.000 anos depois.

No ano 722 tinha caiu a Samaria e, mais tarde, em 587 aC Israel. Foi esta uma queda mais grave pois que, com a conquista da Judeia, foram-se Jerusalém e o Templo, a “morada de Deus no meio dos homens”, praticamente destruído. Gravíssimo! E mais: Nabucodonor levou consigo para a Babilónia, cativos, os melhores do Povo de Iavé.

“A cidade fiel, outrora cheia de Direito, nela morava a justiça mas agora são todos assassinos! Eras como a prata mas ela transformaste-te em escória; eras como um bom vinho mas agora misturaste-te com água. Os teus governantes são rebeldes, companheiros de ladrões, todos à procura e regalias e recompensas” (Is 1,21-23).

“Judá foi exilada e oprimida por dura servidão; foi deportada entre as nações sem achar repouso! (Lm 1,3).

E por séculos se choraram os filhos de Iavé, eles e por eles. O nosso Camões recordou-os, recriando o Salmo 137:

“Sôbolos rios que vão por Babilónia me achei,
Onde sentado chorei as lembranças de Sião.
Nos salgueirais pendurei os órgãos com que cantava,
Aquele instrumento ledo deixei da vida passada.
Qu’era da música minha que eu cantava em Sião?”.

O perigo em tempos de crise é procurar um salvador que nos devolva a identidade e nos defenda sem muros…

Os profetas, porém, quase logo perceberam que não perduraria aquela desgraça:

“O Senhor terá compaixão de Jacob e voltará a escolher Israel, estabelecendo [os seus filhos] na sua terra” (Is 14,1); “Ouve-me, Israel: Fui eu que te criei, que te formei e acompanhei desde o seio materno e te socorri. Nada temas, meu carinho, meu eleito! Vou derramar água sobre aquele que tem sede! Não temas, meu carinho, meu eleito! Vou derramar água sobre o que tem sede e fazer correr rios sobre a terra árida! Vou derramar o meu espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes!” (Is 44,1.3.)

Tanta promessa e quanta graça!

Mas no ano 538 aC, Ciro, o Persa (2 Cro 36,22 /Esd 1,1; Is 44,28) sobe por aquele Médio Oriente acima e conquista a Babilónia, ano 539 aC, proclamando que os deportados judeus podem voltar à sua terra: “Eis o que diz o Senhor a Ciro, seu ungido: Vou derrubar as nações à tua frente, desatar o cinto dos reis, abrir-te as portas das [suas) cidades. Nenhuma ficará fechada. Irei diante de ti a aplanar-te os caminhos pedregosos” (Is 45, 1-2).

Os judeus exilados estão, portanto, a partir de agora, autorizados a regressar à sua terra de Judá, em particular a Jerusalém, para reconstruir o Templo. E obrigou a Babilónia a devolver ao Templo todos os tesouros arrebatados, e deu mesmo dinheiro para pagar a reconstrução do Templo.

Claro que os melhores judeus do tempo, os profetas, concluíram que Ciro havia sido escolhido por Deus para libertar o seu Povo exilado: “Para que se cumprisse a Palavra do Senhor, Ciro, rei da Pérsia, mandou publicar em todo o seu reino o seguinte decreto: ‘O Senhor, Deus do céu encarregou-me de lhe construir um templo em Jerusalém’” (Esd 1,1). “Eis o que o Senhor… diz a Ciro: ‘És o meu pastor e cumprirás em tudo a minha vontade’. E a Jerusalém dirás: ‘Serás reedificada’, como ao Templo ‘Serás reconstruído’” (Is 44).

Que diria Israel a tudo isto?

“Desperta, Jerusalém! Eu, o Senhor, sou o teu Deus! Desperta e levanta-te! Reveste-te da tua força, Jerusalém, cidade santa! Fugi da Babilónia…, mas não às escondidas: o Senhor irá diante de vós e o Deus de Israel seguirá na vossa retaguarda!” (Is 51 e 52).

”Saireis radiantes de alegria e ireis em paz para vossas casas. Montanhas e colinas irromperão a cantar diante de vós, a cantar. E todas as árvores dos campos em que passardes vos aplaudirão. Em vez de silvas crescerão ciprestes, e em vez de urtigas crescerá a murta. Isto será um título de glória para o Senhor e um sinal eterno que jamais perecerá” (Is 55).

Eu, o Senhor, sou o Senhor e mais ninguém!” (Is 45,6), ouviste?

Parece que não!

Arlindo de Magalhães, 22 de Outubro de 2017

O banquete

Pieter Bruegel, ‘O Casamento Camponês’ (1567)

Se bem que nenhum de nós tenha lido a Bíblia de fio a pavio, há na Bíblia textos mil vezes escutados: um deles acaba de ser lido, mais uma vez, o do banquete no cimo do monte, uma das mais belas peças da literatura mundial.

Antes de estender a toalha, convém saber que 1,5 capítulo antes, o primeiro dos três Isaías (o Livro de Isaías foi escrito por três profetas chamados todos Isaías) escreveu uma primeira série de vaticínios, de juízos cósmicos, que haveriam de cair sobre a humanidade.

Um pouco o que acontecera a Noé: “A Terra estava, diante de Deus, corrompida e cheia de violência. … Vou exterminá-la — disse Deus — … Tudo quanto existe sobre a Terra desaparecerá!” (Gn 6, 11.13).

Digamos que Isaías se inspirou no Génesis:

“A Terra está deserta e dispersados os seus habitantes, leigos e sacerdotes, escravos e senhores, senhoras e suas servas…, o vinho novo está fraco e a vinha murcha, … cessou a alegria dos tambores, acabou o ruído dos foliões, calou-se a cítara e as bebidas sabem a amargo… a cidade cai aos pedaços e as casas estão fechadas, e na cidade só há escombros. [Mas, como no dilúvio] Levantar-se-á a voz do mar, o terror; a cova e a mentira é o que vos espera, habitantes da Terra, … abrem-se as cataratas lá do alto, a terra cambaleia e treme, move-se e contorce-se…, pesa sobre ela o seu pecado…” (Is 24).

Mas, outra vez Iavé se condoeu do seu povo, como no dilúvio: “Não voltarei a amaldiçoar a Terra por causa do homem nem a castigar os seres vivos. Enquanto subsistir a Terra, haverá sempre sementeira e colheita, frio e calor, Verão e Inverno, dia e noite” (Gn 8,22).

E tal como aconteceu na terra corrompida do tempo de Noé, agora Deus promete também a todos os povos uma festa, o tal banquete escatológico do fim dos tempos, de “boas carnes e vinhos preciosíssimos. E de toda a terra desaparecerão as lágrimas e tudo quanto oprima o povo. Alegremo-nos e rejubilemos, que a mão do Senhor pousará sobre este monte” (Is 25,10).

No meio desta visão profética, podemos perguntar que cidade é a que anda por aqui, cidade que cai aos pedaços e onde apenas há escombros. É Babilónia, a grande cidade ou região para onde haviam já sido trasladados os mais destacados habitantes de Jerusalém, homens e jovens, quando, no ano 587 aC, foi tomada e destruída por Nabucodonosor.

Babilónia era o nome de uma região e da cidade mais evoluída do mundo naquele tempo. Banhada pelos rios Tigre e Eufrates (na Mesopotâmia > meso+potamós, no meio de 2 rios, o Tigre e o Eufrates), foi ali que nasceram a Escrita e o Direito. Teria surgido por volta do ano 1750 aC. Por mais de 1.000 anos, Babilónia foi a senhora, estendeu-se, deu cabo da Judeia, de Jerusalém e do seu Templo, e levou os deportados para a Babilónia. Mas, em 539 aC, cairia derrotada  por Ciro, rei persa que libertaria os judeus no exílio: “Um homem chamado Ciro conquistaria Babilónia e libertaria os judeus” (Is 44,28 e 45,1).

Neste primeiro mundo de riqueza e de luta — Noé, Nabucodonosor, Ciro, David e Salomão, etc, e Mesopotâmia, Suméria, Caldeia, Assíria, Babilónia, Jerusalém, etc — o profeta percebe que, de facto, só um banquete de “todos os povos” (Is 25,6)…, permitam-me, só uma ONU!

«O perigo em tempos de crise é procurar um salvador que nos devolva a identidade e nos defenda com muros

A guerra começa aqui e termina lá. Vemos as notícias nos jornais e na TV… Hoje, muita gente morre e a semente da guerra que gera inveja provoca ciúmes, a cobiça no meu coração é a mesma coisa que a bomba que cai num hospital, numa escola, matando crianças – é o mesmo. A declaração de guerra começa aqui, em cada um de nós. Por isso, pergunto: “Como defender a paz no meu coração, no meu íntimo, na minha família?”. Defender a paz, mas não só: edificá-la com as mãos, todos os dias. E assim conseguiremos fazê-la no mundo inteiro. …

Recordo quando começou a tocar o alarme dos Bombeiros, depois nos jornais e na cidade… Isto atraía a nossa atenção para algo que aconteceu, uma tragédia ou outra coisa. E logo ouvi a vizinha de casa chamar minha mãe: “Senhora Regina, venha, venha!’”. E minha mãe saiu a correr, assustada: “O que é que aconteceu?”. E a mulher, do outro lado do jardim, disse a chorar: “A guerra acabou!”» (homilia do Papa Francisco na Casa Santa Marta, em Roma, 2017/02/16).

Foi este o banquete no cimo do monte!

Arlindo de Magalhães, 13 de Outubro de 2017

Diante de Deus

Kazimir Malevich, ‘White on White’ (1918)

A questão de Deus está presente em todas as páginas da Escritura, ele e a sua revelação a Israel. Disse Ezequiel (18,25): “Vós dizeis que a maneira de proceder do Senhor não é justa” (Ez 18,25).

Era injusto o Deus de Israel?

Dificuldade de Israel e nossa, a de acusarmos Deus quando qualquer coisa (parece que) não funciona. É também o nosso modo de o procurarmos, de nos interrogarmos sobre Ele: quem é Deus?, que é Deus?

Antigamente, o catecismo e a própria filosofia procediam pela afirmativa: Deus é um ser eterno, omnipotente e omnisciente, criador e senhor de todas as coisas. Mas este Deus morreu.

Foi Jesus que acabou com ele: Pai nosso (Abbá!) e Reino de Deus são agora duas palavras indispensáveis para entendermos o Deus de Jesus Cristo.

Diante de um Deus legal ou/e moral, fechado em normas e preceitos positivos, Jesus falou de um Deus que aponta o amor sem fronteiras e convidando-nos a que sejamos bons como Deus o é (Mt 5,21-48).

Diante de um Deus que se afirmava à custa do homem – e por isso o homem estava, por exemplo, ao serviço do Sábado (de Deus) – Jesus falou de um Deus que quer saciar toda a fome e toda a sede do homem, um Deus anti-mal para quem até o sábado está ao serviço do homem: “O sábado foi feito para o homem e não o homem para o Sábado” (Mc 2,2t ss).

Diante de um Deus com quem o homem unicamente se podia relacionar chamando-lhe “Senhor! Senhor!” e a quem devia oferecer sacrifícios sem se preocupar com o irmão, Jesus falou de um Deus que prefere a misericórdia, que exige a reconciliação e a fraternidade, cujo culto seja verdadeiro e o templo não se converta numa casa de bandidos (Mat 5,23-24; 7,21-23 e 21.12-17).

Diante de um Deus aferrado às tradições humanas (os que lavam as mãos antes de comer mas deixam passar o camelo e filtram o mosquito, etc) e passam ao largo do caído na valeta do caminho para não incorrerem em impureza, Jesus falou de um outro Deus que nos remete sempre para o fundamental, o Deus do bom samaritano, da honradez e da justiça, da sinceridade, da compaixão e da misericórdia (Mt 5,1-8 e 23,13-28; Lc 10.30-37).

Diante de um Deus de perdão que só podia ser utilizado sete vezes – Jesus falou do Deus do perdão sem limites, “setenta vezes sete”, isto é, “sempre” (Mt 18,21-22).

Diante do Deus que tolerava o serviço a outros mundos – dinheiro incluído -, Jesus reclamou a entrega exclusiva ao Deus verdadeiro abandonando todos os ídolos (Mt 6,24, 13-44-46, 19,16-24).

Diante do Deus do fariseu e do irmão mais velho do pródigo, que se apresentavam com créditos recolhidos e se julgavam com direito a desprezar os pecadores, o Deus de Jesus optou por estes últimos, publicanos e prostitutas, os perdidos e os que não contam (Mt 21,28-32; Lc 15,1-32 e 18,9-14).

Diante de um Deus do poder que se impõe e oprime, do triunfo que esmaga e deslumbra, o Deus de Jesus respeita o homem e a sua liberdade, possibilita e pede a resposta de uma fé livre e adulta (Mt 4,1-11, 12,38-40, 16,1-4).

Diante de um Deus dos sábios e entendidos, o Deus dos pequenos e dos simples (Mt 11,25); do Deus dos arrogantes e poderosos, o dos humildes (Lc 15,32); diante do Deus dos ricos, dos saciados e dos que se riem, o Deus dos pobres, dos famintos e dos que choram.

Podia continuar com as contradições mas fico por aqui. Jesus falou de um Deus Pai e seu Reino de que nos aproximaremos pelo amor pessoal e livre, pela bondade infinita, pelo amor fraterno, pelo perdão sem limites, pela misericórdia escandalosa, pela graça irritante que derrama sobre todos os homens. Ele apresenta-se como pai de todos mas proclama claramente a sua preferência pelos perdidos e pelos simples, pelos pecadores e pelos pobres. Um Deus escandaloso, conflictivo e exigente, mas ao mesmo tempo um Deus que declara a vaidade dos ídolos (chamem-se dinheiro, nacionalismo, o que for) e o valor do ser humano. Para este Deus de Jesus, a pessoa tem um valor único e nada pode ser feito contra ela, tão pouco a lei, o culto ou o sacrifício…

… por isso é que ele – Jesus, o Servo de Iavé, ontem e hoje – foi crucificado!

“Vós dizeis: a maneira de proceder do Senhor não é justa. Espera aí, Casa de Israel: será a minha maneira de proceder que não é justa, ou o teu modo de proceder que é injusto?” (Ez 18,25). Por isso é que “os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o Reino de Deus” (Mt 21,32).

Arlindo de Magalhães, 1 de Outubro de 2017

A Vinha do Senhor

Poucas culturas dependerão tanto de um trabalho carinhoso e delicado do homem e do clima como é o da vinha.

A Palestina, terra de vinhas — era famoso o vinho do Líbano (Os 14,8) e o de Jelbón, cerca de Damasco (Ez 27,18) —, ensinou Israel a apreciar o fruto da videira e a acarinhar um trabalho difícil que dependia muito do clima. Por isso, sempre a religiosidade antiga sempre se associou à misericórdia ou castigo de Deus: se havia vinho, graça de Deus; se a cultura era fraca, castigo divino.

Cultura preciosa e difícil, longa até, tinha qualquer coisa de misterioso. No mínimo, de diferente, percorrida da vinha à adega, ao bom vinho, sobretudo o velho e bem tratado (Is 26,6), o que «alegra o coração do homem», dizia o Salmista (104,15), o que tem «espírito», dizemos nós, sinal da alegria de Deus.

Por tudo isto, o Povo de Israel foi muito justamente considerado a Vinha do Senhor, como tão bela e poeticamente se exprimiu o Profeta Isaías: “A vinha do Senhor do Universo é a Casa de Israel e os homens de Judá serão a casta escolhida” (Is 5,7). Esta vinha, a Casa de Isarel, o Senhor a cultivou com carinho e atenção: mas não deu uvas boas. Ela era «a sua plantação preferida, “dela esperava o Senhor a rectidão, mas, afinal, só deu sangue derramado; esperava a justiça, e só deu gritos de horror» (Is 5,7).

Nesta altura do ano, a utilização destes textos bíblicos traduz a grande consonância existente entre a Liturgia e o ritmo da antiga (e ainda actual) vida rural e agrícola (europeia). Agora que, na Europa mediterrânica, onde foi criada a Liturgia, particularmente a romana, as uvas estão maduras e se fazem as vindimas, cascos e lagar já lavados e pessoal contratado ou, em muitos casos, “pessoal reunido” (familiares. amigos, turistas…), a vindima como que comunga, em zonas vinícolas, um aroma que anda no ar. E é a partir deste trabalho agrícola, neste momento o mais premente, que a Liturgia cristã arranca para a proclamação da Palavra.

É verdade que, se as vindimas são, no ritmo agrícola da vida rural, a última das grandes colheitas do ano (logo entrava o Outono e se iniciava um ritmo quotidiano mais pausado, que anunciava a chegada do Inverno), na nossa vida moderna e urbana, ao contrário, é o ano que começa: terminaram definitivamente as férias para todos, começaram as aulas e também o ano político, o judicial, o económico, o laboral, etc.

Com tudo isto, a Liturgia como que dá uma «guinada», perdoe-se-me o termo: depois desta temática da Vinha, todo o ambiente litúrgico se volta para os Fins, começa progressivamente a ser escatológico, num clima que se adensará e crescerá de intensidade até ao fim do ano litúrgico, que desembocará no Advento, o tempo por excelência da celebração da Escatologia.

Chegados aí – ao Advento – a Liturgia não mais abrandará a comandar e conduzir toda a vida eclesial, nomeadamente na sua vertente pastoral, até ao cume que é a Páscoa, que, por sua vez, tem no Pentecostes o seu clímax.

É importante, por isso, esta mudança temática que a Liturgia engrena por estas alturas de meados de Setembro/inícios de Outubro. Fá-lo em consonância com os ritmos rurais e agrícolas da sociedade tradicional em que foi criada a Liturgia romana ou, no caso, mediterrânica: quando o seu ritmo abrandava e mais disponíveis estavam as pessoas, fim do Outono e Inverno à porta, acelerava-se a Liturgia festiva (o Natal e, pouco depois, a Páscoa).

Embora de modo completamente diferente, também assim acontece na vida urbana. Após a grande dispersão e mobilidade das férias de Verão, as comunidades começaram já a reencontrar-se, as Assembleias a repôr-se, e é grande em todos a vontade de recomeçar…

“Até os que chegam mais tarde, recebem tanto como os primeiros!”.

Arlindo de Magalhães, 24 de Setembro de 2017

O perdão é estrutural

Paul Klee, ‘Rayo Multicolor’
1927

Tal como há oito dias, também hoje o trecho do Evangelho acabado de ler faz parte de um discurso – de um ensinamento – de Jesus sobre a atitude da comunidade para com o perdão (Mt 18, 6/35).

Mateus começa por converter uma instrução de Jesus num diálogo entre ele e Pedro, instrução que arranca de uma pergunta feita pelo discípulo ao Mestre: “quantas vezes posso perdoar?” (Mt 18, 21-22). À vingança sem limites dos primórdios, Jesus contrapõe o perdão sem limites.

Segue-se depois uma parábola (23-34) que tem pouco a ver com o ensinamento de Jesus. A questão era: perdoar quantas vezes?

A parábola, no entanto, não diz respeito à pergunta anterior – “quantas vezes posso perdoar?” -, antes ilustra o que Jesus tinha dito aos discípulos noutra altura, quando lhes ensinou a oração do Pai-nosso: “perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido (Mt 6,12), pois que ”se perdoardes aos homens, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós” (Mt 6,14).

Mateus explicava então às comunidades proto-cristãs que ele frequentava ou até formara que tinham de levar a sério o ensinamento de Jesus, contido na oração do Pai-nosso: “Pai nosso…: perdoa-nos as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

A isto se chamava, no contexto da cultura judaica, um midrash, um ensinamento edificante, poderíamos até dizer na nossa linguagem moderna, uma homilia edificante. Portanto, uma explicação que não deixasse dúvidas.

A parábola tenta mostrar a necessidade de imitar a misericórdia de Deus: “Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai” (Mt 5,48), “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36), “Amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem nada esperardes em troca. Então, será grande a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo, porque ele é bom até para os ingratos e os maus” (Lc 6,35).

A parábola utiliza uma linguagem clara e arrasadora. Quem objetaria contra?

Não esqueçamos que Mateus escreve o seu Evangelho para cristãos procedentes do judaísmo. E, no Judaísmo, apesar do que já dizia o Livro do Levítico (19,18) – “Não te vingarás nem guardarás rancor aos filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo” – e apesar de Tobias – “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” (Tb 4,15) -, no Judaísmo, dizia, a lei vigente ou a Moral possível era “olho por olho, dente por dente” (Lv 24,20).

Ainda hoje é assim. Mateus dirigia-se a cristãos provenientes do Judaísmo, por volta do ano 80. A esta data, já o processo de separação do Judaísmo e do Cristianismo tinha chegado ao fim. Até já Jerusalém – no ano 70 – tinha sido arrasada pelos romanos. Mateus e a comunidade (judeo-cristã) procedem da Sinagoga, mas estão já em rutura com ela, num tempo em que o Judaísmo oficial, arrasado pelos romanos e sem Templo, intentava calar qualquer movimento dissidente por ele estabelecido, em particular o próprio movimento cristão.

Mateus percebe que a sua comunidade – proveniente do Judaísmo – tem dificuldade em ceder numa questão tão importante como esta do perdão. Por isso, venha ou não a propósito, sempre que pode, afirma-lhes que, para os discípulos de Jesus, é fundamental, é estrutural e radical o perdão: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois ele faz com que o sol se levante sobre os bens e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores. Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter?” (Mt 5,43-46).

Eu sei. Eu sei que o perdão é sempre muito difícil. Mas faz parte integrante do cerne da mensagem de Jesus. Também sei que não se ama um inimigo como se ama um amigo, muito menos um irmão ou um filho. 

Eu sei. Mas também sei que se o perdão não faz parte da ética da cultura que corre, continua a fazer parte da Boa Nova de Jesus. E mesmo que o perdão apareça impossível, temos sempre o exemplo de Jesus, guardado não por Mateus, mas pelo médico Lucas, não tão preso à cultura judaica, ele que escrevia para cristãos vindos do paganismo: “Perdoai-lhes, ó Pai, que não sabem o que fazem!” (Lc 23,34).

Arlindo de Magalhães, 17 de Setembro de 2017

Quem dizeis vós que eu sou?

Filippo Rossi (2015)

“Quem dizem os homens que é o Filho do Homem? E quem dizeis vós que eu sou?” (Mt 16,13 e 15) – perguntava Jesus aos seus discípulos.

Por volta dos seus 27 ou 28 anos, Jesus, que vivia com os pais num povoléu chamado Nazaré (Mt 2,22), começou a andar por toda a Galileia, dita “dos gentios” há já muito tempo (Is 9,1), isto é, região meio paganizada, a norte, e foi depois a Jerusalém, a sul, onde seria executado provavelmente no dia 7 de abril do ano 30. Palmilhou, portanto, intensamente a Galileia, embora por pouco tempo: nem sequer três anos. Não é possível reconstruir com exatidão os lugares desse seu andar, nem os caminhos por onde se movimentou. Sabemos que andou nas proximidades do lago de Genesaré, na Galileia…

Passava de uma aldeia para outra, mas nunca terá visitado nem Séforis, uma grande cidade no interior da Galileia do seu tempo, nem Tiberíades, esta na margem do lago que também se chamava Tiberíades. Séforis e Tiberíades eram as duas cidades mais importantes da Galileia. Em contrapartida, durante algum tempo, demorou-se por Cafarnaúm (“E tu, Cafarnaúm, julgas que serás exaltada até ao céu?”, Mt 11,23), cidade situada também nas margens do lago. Em todos esses lugares, curava os doentes e anunciava, com espanto de todos, o “reino de Deus”. A sua fama espalhou-se rapidamente e as gentes começaram a andar atrás dele, daqui pràli, para o seguir e escutar.

Usava uma linguagem regional mas sugestiva. As suas bocas e ditos breves e diretos, bem como as parábolas, eram inconfundíveis. Quase nunca falava de si. A sua pregação concentrava-se no que ele chamava o “reino de Deus”, como acima se disse já. A sua mensagem entroncava na tradição judaica, mas não o falar: numa linguagem simbólica e poética, nascida na sua experiência de Deus, ele ensinava depois: “Os que choram serão consolados e os mansos possuirão a terra” (Mt 5,4-5); “O Céu é o trono de Deus e a terra o estrado dos seus pés” (Mt 5,35). Mas o reino do céu, o reino, era sempre o tema mais importante. O Reino, o ser misericordioso como Deus-Pai o é (“não devias tu ter piedade do teu irmão como eu a tive de ti?”, Mt 18,33), e o perdão dos inimigos (“perdoa-nos… assim como nós perdoamos a quem nos ofendeu…”, Mt 6,12).

É difícil precisar a historicidade transmitida pelas tradições evangélicas; mas a verdade é que Jesus era também um curandeiro popular que tinha grande aceitação em todo o povo. Essas curas eram entendidas pelos setores mais afundados, pobres e sofredores da sociedade, como sinais da chegada do reino de Deus, embora Jesus tenha sempre resistido a realizar sinais espetaculares: “trouxeram-lhe todos os que sofriam de qualquer mal, os que padeciam doenças e tormentos, os possessos, os epiléticos e os paralíticos” (Mt 4,25).

No entanto, Jesus tinha um comportamento estranho e provocador. Violava constantemente as maneiras normais de conduta naquela sociedade. Não praticava as normas estabelecidas pelas leis e costumes da pureza ritual: nem sempre lavava as mãos antes de comer (Mt 15,20), não jejuava nem cumpria o preceito sabático (Mt 12,12), vivia rodeado de gente indesejável — cobradores de impostos, prostitutas, leprosos e muitos mais — e de mendigos e pobres, de famintos e de marginalizados, comia com pecadores e publicanos, falava em público com mulheres e admitia-as como discípulas… Era o caso de Maria Madalena, que ocupava um lugar importante entre os que se movimentavam à sua volta. Ainda por cima, segundo tudo indica, Jesus tinha uma atitude particularmente acolhedora para com as crianças (Mt 11,25); assumira essa atitude não sem mais mas com nítida intenção de mostrar que o reino de Deus estava aberto a todos, sem excluir quem quer que fosse.

Fora do pequeno grupo de discípulos e do círculo de simpatizantes, Jesus atingiu, portanto, uma enorme notoriedade na Galileia e nas regiões vizinhas. Não diminuía este acolhimento popular quando Jesus passava de um lugar para outro. Juntavam-se-lhe massas de gente, relativamente grandes. Por isso, muitas vezes as autoridades se espantavam diante dele, perguntando-se o que se lhe devia fazer, pois o consideravam perigoso: “seguiram-no grandes multidões, vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão” (Mt 4,25). As autoridades e outros tentavam difamá-lo e desacreditá-lo.

Jesus não foi bem recebido, por exemplo, pelos seus conterrâneos: “ Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria…?” (Mc 6,3).

Não admira, pois, a pergunta de Jesus aos discípulos: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem? … E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,20).

Arlindo de Magalhães, 27 de Agosto de 2017

O pão essencial

Sieger Koder

Pão e água. Fome e sede. Comprar e vender. Viver ou sobreviver. Partilhar ou (ver) morrer. Tivesse eu que enviar uma mensagem telegráfica de comentário ao que acabámos de escutar e seria algo semelhante a isto que ditaria. Uma vez mais, e como “é costume” nos Domingos deste Tempo dito Comum, é “da vida e à vida”, da sua quotidianidade e simplicidade que a Palavra nos “fala” e para onde nos remete. Palavra de palavras bem conhecidas (por muitas vezes as ouvirmos), mas que sempre nos recordam o essencial. Vejamos se sou capaz de tal “tradução”.

Na primeira leitura, Isaías fala-nos de alimento. Em primeiro lugar, daquele que é essencial e básico à nossa subsistência: da água, que sendo das “nascentes” só pode ser da mais pura e cristalina; do vinho, sinónimo de vida e de alegria para os hebreus e de verdade para os latinos (“in vino veritas”), os mesmos que na referida água, por sua vez, viam a saúde (“in aqua sanitas”, é a segunda parte do mesmo adágio); finalmente, do leite, o “super alimento” por excelência, seja o materno ou “do pacote”, líquido ou em pó… Mas depois Isaías refere uma “outra fome” que nem tais alimentos saciam: a de Deus. Porque “nem só de pão”, há uma “outra fome”, que clama por um “outro alimento”: um “alimento espiritual”, constituído pela Palavra (“Ouvi-me (…) escutai e a vossa alma viverá…”) e fortalecido pela fidelidade, que nos é total e gratuitamente oferecido pelo próprio Deus (ao contrário do outro, o corporal, pelo qual temos que pagar, como o nosso trabalho e dinheiro que dele auferimos). Assim, a “Aliança” que Deus quer estabelecer connosco é, antes de tudo, dom gratuito e total de uma vida plena e feliz; em troca, nenhum dinheiro nem qualquer espécie de despesa; apenas duas palavras e uma atitude: dar graças, e fidelidade.

E, no Evangelho, é o mesmo acento tónico, com mais concretas consequências…

Estamos na presença do conhecido trecho da (primeira) “multiplicação dos pães” (a segunda ocorrerá no capítulo seguinte – Mt 15, 29-39 – onde se referem igualmente um grande número de curas, a fome da multidão, os pães – sete – e “alguns peixinhos”), e todo ele é um relato simbólico: no “local deserto e afastado” vislumbra-se a referência ao Êxodo, e, através desta, à fome e à sede experimentadas pelo povo hebreu na sua travessia… Mas igual e paradoxalmente é ao “maná” do céu enviado por Deus para saciar o Seu povo que o texto aponta: outrora foi Moisés, agora é Jesus quem oferece um novo maná, igualmente reconfortante (ao ponto de os “cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças” terem comido e ficado saciados) e abundante (pois com as sobras se encheram “doze cestos”, símbolo das 12 tribos, ou seja, todo o povo de Israel a quem este “novo maná” se destina). Jesus é, assim, (pelo menos) tão importante como Moisés… mas certamente mais poderoso que Elias (com quem o haveriam, aliás, de confundir – Mt 16, 14) que alimentou mais de 100 e ainda sobrou (1 Rs 4, 44)… Sentado na relva, qual pastor a guardar as suas ovelhas, ele alimenta aqueles que o seguem, e fá-los saborear do descanso em “prados verdejantes” (Sl 23, 2).

Finalmente, repare-se nos seus gestos, todos eles prefigurativos da Eucaristia: Ele chama os discípulos (para o serviço), Ele toma nas suas mãos os pães, abençoa-os, parte-os e entrega-os aos discípulos (futuros “ministros da comunhão”) para que os repartam pela multidão… Até a referência às “mulheres e crianças” parece ser alusão ao carácter familiar que a Eucaristia deve ter, rompendo assim com as “barreiras sociológicas” que então imperavam…

Mas, ao contrário do que comumente se costuma pensar e dizer, creio que é no início do relato que encontramos o “segredo” deste texto. Reparemos que Jesus, apesar de se ter “afastado para um local deserto” (certamente para chorar, em silêncio, a morte de seu primo João Baptista, de que acabara de ter conhecimento), não manda embora quem vai atrás dele. O seu sofrimento era grande, certamente… mas nem isso lhe toldou o olhar e a sensibilidade diante do sofrimento daqueles que d’Ele se abeiram a pedir socorro, a mendigar a cura das suas enfermidades. Uma vez mais, Jesus mostra-nos que, mesmo quando seria “lícito”, ”normal” exigir(mos) dos outros algum isolamento (em razão do sofrimento que nos atinge), este nunca nos deve permitir que “viremos as costas“ aos nossos próximos: não é no isolamento “do alto dos montes” que a verdadeira paz é alcançada; é no partilhar da dor com/do nosso semelhante que a cura (dele e nossa) acontece…

E é tão forte esta comunhão e tão intenso este “processo de cura” que Jesus nem dá pelo tempo a correr. É por isso que os discípulos O interrompem: “Este local é deserto e a hora avançada. Manda embora toda esta gente …” Ou seja: “já é tarde… não temos que comer nem nada para alimentar esta gente toda… é melhor mandá-los embora… e que cada um se arranje…”. Jesus dá-se conta, uma vez mais, de que nem eles perceberam ainda o que tantas vezes lhes tinha já ensinado… por isso responde com dureza: “Dai-lhes vós de comer!” Diante deste “comprar” (em que ecoa também o texto da primeira leitura), Jesus impõe que se “dê de comer”, pois isso sim é o fundamental: não é o dinheiro com que se compram coisas, mas sim a capacidade, a inteligência, a disponibilidade para tudo fazer de modo a que todos tenham direito ao seu “pão de cada dia” o mais importante. À tentativa da “saída limpa” dos discípulos (“cada um que se arranje”) Jesus responde com a exigência da responsabilização individual: “dai-lhes vós de comer”. Porque aonde poderá ir quem anda “cego de fome”? Como poderá encontrar o caminho certo aquele a quem a fome e a sede turvam o olhar e o entendimento? Já diz o povo: “Casa onde não há pão…”

Mas os discípulos, embora anuindo, continuam céticos: só dispõem de cinco pães e dois peixes. Parece-lhes muito pouco… mas para Jesus é suficiente. As “parcelas” do seu “cálculo” são diferentes: contam sempre com a “Graça”, a graça que brota da partilha, fraterna e desinteressada. Porque quando todos partilham do (pouco) que têm, a fome de todos é saciada. Por aqui – melhor o percebemos agora – passa uma das “lições” essenciais do texto: só uma sociedade humana profundamente “eucarística”, em que todos sejam capazes e estejam disponíveis para partilhar do seu pão com os famintos, tornará possíveis as estruturas, os agentes e as ações necessárias à justa e equilibrada repartição de recursos suficientes para todos. É isto que nos ensinam os povos das margens do rio Nagara (Japão), os andinos de Cusco e Puno (Peru), os pastores Masai do Quénia e da Tanzânia, que juntos caçam ou pescam, juntos trabalham, tudo partilham: do que sabem e podem, e do que a Natureza lhes dá e que eles sumamente respeitam; e, certamente por isso, nas suas comunidades ninguém morre à fome.

Não nos equivoquemos: se vivermos “nos altos dos montes” dos nossos desejos e preocupações, de costas voltadas para os que vivem “cá/lá em baixo” no “vale… de lágrimas” da existência, perderemos a nossa identidade cristã; não seremos fiéis a Jesus; a Eucaristia que (semanal ou diariamente) celebrarmos pouco ou nada valerá, pois será inócua, porque insensível ao “sacrifício do mundo” que, quotidianamente, tais vidas entregam no Altar onde vimos (ou deveríamos vir, precisamente) partilhar o pão e o vinho e, neles e através deles, a Vida…

Por isso, o “grande milagre”, hoje como naquele tempo, não será tanto o da “multiplicação”… mas sim o da “conversão”. Falo do milagre da conversão da nossa sensibilidade, que se quer (mais) atenta, (mais) ativa e (mais) proactiva, responsável e responsabilizante, que nos faça disponíveis para a compaixão diante do sofrimento alheio, principalmente daqueles a quem falta o mais básico/elementar: o “pão de cada dia” e a “dignidade inerente a todos os membros da família humana (…) fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo” (in “Preâmbulo” da Declaração Universal dos Direitos do Homem, 1948). “Milagre”, porque grande (enorme!) sim, mas feito de “coisas pequenas”: pequenas e singelas iniciativas, totalmente ao alcance das nossas capacidades e competências, para as quais não precisamos (porque não devemos) “ficar à espera de alguém… lá de cima”. Iniciativas concretas, modestas, parciais, certamente… mas gotas de um oceano que só pelas mãos de todos poderá ser vazado…

Foi (e é) desta “conversão” à “fraternidade (d)e proximidade” que a Igreja se fez (e faz) universal. Foi na partilha (do pão e do vinho, dos gozos e das dores, no e do Caminho) que a Europa se fez nova… E há de ser, necessariamente, na mesma partilha (distribuição e retribuição) justa e solidária que a velha Europa se há-de refazer.

Porque o dinheiro, esse, “já está todo feito” (apenas mal repartido, dizem os Economistas). E o pão, esse, há quanto “chegue e sobre” (a Terra assim no-lo diz, e assim o demonstram os relatórios da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). O que falta então? “Mais flores! Mais flores!”, dizia o poeta… e com razão: que desabrochem novamente as flores da Esperança e da Partilha, da Fé alegre e do Amor operativo, esse tal de que nos fala S. Paulo: o total, o invencível, o pleno, de que nada, “nem a morte nem a vida” nos poderá separar…

É (também) disto que é preciso voltar a “avisar toda a gente”

Luís Leal, 6 de Agosto de 2017

Reagir ao desalento

Reserva das dunas de S. Jacinto

Se fosse necessário resumir numa palavra a mensagem que o Papa Francisco quer transmitir perante os graves problemas de Humanidade, recorreríamos à palavra Esperança. Há futuro porque “o Futuro a Deus pertence”: empenhar-se na consecução de um mundo justo tem sentido, não é uma tarefa inútil. Não vamos sós porque o Senhor que “faz novas todas as coisas” (Apo 21,5) abre-nos o caminho.

O Papa publicou já três documentos que levam no seu título uma mão cheia de esperança: “A alegria do Evangelho” (2013), “Louvado sejas, Senhor” (2015) e “A alegria do Amor” (2016). Cada um deles é um cântico, um poema a agradecer a beleza da vida e o nascer de uma manhã luminosa. Exatamente!, uma mensagem de esperança aos migrantes e refugiados de Lampedusa ou de Lesbos, às vítimas da máfia calabesa em Cassano, aos movimentos populares de Roma ou de Santa Cruz, na Bolívia, às crianças das ruas de Manila, aos desempregados de qualquer país europeu, aos excluídos de Kangemi em Nairobi, … sabe-se lá que mais.

Os problemas do meio ambiente de que temos falado e a sua intrincada relação com a exclusão dos seres humanos podem desalentar-nos. São problemas muito complexos e de dimensões colossais. Sabemos que muitos deles vão ainda perdurar pois que, uma vez postos em marcha, talvez possamos ainda travá-los, mas não detê-los. O alcance destes problemas é global e a nossa contribuição individual será sempre pequena e quase impercetível.

É, portanto, necessário reagir ao desalento. “Há sempre uma saída… poderemos sempre fazer alguma coisa para resolver os problemas” (LS 61). Esta é a nossa experiência, em tantas circunstâncias da vida escondidas na obscuridade. De repente, abre-se a luz e descobre-se uma nova vida.

Aqui e ali começam a aparecer chispas do Reino no meio da escuridão do quotidiano: aqui, Comunidades há que reduzem o seu consumo; ali, cidades e países que reciclam; além, fora com o plástico; escolas em que as crianças aprendem desde pequeninas a valorizar e cuidar do meio ambiente; mercados de produtos de “segunda mão”; reservas naturais com atividades humanas limitadas; tratamento de águas residuais; legislações que protegem o meio ambiente, impedindo a contaminação ou sobre-exploração dos recursos naturais; políticas fiscais que redistribuem a riqueza, combatem a desigualdade e protegem os mais pobres; ordenamentos jurídicos que penalizam o desrespeito pelos direitos humanos; economias ao serviço do bem comum; tecnologias limpas e energias alternativas sem emissões de carbono; e uma melodia suave, quase impercetível ainda, mas que já se ouve, a cantar a necessidade de modos de vida sustentáveis e inclusivos que nos farão mais humanos…

Realmente, o Reino já está a caminho. A toalha no cimo do monte (Is 25,6) começa a estender-se. E, lá, “muitos virão sentar-se à mesa” (Lc 13,29).

Em julho de 2014, faz agora 3 anos, em Caserta, pediram a Francisco: “Papa, dê-nos esperança!”. E ele respondeu: “Esperança não posso dá-la. Mas posso dizer-vos que, onde Jesus estiver, estará esperança. Onde estiver Jesus, os irmãos amam-se, comprometem-se a salvaguardar a sua vida e a sua saúde, e respeitam até o meio ambiente e a natureza”.

“Caminhemos cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança”, diz o Papa Francisco no final da Louvado Sejas!

Entretanto, uma pergunta: Precisamos mesmo de usar palhinhas de plástico? Só nos Estados Unidos, todos os dias são usadas perto de 500 milhões de palhinhas de plástico. E isto é uma estimativa.
 Não são recicladas e acabam em aterros sanitários, nas ruas e na água. Há alternativa? Sim. Uma delas é não as usar (Público de 2017.07.03)

Arlindo de Magalhães, 16 de Julho de 2017

É preciso nascer de novo

Foz d’Egua, Piodão

É preciso nascer de novo! “Não haverá uma nova relação com a natureza sem um homem novo. Não há ecologia sem uma adequada antropologia” (LS 118).

O planeta, as culturas, os povos e cada um de nós necessitamos de transformações profundas. Todos somos parte uns dos outros. Todos perfazemos um todo em que nada do que sucede a um dos membros é indiferente ao conjunto.

E é aqui que começa o diálogo: da natureza com o homem, do planeta com a vida, da humanidade com a natureza, das culturas entre si…

E é aqui que entra o diálogo como forma de encontro. Diálogo entendido não como negócio de interesses, mas como procura do bem comum para todos. “Dialogar não é negociar. Negociar é tentar levar a maior fatia do bolo comum. Mas não é isso que eu quero dizer. Dialogar é procurar o bem comum dividido por todos” (Papa Francisco, 2015, Discurso no 5º Congresso da Igreja italiana).

A própria encíclica Louvado sejas foi publicada em maio de 2015, meio ano antes da realização da C(onferência) das O(nu) em P(aris), em dezembro de 2015, oferecendo assim a sua reflexão pessoal e da Igreja Católica.

Francisco diz que a política honesta busca sem descanso o bem comum, o que é uma das formas mais altas do exercício. “O cuidado e a promoção do bem comum da sociedade competem ao Estado. Este, com base nos princípios de subsidiariedade e solidariedade e com um grande esforço de diálogo político e criação de consensos, desempenha um papel fundamental – que não pode ser delegado – na busca do desenvolvimento integral de todos” (EG 240).

E a política também se degrada quando se abdica em favor da economia, encarregada de defender o bem privado. A economia tem de estar ao serviço da política e não o contrário, a política da economia: “A política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia” (LS 189). A política e a economia podem e devem colaborar para que os bens que pertencem ao conjunto da humanidade cheguem a todos os seus membros.

Se todo o documento — Louvado Sejas — tem o diálogo como uma espécie de pano de fundo, destaca-se em alguns campos.

Primeiro, no âmbito internacional: o meio ambiente é um bem comum que ultrapassa as fronteiras. Veja-se a questão de Almaraz, ao lado do Tejo e a dois passos da fronteira portuguesa. A contaminação pode acontecer num país mas estendendo-se, no entanto, os seus efeitos fora de fronteiras.

Em segundo lugar, diálogo no interior de um país. Aqui contamos com muitas mais ferramentas para um debate público. É a nível local que, muitas vezes, se pode gerar uma diferença na vida das pessoas.

Em terceiro, destaca-se o diálogo entre as religiões na defesa do meio ambiente e dos mais pobres: “A maior parte dos habitantes do planeta declara-se crente, e isto deveria levar as religiões a dialogarem entre si, visando o cuidado da natureza, a defesa dos pobres, a construção duma trama de respeito e de fraternidade” (LS 201).

Finalmente, “é indispensável um diálogo entre as próprias ciências, porque cada uma costuma fechar-se nos limites da sua linguagem, e a especialização tende a converter-se em isolamento e absolutização do próprio saber. Isto impede de enfrentar adequadamente os problemas do meio ambiente”. Torna-se necessário também um diálogo aberto e respeitador dos diferentes movimentos ecologistas, entre os quais não faltam as lutas ideológicas” (LS. 201)

«A gravidade da crise ecológica obriga-nos, a todos, a pensar no bem comum e a prosseguir pelo caminho do diálogo, que requer paciência, ascese e generosidade, lembrando-nos sempre que “a realidade é superior à ideia”» (LS 201).

Claro que não podemos ser ingénuos. Sabemos que o diálogo não é fácil, mas também não é decisivo. Mas é, no entanto, o único meio de que dispomos para, juntos, abordarmos estas questões. Não há outro caminho. A crise sócio-ambiental que enfrentamos exige «paciência, ascese e generosidade, lembrando-nos sempre que “a realidade é superior à ideia”» (LS 201).

O diálogo, acompanhado de respeito e mesmo amizade, é o caminho.

Arlindo de Magalhães, 9 de Julho de 2017

Uma nova humanidade

Estou a chegar ao fim destas breves mas fundamentais reflexões sobre a Ecologia (a oikos + logos, em grego >  sobre o tratado da “nossa casa” que é o planeta). Estou a chegar ao fim, mas tenham paciência que o fim ainda não é hoje.

Li e reli, refleti sobre o texto do Papa Francisco. E tenho de concordar com muitos. O Papa Francisco vê ao longe uma humanidade nova: “Não haverá uma nova relação com a natureza sem um homem novo. Não há ecologia sem uma adequada antropologia” (LS 118). A antropologia (ántropos + logos) é a ciência do que é o homem. Só um homem verdadeiro é capaz de cooperar na consecução de uma ecologia a sério.

“Não haverá uma nova relação com a natureza, sem um ser humano novo. Não há ecologia sem uma adequada antropologia” (LS 118). O desafio requer da nossa parte ”um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade”, tudo novo (LS 111). É preciso “nascer de novo”, como Jesus disse a Nicodemos (Jo 3,4). Uma nova cultura, um novo homem, outra sensibilidade, novos estilos de vida, simplicidade de vida — “a sobriedade vivida livre e conscientemente é libertadora” (LS 223).

“É possível necessitar de pouco e viver muito, sobretudo quando se é capaz de dar espaço a outros prazeres, encontrando satisfação nos encontros fraternos, no serviço, na frutificação dos próprios carismas, na música e na arte, no contacto com a natureza, na oração” (LS 223).

“É necessária uma revolução cultural” (LS 114) que nos explique o que deve ser o desenvolvimento: “Para que apareçam novos modelos de progresso, precisamos de converter o modelo de desenvolvimento global, e isto implica refletir responsavelmente sobre o sentido da economia e dos seus objetivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações. Não é suficiente conciliar, a meio termo, o cuidado da natureza com o ganho financeiro, ou a preservação do meio ambiente com o progresso. Neste campo, os meios-termos são apenas um pequeno adiamento do colapso. Trata-se simplesmente de redefinir o progresso. Um desenvolvimento tecnológico e económico, que não deixa um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmente superior, não se pode considerar progresso” (LS 194).

No início do século XX, houve um grande enfrentamento: “Politique d’abord” (primeiro a Política), depois a Moral e o Direito. Foram necessárias  duas guerras mundiais mas nem isso resolveu a questão. Agora, a luta é outra: agora é a política que tem de se sujeitar à economia. A política está agora a pagar o que ontem negava. Hoje, a economia não tem outro objetivo que não seja o do seu próprio benefício, gerando assim mais pobres e mais pobreza. É hoje necessário gritar e dizer que “não a essa economia da exclusão e da desigualdade social. E essa economia mata” (EG 53).

O Papa está consciente da limitação dos recursos da Terra e da vulnerabilidade dos pobres. Não se trata de que os pobres copiem os ricos. Mas “chegou a hora de aceitar um certo decréscimo do consumo nalgumas partes do mundo, fornecendo recursos para que se possa crescer de forma saudável noutras partes” (LS 193).

Claro que na boca de muita gente e em muitos lados, a crítica não se fez esperar. Está maluco, o Papa! Como se pode repartir pelos pobres a riqueza dos ricos? Está maluco! … mas malucos estão os ricos e poderosos. Diziam-nos os mais pequeninos, há 15 dias, que a pobre viúva é que tinha razão, não os homens de muitas moedas!

Para aumentar o seu Património, podem os ricos querer esmagar os pobres?

Efetivamente precisamos de uma revolução cultural, de uma redefinição global das nossas sociedades e dos nós próprios!

É preciso nascer de novo! Seremos capazes?

Arlindo de Magalhães, 25 de Junho de 2017

Ecologia integral

Santa Maria, Açores (foto de Manuel Ferreira)

“Não haverá vida para os pobres num ambiente degradado; e não protegeremos o ambiente se nos esquecermos dos excluídos”. Assim acabei a homilia anterior. Esta dupla problemática — os pobres e um ambiente degradado — é um tremendo desafio. Não basta boa vontade para lhe respondermos.

Por isso, o Papa Francisco propõe um conceito novo: ecologia integral, isto é, o cuidado de tudo o que é vida, na multiplicidade das suas formas. A ecologia integral não consiste só e unicamente na defesa da natureza mas na proteção de tudo o que é vida, incluindo a humana, sobretudo onde se encontra em perigo.

A palavra ecologia (oikos + logos > tratado da casa) até há pouco tempo referia-se apenas à vida da natureza: que era necessário proteger os espaços naturais, lugares de beleza e harmonia, defender as espécies animais e vegetais, respeitar a água… Entendida desta maneira o que seja a ecologia, temos de dizer que já há muitos anos há muitas organizações a trabalhar na defesa do ambiente.

Entretanto, a seu tempo, João Paulo II falou já numa “ecologia humana”: “Além da destruição do ambiente natural, é de recordar outra ainda mais grave, a do ambiente humano, a que estamos ainda longe de prestar uma necessária atenção” (Centesimus annus 38).

Francisco dá agora um passo em frente: “Não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos” (LS 91).

Portanto, a ecologia integral acrescenta à ecologia da natureza uma sólida preocupação pela vida humana, pelo bem comum, que exige respeito pelos direitos inalienáveis de cada ser humano e pelo tecido social (pessoas e instituições que garantem o ordenamento social e político). O bem comum está, portanto, acima de legítimos interesses particulares quando estes atentam contra os direitos dos outros seres humanos.

O bem comum apela à solidariedade e reclama a opção preferencial pelos mais pobres: “Nas condições atuais da sociedade mundial, onde há tantas desigualdades e são cada vez mais numerosas as pessoas postas de lado, privadas dos direitos humanos fundamentais, o princípio do bem comum torna-se imediatamente, como consequência lógica e inevitável, um apelo à solidariedade e uma opção preferencial pelos mais pobres” (LS 158).

Esta ecologia integral não pode esquecer a justiça entre gerações: temos a obrigação de deixar aos que viverão depois de nós um planeta em que eles possam viver e desenvolver-se como seres humanos em plenitude. Os nossos direitos não estão por cima dos deles.

Estendeu ainda mais o conceito de ecologia integral o Papa Francisco, lembrando a proteção das culturas num tempo em que assistimos a uma globalização cultural que está a pôr em risco numerosas, ricas e diferentes culturas humanas. Uma autêntica ecologia tem de respeitar estas formas culturais que carregam uma sabedoria e uma riqueza que remontam a sociedades anteriores à nossa, em que havia um conhecimento profundo do significado do ser humano.

Uma ecologia integral aponta também uma “vida boa”, isto é, digna de ser vivida e profundamente humana. Para isso, nós temos que conviver em harmonia com os mais seres humanos e com as demais realidades, ajudando-as a crescer.

O Pai, criador da vida, convida-nos a gozá-la — a “vida boa” — e a celebrá-la, a descobri-la, a admirá-la, a cultivá-la e a respeitá-la, tornando-se cada um de nós mais humano no processo. Esta é, sim, uma ecologia integral.

Arlindo de Magalhães, 4 de Junho de 2017

A água

Batistério de Mértola

Meus irmãos:

Na Liturgia cristã, o que é primeiro ou mais: o pão ou a água?

Claro que é a água: o pão alimenta, mas sem água não há vida.

Não há vida, dizem-no a ciência e os cientistas, mas não só. Francisco põe um exemplo:

“A água potável e limpa constitui uma questão de primordial importância, porque é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos. …. A pobreza da água pública verifica-se especialmente na África, onde grandes setores da população não têm acesso a água potável segura, ou sofrem secas que tornam difícil a produção de alimento. Nalguns países, há regiões com abundância de água, enquanto outras sofrem de grave escassez“.

Tão importante é a água que, mesmo no sacramento, antes do pão com os Apóstolos, a água com a samaritana.

A Escritura está cheia de água: ela “jorrará até no deserto” (Is 35,6); “Vinde beber desta água, … vós mesmos que não tendes dinheiro [para a comprar]” (55,1).

“Vós, batizados, — agora é Paulo que fala — morrestes ou morreis como Cristo. Ele morreu e foi enterrado na terra; vós sois enterrados como ele, mas na água; ressuscitareis depois da água tal como ele ressuscitou do sepulcro” (Rm 6,4).

Representar isto? No cristianismo primitivo, havia uma piscina (batismal): o batizando entrava na água dum lado e morria nela; mas saía do outro lado, ressuscitado homem novo. É só ir a Monforte (Palma), a Idanha ou a Mértola…, ou mesmo a Conímbriga (este batistério já não é bem, bem assim)…

S. Pedro dizia isto doutra maneira, não da mesma, claro: “O Pai do Senhor Jesus Cristo gerou-nos de novo para uma esperança viva! Aconteceu o mesmo que com a ressurreição de Jesus” (1 Pe 1, 3-6).

Vamos então ao sinal da água. O do pão virá depois, a seu tempo.

Arlindo de Magalhães, 21 de Maio de 2017

Um grito de dor

São Pedro da Cova

A Terra é um precioso bem que nos foi confiado; mas nós apropriamo-nos dela, violentámo-la e maltratámo-la. Vindo das suas entranhas, surge um grito de dor que nos interpela: mas, desde que apareceu, o homem alterou sempre o meio ambiente. O pior foi quando, no Tempo neolítico (que começou uns 10.000 anos aC com a agricultura e acabou uns 7.000 também aC com a escrita e os metais): foi então que os nossos antepassados começaram a queimar florestas para conseguirem campos e vales férteis, conquistando espaços virgens e aumentando a densidade populacional. Isto manteve-se durante muitos séculos.

 Com o surgir da segunda revolução industrial, no séc. XVIII, tudo se acelerou. A população humana aumentou, desencadeou-se um progresso material sem precedentes, é verdade, mas ao mesmo tempo destruiu-se por todo o lado o meio ambiente.

Por isso, o Papa Francisco, e não só ele, tem falado com frequência dos males a que, atualmente, está sujeita a Terra, a nossa “casa comum”. E tem pedido que “a ciência e a religião, que fornecem diferentes abordagens da realidade, possam entrar num diálogo intenso e frutuoso para ambas” (LS 62).

Dentre os numerosos danos e riscos que hoje mais castigam a Terra escolheu Francisco os quatro que melhor exprimem o conjunto dos seus males.

O primeiro é a contaminação dos despejos dos novos processos produtivos. A natureza reutilizava tudo, ervas e folhas, ramos e fezes dos animais, fruta espalhada pelo chão e animais que se comiam uns aos outros… Mas controlar hoje sobretudo os despejos industriais ou manter a reutilização de antigos processos dá muito mais trabalho que ir ao Continente comprar um saco de adubo. A prejudicar a natureza, a fábrica despeja tudo para o rio que passa perto! Vão ver, de Guimarães a Famalicão, do Pevidém a não sei quê: passem pelos rios Ave e Vizela, e vejam o lixo da indústria têxtil! Ou então, vão a S. Pedro da Cova ver o que puseram dentro das minas abandonadas!

Em segundo lugar, o aquecimento climático: “Há um consenso científico muito consistente que indica que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático” (LS 23). A causa deste “preocupante aquecimento” está na maneira como o homem tem tratado a natureza. O atual modelo de desenvolvimento baseado na produção de energia a partir de combustíveis fósseis e da desflorestação é o grande causador do aquecimento do planeta, consequência da emissão de gazes que o provocam.

O terceiro prejuízo é a perda da biodiversidade, isto é, a extinção de muitas e muitas espécies de animais e plantas, causada pela  deterioração dos ecossistemas. Um ecossistema é uma área formada por um meio natural e pela comunidade de organismos animais e vegetais que o habitam. Se um ecossistema é atacado… Eu dou um exemplo: as cerejas ali de Cinfães – Resende – Penajóia são muito boas: mas, se se põe ali uma fábrica, os seus fumos, estradas, camiões pra trás e prá frente, lixos sólidos e líquidos, adeus cerejas! Pode também atacar-se a interconexão das espécies. Eu tenho um amigo que é “filho do asfalto e do cimento armado”: gostava muito de galinhas pica-no-chão…; então, fez-lhes uma gaiola muito bonita, de cimento, etc.; mas as galinhas não tinham bichinhos para picar-no-chão e morriam-lhe todas e ele não sabia porquê!… Os ataques feitos à interconexão das espécies, dizia eu, espécies tiradas dos seus ambientes próprios (um animal que vive no gelo glaciar não pode ser levado para o quente deserto africano), matam as plantas e os animais que equilibravam o ecossistema, etc., etc.

Em quarto lugar, a água, a irmã água. Não apenas a água da garrafinha! Fala-se aqui da água em geral, da água que há cada vez menos, em quantidade e que, muitas vezes e em muitos lugares, é nenhuma. A primeira vez que ouvi dizer que em África há lugares onde é necessário caminhar um dia — 24 horas !!! — para colher um pequeno cântaro de água potável…!!! A água potável e limpa é indispensável não só para beber, mas também para os ecossistemas terrestres e as zonas aquáticas. A sua corrupção gera doenças e mete na cadeia substâncias alimentares nocivas.

Todos estes prejuízos — o lixo, o aquecimento, a perda da biodiversidade e a falta ou corrupção da água — afetam, dia após dia, a vida na terra, no seu conjunto, e, de modo particular, os seres vivos mais indefesos. Dentro destes seres vivos contam-se também os pobres!

O Papa Francisco não se limita a denunciar os sintomas do prejuízo que estão a crescer no planeta Terra, e a matá-la. Acrescenta que “Os recursos da terra estão a ser depredados também por causa das formas imediatistas de entender a economia e a atividade comercial e produtiva” (LS 32).

A ambição económica que protege quase sempre apenas os interesses particulares prejudica com frequência o interesse comum. Por isso, o Papa Francisco é por vezes duro no que diz: «qualquer realidade que seja frágil, o meio ambiente por exemplo, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta» (LS 56).

“A economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas para o ser humano. A finança sufoca a economia real. Não se aprendeu a lição da crise financeira mundial e só muito lentamente se aprende a lição da deterioração ambiental… [Por isso é que] as raízes mais profundas dos desequilíbrios atuais … têm a ver com a orientação, os fins, o sentido e o contexto social do crescimento tecnológico e económico” (LS 109).

Numa última palavra!: existe um pensar segundo o qual se pode dar cabo do ambiente, pode-se fazer tudo, não faz mal nenhum! Isso é o que pensa o desenvolvimento puramente consumista e insustentável, que utiliza a técnica e a ciência para impor o domínio dos poderosos, degradando praticamente tudo, excetuando algumas coisas, é verdade, mas só em utilidade lucrativa.

No meio desta confusão, deste barulho, de toda esta sujidade, de toda esta exploração do homem rico ao homem pobre, se levantam os gemidos da terra e dos pobres.

E é necessário ouvi-los.

Arlindo de Magalhães, 14 de Maio de 2017

A bondade e perfeição

A encíclica Louvado sejas diz, logo no princípio, que a terra é “como uma irmã… como uma boa mãe” (LS 1) no âmbito das relações familiares. Assim como pessoas diferentes em tudo compõem uma família, assim o universo: tudo e todos “estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal” (LS 89).

O relato da criação do Génesis — que montámos aqui na Vigília Pascal deste ano — insiste na nossa origem comum. O laço de fraternidade que nos abraça não envolve só a humanidade; envolve tudo o que foi criado, toda a Criação.

Esse relato do Génesis não é uma teoria. “Tudo está relacionado. E todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra” (LS 92).

Esta afirmação está presente, digamos, em todo o texto da encíclica e pode ser interpretada como um dos eixos de compreensão da mesma, assim como uma premissa a partir da qual se tiram consequências necessárias ao nosso “bem viver”.

Isto tem de ser levado a sério. Trata-se, de facto, de um dado sólido avalizado pela ciência. Nos mais diversos campos, a comunidade científica afirma hoje que a origem do universo remonta a um momento único, o Big Bang, acontecido há 13.800 milhões de anos. Diz também a comunidade científica que a vida apareceu na Terra há 4.000 milhões de anos e que as diversas espécies — vegetais e animais — surgem por diferenciações progressivas mas a partir de troncos comuns. Poderíamos — mas eu não sou cientista — continuar a referir aqui numerosas certezas semelhantes a estas duas, sustentadas pela ciência.

A isto chegou ou chega a ciência. Mas os místicos, — sim, os místicos! —, por sua vez, conseguem um olhar penetrante sobre a realidade que, com frequência, lhes permite chegar a uma verdade profunda sem recorrer a longos raciocínios e estudos. A fé permite-lhes chegar muito mais para lá do mundo visível e ver com muito mais clareza.

Para S. Francisco de Assis, por exemplo, “qualquer criatura era para ele uma irmã, unida a ele por laços de carinho. Por isso, sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe” (LS 11).

São Boaventura, seu discípulo, contava que, “enchendo-se da maior ternura ao considerar a origem comum de todas as coisas, dava a todas as criaturas – por mais desprezíveis que parecessem – o doce nome de irmãos e irmãs” (LS 11).

A ser assim, se tudo está conectado, então todas as realidades têm sentido e valor, cada uma é como é, sempre diferente das mais, mas sempre parte de um conjunto. Nada é demais, nada é avarento, nada é mesquinho. Cada coisa tem a sua bondade e a sua perfeição.

Por outro lado, a degradação de qualquer realidade ou a sua decomposição em unidades de menor complexidade empobrece o universo. Nada é supérfluo. O Evangelho regista uma palavra de Jesus: “Não se vendem cinco passaritos por duas moedas? Pois bem! Mas Deus não se esquece de nenhum deles“ (Lc 12,6).

Cada realidade do cosmos tem o seu significado e a sua função e possui dignidade.

Daí se concluiu o erro de um “antropocentrismo despótico” desentendido das demais criaturas; isto é, o ántropos> homem, colocado no meio do mundo, pode fazer tudo o que lhe apetece. Não, não pode: “O fim último das restantes criaturas não somos nós (os homens). Mas todas avançam, juntamente connosco e através de nós, para a meta comum, que é Deus” (LS 83). Daí que, quanto mais frágil seja uma coisa criada por Deus, maior deva ser o cuidado a ter com ela. Como dizia já o Livro do Deuteronómio: “Se encontrares no caminho, em cima de uma árvore ou no chão, um ninho de pardais com filhotes ou com a mãe a chocar os ovos, não apanharás nem a pardala nem a ninhada” (Dt 22,6).

Isto possibilitará até uma melhor defesa do valor de cada ser humano também criado por Deus e feito à sua imagem e semelhança.

Sermos parte desta grande família, mas a nossa autonomia sobre ela não é absoluta. Não podemos “considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e nela nos compenetramos”.

É por isso que “O conjunto do universo, com as suas múltiplas relações, mostra melhor a riqueza inesgotável de Deus” (LS 86).

Arlindo de Magalhães, 23 de Abril de 2017

Humanidade

Safet Zec

Tudo começou em 1971, quando Paulo VI, na Carta Apostólica Octogesima Adveniens, escreveu assim: “Por causa da exploração inconsiderada da natureza, o homem começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser também vítima dessa degradação”. Isto é: a continuar a tratar assim a natureza, o homem atual pode começar a dar cabo de si próprio; e não precisa para tal de bombas atómicas, que as há.

Na Encíclica Louvado sejas, o Papa Francisco escreveu: “Todas as comunidades cristãs têm um papel importante a desempenhar na educação para a responsabilidade ambiental” (214). Um pouco adiante, acrescentou: ”Deus criou o mundo, inscrevendo nele uma ordem e um dinamismo que o ser humano não tem o direito de ignorar” (221).

Mas, no mínimo, o que está a acontecer é que “A terra, a nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo” (21).

Um dia destes (2017.03.28), o jornal que leio diariamente publicava um trabalho a duas páginas, com este título, em parangonas: “Corais estão a morrer e a culpa é nossa”.

Não vou agora explicar, mas…

Sabemos todos o que são corais: pequeníssimos animais coloniais que amontoados formam verdadeiros rochedos e vivem nos mares quentes, a uma profundidade razoável…, aqui ao lado, em Aveiro, por exemplo. Estes bichinhos são muito antigos no planeta: 400 milhões de anos!. E vivem, a certas temperaturas, no meio de algas que lhes dão belíssimos coloridos. Mas, se a temperatura das águas sobe, eles perdem a coloração, ficam brancos e morrem. Ficam sem acesso a nutrientes. É o que está a acontecer de há 80 anos para cá.

E que mal tem isso?

Tem que “Um mundo sem recifes de coral é um mundo em que a extinção humana [— o desaparecimento do homem —] neste planeta está cada vez mais próxima. Mas ainda vamos a tempo de nos salvar, começando por salvar os recifes de coral!” – diz o autor do artigo.

Quando li esta ameaça — “Um mundo sem recifes de coral é um mundo em que a extinção humana neste planeta está cada vez mais próxima” — andava o Pe Anselmo Borges a publicar num outro jornal umas curiosíssimas páginas sobre Transhumanismo e Pós-humanismo.

Que raio de palavras são estas?

Humanismo tem a ver com o homem; trans é uma preposição latina que significa “além de”: Transporte é o metro do Porto ou a camioneta do Vinhas que “levam para …”, isto é, transportam para um sítio diferente daquele em que se está quaisquer bens ou pessoas. Transhumanismo é, portanto, um entendimento do mundo e do homem muito diferente do humanismo que conhecemos e em que vivemos — sabe Deus como! —, que nasceu pelos séculos XV e XVI e veio até ao nosso tempo.

Pós-humanismo (depois do humanismo) é algo que está para além do humanismo tal como o entendemos hoje. Vou dar um exemplo: no nosso mundo ou em certos mundos, o dinheiro é, quase sempre, muito mais importante que o homem. Mas o verdadeiro humanismo entende que no centro do mundo deve estar o homem e não o dinheiro! Ponto final.

O transhumanismo apresenta-se como o fruto da terceira revolução industrial (a 1ª aconteceu entre o séc. XV e o XVIII; a 2ª, de meados do séc. XVIII até ao nosso tempo; a 3ª está a começar: desaparecerá o homo sapiens). “Os futuros senhores da Terra serão, provavelmente, mais diferentes de nós do que nós o somos dos nossos antepassados”. Com a engenharia genética, produziremos porcos com gorduras boas, será possível criar ratos verdes e fluorescentes e superinteligentes. E se isso é verdade, “porque não fazer seres humanos também superinteligentes?”. O mais revolucionário será a possibilidade de ligar um computador a um cérebro humano, captando sinais do cérebro de outrem.

Novas tecnologias permitem pensar que, em breve, transformar e melhorar a espécie humana deixou de ser ficção. Uma investigadora destas ciências diz assim: “Pode ser que pela primeira vez o homem seja capaz de mudar o seu próprio código genético e a longo prazo concretizar o sonho de melhorar a nossa espécie. Não vamos ser imortais, mas poderemos ser super-homens”.

E haverá depois os robots a substituir os humanos em funções de trabalho. Se forem robots ao serviço unicamente do homem…!

Tudo isto modificará muita coisa. O Parlamento Europeu já estuda um estatuto legal para os conter.

Tenho consciência de que isto que acabo de dizer provoca hoje a mesma reação que se levantou no século XIX quando Júlio Verne (1828-1905) escreveu  romances como “Da Terra à Lua” ou “Paris no séc. XX”. Muitos se riram dele, mas ele tinha razão.

Com o Transhumanismo e o Pós-humanismo surgirão graves problemas filosóficos, éticos, políticos e religiosos. Porque:

«A fé permite-nos interpretar o significado e a beleza misteriosa do que acontece. A liberdade humana pode prestar a sua contribuição inteligente para uma evolução positiva, como pode também acrescentar novos males, novas causas de sofrimento e verdadeiros atrasos. Isto dá lugar à apaixonante e dramática história humana, capaz de transformar-se num desabrochamento de libertação, engrandecimento, salvação e amor, ou, pelo contrário, num percurso de declínio e mútua destruição. Por isso, a Igreja, com a sua ação, procura não só lembrar o dever de cuidar da natureza mas também e «sobretudo proteger o homem da destruição de si mesmo» (79).

E «todas as comunidades cristãs têm um papel importante a desempenhar nesta educação. Espero também que, nos nossos Seminários e Casas Religiosas de Formação, se eduque para uma austeridade responsável, a grata contemplação do mundo, o cuidado da fragilidade dos pobres e do meio ambiente. Tendo em conta o muito que está em jogo, do mesmo modo que são necessárias instituições dotadas de poder para punir os danos ambientais, também nós precisamos de nos controlar e educar uns aos outros» (214).

É por isso que, neste dia de Páscoa, repito o que já disse aqui muitas vezes: respondendo ao apelo do Papa Francisco, continuaremos a debruçar-nos sobre este tema com a atitude com que o Papa começou esta encíclica: ”Louvado sejas, Senhor!”.

Arlindo de Magalhães, 16 de Abril de 2017

 

As celebrações do Tríduo Pascal

Georg Baselitz, ‘Kreuz mit Herbstastern’, 1963

1º dia do Tríduo – O Senhor Crucificado

Celebração da Ceia do Senhor (5ª feira, às 21H30)

A celebração do 1º dia do «Tríduo Santíssimo do Senhor Crucificado, Sepultado e Ressuscitado» — assim se exprimia Sto. Agostinho — começa com a celebração da «Ceia do Senhor», em tarde (ou noite) de 5ª feira.

Nela se faz memória da Ceia Pascal de Jesus com os Discípulos, da entrega do Mandamento Novo (sublinhada com o gesto do lava-pés), da advertência à atitude cristã do serviço e da instituição da Eucaristia.

Fazemos anteceder esta celebração de um ritual que nos põe em sintonia com a Páscoa da Antiga Aliança, etapa histórica importantíssima da Páscoa Cristã. É a História da Salvação resumida numa Ceia que reúne os Irmãos em Alegria e Sobriedade, apressadamente, pois que é necessário iniciar a celebração do Tríduo.

 

Como fazer a Ceia?

É necessário começar pontualmente às 20H45. Cada um trará, por si ou por outrem, só a quantidade de alimentos que comer; tudo o que sobrar será queimado. Que alimentos? Apenas frango assado (ou cozido, se for caso de dieta) e ervas (saladas verdes ou hortaliças cozidas). A Comunidade porá à disposição pão, vinho e água. Não se permitirá a entrada na mesa de mais nada.

A refeição terá de ser comida apressadamente: as pessoas vêm do trabalho e vão para a celebração, que é preciso preparar. Por isso, às 21H15 tem de estar a ‘comida’ terminada. Esta refeição não é propriamente de festa: um ambiente de certo recolhimento deve ser criado.

 

Celebração da Morte do Senhor (6ª feira, às 21H30)

A segunda celebração do Tríduo faz ainda parte do 1º dia do Tríduo: é a celebração da Morte do Senhor, que, segundo o relato evangélico, ocorreu por volta das três da tarde. Assim, esta celebração deveria ocorrer por essa hora. Só o facto de grande parte da Comunidade estar então a trabalhar nos obriga a deslocá-la para a noite.

Há alguns anos que, entre nós, esta celebração é antecedida de uma refeição de jejum de pão, água e uma maçã, na consonância com a Morte do Senhor (às 21H00).

O jejum visa a disponibilização do espírito para Deus e a recolha de bens a partilhar com os irmãos que deles necessitam e que, nos dias que correm, não são poucos. Assim, no fim da refeição, far-se-á a coleta, que será integralmente entregue ao Serviço da Partilha Fraterna. E cada um trará um pouco de pão. A água pô-la-á a Comunidade.

 

 

2º dia do Tríduo  – O Senhor sepultado

O Sábado do Tríduo ficou sempre um dia sem Liturgia; desde a mais remota antiguidade que é um dia de silêncio e jejum, de profunda reflexão nas igrejas.

 

 

3º dia do Tríduo, o 1º da semana – O Senhor ressuscitado

  1. Celebração da Vigília Pascal (Sábado, às 21H30)

A celebração deste último dia do Tríduo começa com a Vigília Pascal, que, no princípio, se iniciava por alturas do pôr-do-sol e durava toda a noite.

Esta celebração é, por assim dizer, uma celebração quádrupla: da Luz, da Palavra, da Água (batismal) e da Eucaristia.

Terminada a grande celebração da Vigília, juntar-nos-emos em convívio alegre à volta da mesa, traduzindo assim a alegria da Ressurreição. Este convívio terá uma «cor» completamente diferente da Ceia de 5ª feira e, por maioria de razão, da refeição de 6ª. Pensamos numa reunião fraterna e alegre à volta da Mesa Comum onde, alta noite e depois de uma longa celebração, possamos «petiscar» qualquer coisa, «beber um copo» ou mesmo aquecer com um caldo verde ou um chá, do que o cuidado fraterno for capaz. No caldo e no chá, os serviços da comunidade pensarão, sendo possível; tudo o mais estará ao cuidado de cada um.

 

  1. Celebração do Dia (Domingo, às 11H00)

Esta celebração seria uma evidente duplicação para quem celebrou a Vigília até alta madrugada: mas, de facto, alguns irmãos não poderão estar na celebração noturna.

Tríduo Pascal

Trifólio, tridente, trienal, tricampeonato, tem tudo a ver com tri (latim); tríduo deriva do latim tri+dies (três dias). Mas, afinal, o Tríduo Pascal tem quatro dias: 5ª, 6ª, Sábado e domingo (de Páscoa), tudo dias “santos” (5ª feira santa, 6ª feira santa, etc.), são quatro dias, e não três?

Explique-se. De facto, o Tríduo Pascal são três dias. Vamos lá ver.

Antigamente, não havia relógios a não ser “de sol”: só trabalhavam quando havia sol. Mesmo assim…

Mas, antigamente ainda, os dias começavam e acabavam sempre com o pôr-do-sol, não à meia-noite; era aí, ao pôr-do-sol, que começava um dia e acabava outro. No fim da tarde (que no Verão era muito tarde e no Inverno muito cedo), acabava um dia e começava outro.

Sendo assim, no pôr-do-sol da nossa 5ª feira começou a 6ª feira antiga, que durou até ao pôr do dia seguinte. Foi o primeiro dia do tríduo.

No pôr-do-sol seguinte, acabava a 6ª feira e começava o Sábado, que terminava no pôr-do-sol do segundo dia do tríduo.

E começava então o terceiro dia do tríduo, aquele em que Jesus ressuscitou, “o primeiro dia da semana”.

Três dias, portanto. No primeiro, recordava-se a Páscoa judaica que Jesus celebrou com os discípulos: aí o Mandamento Novo e o lava-pés, bem como a sua morte (à hora no[n]a dos antigos, 15 horas para nós, antes, portanto, do pôr-do-sol). Mas ainda no primeiro dia — “estava mesmo a começar o Sábado” (Lc 23,54) — o cadáver foi sepultado (Lc 23,53). Tudo no “primeiro dia”. Ainda tiveram tempo, as mulheres, de preparar aromas e perfumes para, depois do Sábado, que era o dia sagrado dos judeus, irem ungir o cadáver como costumavam fazer os mesmos judeus.

No segundo, nada!, portanto, silêncio absoluto! O Senhor está morto, sepultado. E “durante o Sábado observaram o descanso, conforme o preceito” (Lc 23,56).

No terceiro, isto é, “no primeiro dia da semana, ao romper da alva, as mulheres foram ao sepulcro e levavam os perfumes que tinham preparado…” (Lc 24,1). Encontraram a pedra do túmulo removida, Ressuscitou! Não está aqui! Aleluia!, aleluia! E foi o terceiro dia!

Resumindo. No primeiro: da ceia ao sepulcro; no segundo: um silêncio sepulcral!; terceiro: aleluia! aleluia!, ressuscitou!

Nós sabemos que os primeiros cristãos desde aquele dia passaram a celebrar em todos “os primeiros dias da semana” a ressurreição de Jesus. Foram os judeus que criaram a semana (não vamos aqui falar disso hoje) com os seus sete dias, sendo o Sábado o último. Jesus ressuscitou num “primeiro dia”.

 Mas  sabemos que, pelo menos nos meados do séc. II, os primeiros cristãos, pelo menos os de Roma, já celebravam uma Páscoa anual. Como é que não. É claro que nestes tempos primeiros — não havia nem missais nem tabletes — as igrejas não eram conformes na Liturgia. Ela, de resto, estava ainda a criar-se.

Aconteceu entretanto que, no séc. IV, uma mulher aqui de cima, da Galiza, Egéria ou Etéria, resolveu ir a Jerusalém em peregrinação. E quando lá chegou… encontrou uma maneira, digamos, teatral de celebrar a Páscoa. Teve Etéria o bom senso de apontar tudo no seu Itinerarium, como é que lá se celebrava a Páscoa.

Naquele Lugar Santo, nos ipsissima loca [nos mesmíssimos lugares] da Paixão e Morte de Jesus, recordavam-se, a par e passo e nos exatos sítios onde se haviam desenrolado, os episódios vários da Paixão e Morte do Senhor. Era um verdadeiro drama revivido liturgicamente num Triduum Sacratissimum Crucifixi, Sepulti et Ressuscitati (tríduo sacratíssimo do crucificado, sepultado e ressuscitado), na expressão de Santo Agostinho.

Tudo se fazia segundo a contagem antiga do tempo: o dia iniciava-se com o pôr-do-sol do dia anterior.

  1. Assim sendo, o Tríduo Pascal começava com a Cœna Domini (a Ceia do Senhor). Nesta celebração, os cristãos celebravam a Última Ceia de Jesus com os Discípulos, como mandava o Antigo Testamento (Ex 12). Mas foi aí que Jesus lhes lavou os pés e entregou o Mandamento Novo (Jo 13,1-11 e 33-35).

Para além desta, não havia, de início, qualquer outra celebração nos dois primeiros dias do Tríduo. Eram para a Igreja dias de jejum e silêncio rigoroso.

Entretanto, surgiria, também em Jerusalém, no final desse primeiro dia do Tríduo (ainda 6ª feira, donde a Sexta Feira Maior), uma segunda celebração, esta da Morte do Senhor, que, no entanto, nunca foi eucarística e sempre teve um acento fortemente episódico. Recomendava-se, por isso, às três horas ou cinco da tarde, antes do pôr-do-sol. Nós passámo-la para a noite, que é um dia de trabalho.

Esta liturgia conserva o esquema das antigas reuniões de oração sem celebração da Eucaristia: Liturgia da Palavra, Preces ou Oração Universal, Serviço de comunhão.

Entretanto, pelo século VII, vindo do Oriente, também de Jerusalém, introduziu-se-lhe o rito da veneração da Cruz. No início, naquela cidade, tratava-se mesmo de uma relíquia da verdadeira Cruz (?). Depois, pouco a pouco, este rito foi-se espalhando por todo o mundo cristão, feito não já com uma relíquia autêntica mas com um crucifixo.

  1. O Sábado, o segundo dia do Tríduo ficou sempre sem Liturgia própria: é desde a mais remota Antiguidade um dia alitúrgico, de silêncio e jejum, de profunda reflexão nas Igrejas e preparação da Liturgia da noite.
  2. No terceiro dia, “terminado o Sábado, ao romper do primeiro dia da semana” (Mt 28,1), a Ressurreição. Começava com uma Grande Noite: “4 em 1”!

Celebração da LUZ

Celebração da PALAVRA

Celebração da ÁGUA (Batismo)

Celebração da EUCARISTIA

Noite de toda a alegria, nos bons velhos tempos, a celebração da Vigília era sempre seguida de um ágape (refeição comum, fraterna) que rompia o jejum quaresmal e abria o Tempo Pascal da grande alegria.

Arlindo de Magalhães, 2 de Abril de 2017

O primeiro dia da semana

Rupnik, Resurrection of Christ | College of St. Stanislaus Ljubljana

Paramos a encíclica Louvado sejas do Papa Francisco, que temos o Tríduo Pascal à porta.

Sabemos todos — de Marcos a João — que foi no primeiro dia da semana que ele ressuscitou: “Terminado o sábado, ao romper do primeiro dia da semana… o anjo disse-lhes… Não está aqui. Ressuscitou!” (Mt 28,1). “De manhã, ao nascer do sol, muito cedo, no primeiro dia da semana, … um anjo disse-lhes: Ressuscitou!” (Mc 16,2). “No primeiro dia da semana, ao romper da alva… Não está aqui, ressusctou!” (Lc 24, 1). “No primeiro dia da semana…  logo de manhã, ainda escuro… e Maria Madalena, a correr…” (Jo 20,1).

De facto, tanto “primeiro dia da semana”! Mas há mais.

“Oito dias depois” (Jo 20,26), portanto, noutro primeiro dia da semana; “Tendo ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana”, insiste Marcos (16,9). Os Atos contam que “no primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o pão…” (20,7).

A importante importância do primeiro dia da semana!

“No primeiro dia da semana…” dirige-se Paulo aos de Corinto (1Cor 16,2).

Só o Apocalipse (1,10) refere o primeiro dia da semana utilizando uma expressão diferente: “No dia senhorial…”, isto é, no dia do Senhor… dies domini > dies dominialis > domingalis > chegamos ao domingo.

“Tendo ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana”, “dia do Senhor”, “estávamos nós reunidos para partir o pão”.

Que faziam então os cristãos no primeiro dia de semana? Atenção que nenhum destes textos que utilizámos tinha mais de 50/60 anos! Quer dizer que, muito antes do fim do séc. I, já os primeiros cristãos faziam o que Jesus lhes tinha dito — “Fazei isto em memória de mim” (Jesus só lhes disse que fizessem “isto”, não no “primeiro dia da semana”; isso resolveram-no eles), — no primeiro dia da semana, dia da Ressurreição. Era no primeiro dia da semana, no dia da Ressurreição, que os primeiros cristãos respondiam ao “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19).

56 “primeiros dias da semana” por ano a celebrar a Ressurreição do Senhor!

E se, uma vez por ano, “fizéssemos o nosso melhor”?, uma festa especial e  maior da Ressurreição do Senhor?!

Pois é isso que vamos fazer! O nosso melhor. Nem preto nem roxo, branco! Mas quando?

Branco só na Primavera: há malmequeres, jarros, gardénias, rosas, azáleas, camélias, cravos, crisântemos, flor de sabugueiro, gipsofila, mas tudo branco, jacintos,  jasmins, lírios, dálias, flor de laranjeira, sei lá que mais, tudo branco, até os paramentos, porque o Senhor ressuscitou, aleluia! aleluia!; venha a água, pois sem ela não há vida; fora com a cinza, cantar e dançar, alegria; depois do Inverno duro e frio, a Primavera suave e luminosa, as religiões escolhem todas! o sol, venha o sol; o pão sem fermento, pão novo, o da primeira colheita, o renascimento da Primavera; cantemos…

Este foi o raciocíno dos nossos pais, dos primeiros seguidores de Jesus.

A festa da Primavera, originária da Caldeia, aquela rica região do delta dos rios Tigre e Eufrates, terra de grandes culturas, todos os anos se celebrava, no ciclo cósmico da Natureza; era a festa da Novidade. Introduzida na cultura judaica, era já celebrada no exílio do Egito: ofereciam-se a Iavé as primícias do rebanho e do campo, o cordeiro e a primeira cevada, costumes de civilizações primitivas, de pastores e agricultores. Comia-se o cordeiro assado no fogo, com pães sem fermento e ervas amargas. E bebia-se vinho misturado com água.

Fiéis à memória dos seus antepassados, os filhos de Israel, recordados da libertação do Egito, carregaram então a festa cósmica da Páscoa com a celebração da libertação: “Conservareis a memória deste dia, celebrando-o como uma festa em honra do Senhor: fareis isto de geração em geração, pois é uma instituição perpétua” (Ex 12,14). É o que significava o rito observado pelos judeus, no qual o filho mais novo da casa perguntava formalmente ao adulto mais idoso qual a significação de quanto se passava, ao que este lhe respondia: “É o sacrifício da Páscoa em honra do Senhor” (Ex 12,26).

O ritual da Páscoa conservou-se assim praticamente igual ao da Festa da Primavera da Caldeia pagã: cordeiro e pão ázimo, isto é, pão absolutamente novo, sem nada velho, nem fermento sequer. Havia, porém, uma diferença essencial: a festa judaica assentava na História, na Libertação do Povo, enquanto que a Festa caldaica da Primavera era a celebração do ciclo repetitivo da Natureza. Nesta última celebrava-se o eterno retorno da Natureza; na judaica, o avanço do caminho histórico; aqui, há uma Natureza que se renova; ali, um Povo que avança, não obstante as dificuldades do Mar e do Deserto, rumo à Terra Prometida.

Este ritual perdurou através dos séculos: ao tempo de Jesus, celebrava-se assim a Páscoa, tal como se lê no Evangelho de Lucas (22,7/20).

Com a Morte e Ressurreição de Jesus, o maior acontecimento da História da Salvação, foi isso que os cristãos passaram a celebrar, sempre sem perder nada de vista: toda a memória de toda a história anterior.

Permitam-me que saliente uma coisa: nós temos história a celebrar, recordamos eventos. Os caldeus não, esses era “vira o disco e toca o memo”.

Quer isto dizer que só se pode celebrar a Páscoa se há quê e porquê. Esta celebração fazêmo-la ainda nós, hoje, e de duas maneiras, fundamentalmente:

1 — Recordamos a ceia pascal caldaica e depois judaica (a que Jesus celebrou com os discípulos);

2 — recordamos esse gesto de lavar os pés aos irmãos;

3 — recordamos a morte e ressurreição de Jesus;

4 — recordamos a celebração do Batismo, especial conformação com a Morte e Ressurreição, sacramento que é de morte para o Homem Velho e Vida para o Homem Novo (ver Rm 6,1/11);

5 — cumprindo o recado do Senhor — fazei isto em memória de mim (Lc 22,19) — com pão de trigo sem fermento comemos o pão de que necessitamos para o Caminho.

É a solenidade das solenidades e a festa das festas. Dela nasceria todo o ano litúrgico.

Cantemos com alegria…

Arlindo de Magalhães, 24 de março de 2017