A Vinha do Senhor

Poucas culturas dependerão tanto de um trabalho carinhoso e delicado do homem e do clima como é o da vinha.

A Palestina, terra de vinhas — era famoso o vinho do Líbano (Os 14,8) e o de Jelbón, cerca de Damasco (Ez 27,18) —, ensinou Israel a apreciar o fruto da videira e a acarinhar um trabalho difícil que dependia muito do clima. Por isso, sempre a religiosidade antiga sempre se associou à misericórdia ou castigo de Deus: se havia vinho, graça de Deus; se a cultura era fraca, castigo divino.

Cultura preciosa e difícil, longa até, tinha qualquer coisa de misterioso. No mínimo, de diferente, percorrida da vinha à adega, ao bom vinho, sobretudo o velho e bem tratado (Is 26,6), o que «alegra o coração do homem», dizia o Salmista (104,15), o que tem «espírito», dizemos nós, sinal da alegria de Deus.

Por tudo isto, o Povo de Israel foi muito justamente considerado a Vinha do Senhor, como tão bela e poeticamente se exprimiu o Profeta Isaías: “A vinha do Senhor do Universo é a Casa de Israel e os homens de Judá serão a casta escolhida” (Is 5,7). Esta vinha, a Casa de Isarel, o Senhor a cultivou com carinho e atenção: mas não deu uvas boas. Ela era «a sua plantação preferida, “dela esperava o Senhor a rectidão, mas, afinal, só deu sangue derramado; esperava a justiça, e só deu gritos de horror» (Is 5,7).

Nesta altura do ano, a utilização destes textos bíblicos traduz a grande consonância existente entre a Liturgia e o ritmo da antiga (e ainda actual) vida rural e agrícola (europeia). Agora que, na Europa mediterrânica, onde foi criada a Liturgia, particularmente a romana, as uvas estão maduras e se fazem as vindimas, cascos e lagar já lavados e pessoal contratado ou, em muitos casos, “pessoal reunido” (familiares. amigos, turistas…), a vindima como que comunga, em zonas vinícolas, um aroma que anda no ar. E é a partir deste trabalho agrícola, neste momento o mais premente, que a Liturgia cristã arranca para a proclamação da Palavra.

É verdade que, se as vindimas são, no ritmo agrícola da vida rural, a última das grandes colheitas do ano (logo entrava o Outono e se iniciava um ritmo quotidiano mais pausado, que anunciava a chegada do Inverno), na nossa vida moderna e urbana, ao contrário, é o ano que começa: terminaram definitivamente as férias para todos, começaram as aulas e também o ano político, o judicial, o económico, o laboral, etc.

Com tudo isto, a Liturgia como que dá uma «guinada», perdoe-se-me o termo: depois desta temática da Vinha, todo o ambiente litúrgico se volta para os Fins, começa progressivamente a ser escatológico, num clima que se adensará e crescerá de intensidade até ao fim do ano litúrgico, que desembocará no Advento, o tempo por excelência da celebração da Escatologia.

Chegados aí – ao Advento – a Liturgia não mais abrandará a comandar e conduzir toda a vida eclesial, nomeadamente na sua vertente pastoral, até ao cume que é a Páscoa, que, por sua vez, tem no Pentecostes o seu clímax.

É importante, por isso, esta mudança temática que a Liturgia engrena por estas alturas de meados de Setembro/inícios de Outubro. Fá-lo em consonância com os ritmos rurais e agrícolas da sociedade tradicional em que foi criada a Liturgia romana ou, no caso, mediterrânica: quando o seu ritmo abrandava e mais disponíveis estavam as pessoas, fim do Outono e Inverno à porta, acelerava-se a Liturgia festiva (o Natal e, pouco depois, a Páscoa).

Embora de modo completamente diferente, também assim acontece na vida urbana. Após a grande dispersão e mobilidade das férias de Verão, as comunidades começaram já a reencontrar-se, as Assembleias a repôr-se, e é grande em todos a vontade de recomeçar…

“Até os que chegam mais tarde, recebem tanto como os primeiros!”.

Arlindo de Magalhães, 24 de Setembro de 2017

O perdão é estrutural

Paul Klee, ‘Rayo Multicolor’
1927

Tal como há oito dias, também hoje o trecho do Evangelho acabado de ler faz parte de um discurso – de um ensinamento – de Jesus sobre a atitude da comunidade para com o perdão (Mt 18, 6/35).

Mateus começa por converter uma instrução de Jesus num diálogo entre ele e Pedro, instrução que arranca de uma pergunta feita pelo discípulo ao Mestre: “quantas vezes posso perdoar?” (Mt 18, 21-22). À vingança sem limites dos primórdios, Jesus contrapõe o perdão sem limites.

Segue-se depois uma parábola (23-34) que tem pouco a ver com o ensinamento de Jesus. A questão era: perdoar quantas vezes?

A parábola, no entanto, não diz respeito à pergunta anterior – “quantas vezes posso perdoar?” -, antes ilustra o que Jesus tinha dito aos discípulos noutra altura, quando lhes ensinou a oração do Pai-nosso: “perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido (Mt 6,12), pois que ”se perdoardes aos homens, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós” (Mt 6,14).

Mateus explicava então às comunidades proto-cristãs que ele frequentava ou até formara que tinham de levar a sério o ensinamento de Jesus, contido na oração do Pai-nosso: “Pai nosso…: perdoa-nos as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

A isto se chamava, no contexto da cultura judaica, um midrash, um ensinamento edificante, poderíamos até dizer na nossa linguagem moderna, uma homilia edificante. Portanto, uma explicação que não deixasse dúvidas.

A parábola tenta mostrar a necessidade de imitar a misericórdia de Deus: “Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai” (Mt 5,48), “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36), “Amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem nada esperardes em troca. Então, será grande a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo, porque ele é bom até para os ingratos e os maus” (Lc 6,35).

A parábola utiliza uma linguagem clara e arrasadora. Quem objetaria contra?

Não esqueçamos que Mateus escreve o seu Evangelho para cristãos procedentes do judaísmo. E, no Judaísmo, apesar do que já dizia o Livro do Levítico (19,18) – “Não te vingarás nem guardarás rancor aos filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo” – e apesar de Tobias – “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” (Tb 4,15) -, no Judaísmo, dizia, a lei vigente ou a Moral possível era “olho por olho, dente por dente” (Lv 24,20).

Ainda hoje é assim. Mateus dirigia-se a cristãos provenientes do Judaísmo, por volta do ano 80. A esta data, já o processo de separação do Judaísmo e do Cristianismo tinha chegado ao fim. Até já Jerusalém – no ano 70 – tinha sido arrasada pelos romanos. Mateus e a comunidade (judeo-cristã) procedem da Sinagoga, mas estão já em rutura com ela, num tempo em que o Judaísmo oficial, arrasado pelos romanos e sem Templo, intentava calar qualquer movimento dissidente por ele estabelecido, em particular o próprio movimento cristão.

Mateus percebe que a sua comunidade – proveniente do Judaísmo – tem dificuldade em ceder numa questão tão importante como esta do perdão. Por isso, venha ou não a propósito, sempre que pode, afirma-lhes que, para os discípulos de Jesus, é fundamental, é estrutural e radical o perdão: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois ele faz com que o sol se levante sobre os bens e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores. Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter?” (Mt 5,43-46).

Eu sei. Eu sei que o perdão é sempre muito difícil. Mas faz parte integrante do cerne da mensagem de Jesus. Também sei que não se ama um inimigo como se ama um amigo, muito menos um irmão ou um filho. 

Eu sei. Mas também sei que se o perdão não faz parte da ética da cultura que corre, continua a fazer parte da Boa Nova de Jesus. E mesmo que o perdão apareça impossível, temos sempre o exemplo de Jesus, guardado não por Mateus, mas pelo médico Lucas, não tão preso à cultura judaica, ele que escrevia para cristãos vindos do paganismo: “Perdoai-lhes, ó Pai, que não sabem o que fazem!” (Lc 23,34).

Arlindo de Magalhães, 17 de Setembro de 2017

Quem dizeis vós que eu sou?

Filippo Rossi (2015)

“Quem dizem os homens que é o Filho do Homem? E quem dizeis vós que eu sou?” (Mt 16,13 e 15) – perguntava Jesus aos seus discípulos.

Por volta dos seus 27 ou 28 anos, Jesus, que vivia com os pais num povoléu chamado Nazaré (Mt 2,22), começou a andar por toda a Galileia, dita “dos gentios” há já muito tempo (Is 9,1), isto é, região meio paganizada, a norte, e foi depois a Jerusalém, a sul, onde seria executado provavelmente no dia 7 de abril do ano 30. Palmilhou, portanto, intensamente a Galileia, embora por pouco tempo: nem sequer três anos. Não é possível reconstruir com exatidão os lugares desse seu andar, nem os caminhos por onde se movimentou. Sabemos que andou nas proximidades do lago de Genesaré, na Galileia…

Passava de uma aldeia para outra, mas nunca terá visitado nem Séforis, uma grande cidade no interior da Galileia do seu tempo, nem Tiberíades, esta na margem do lago que também se chamava Tiberíades. Séforis e Tiberíades eram as duas cidades mais importantes da Galileia. Em contrapartida, durante algum tempo, demorou-se por Cafarnaúm (“E tu, Cafarnaúm, julgas que serás exaltada até ao céu?”, Mt 11,23), cidade situada também nas margens do lago. Em todos esses lugares, curava os doentes e anunciava, com espanto de todos, o “reino de Deus”. A sua fama espalhou-se rapidamente e as gentes começaram a andar atrás dele, daqui pràli, para o seguir e escutar.

Usava uma linguagem regional mas sugestiva. As suas bocas e ditos breves e diretos, bem como as parábolas, eram inconfundíveis. Quase nunca falava de si. A sua pregação concentrava-se no que ele chamava o “reino de Deus”, como acima se disse já. A sua mensagem entroncava na tradição judaica, mas não o falar: numa linguagem simbólica e poética, nascida na sua experiência de Deus, ele ensinava depois: “Os que choram serão consolados e os mansos possuirão a terra” (Mt 5,4-5); “O Céu é o trono de Deus e a terra o estrado dos seus pés” (Mt 5,35). Mas o reino do céu, o reino, era sempre o tema mais importante. O Reino, o ser misericordioso como Deus-Pai o é (“não devias tu ter piedade do teu irmão como eu a tive de ti?”, Mt 18,33), e o perdão dos inimigos (“perdoa-nos… assim como nós perdoamos a quem nos ofendeu…”, Mt 6,12).

É difícil precisar a historicidade transmitida pelas tradições evangélicas; mas a verdade é que Jesus era também um curandeiro popular que tinha grande aceitação em todo o povo. Essas curas eram entendidas pelos setores mais afundados, pobres e sofredores da sociedade, como sinais da chegada do reino de Deus, embora Jesus tenha sempre resistido a realizar sinais espetaculares: “trouxeram-lhe todos os que sofriam de qualquer mal, os que padeciam doenças e tormentos, os possessos, os epiléticos e os paralíticos” (Mt 4,25).

No entanto, Jesus tinha um comportamento estranho e provocador. Violava constantemente as maneiras normais de conduta naquela sociedade. Não praticava as normas estabelecidas pelas leis e costumes da pureza ritual: nem sempre lavava as mãos antes de comer (Mt 15,20), não jejuava nem cumpria o preceito sabático (Mt 12,12), vivia rodeado de gente indesejável — cobradores de impostos, prostitutas, leprosos e muitos mais — e de mendigos e pobres, de famintos e de marginalizados, comia com pecadores e publicanos, falava em público com mulheres e admitia-as como discípulas… Era o caso de Maria Madalena, que ocupava um lugar importante entre os que se movimentavam à sua volta. Ainda por cima, segundo tudo indica, Jesus tinha uma atitude particularmente acolhedora para com as crianças (Mt 11,25); assumira essa atitude não sem mais mas com nítida intenção de mostrar que o reino de Deus estava aberto a todos, sem excluir quem quer que fosse.

Fora do pequeno grupo de discípulos e do círculo de simpatizantes, Jesus atingiu, portanto, uma enorme notoriedade na Galileia e nas regiões vizinhas. Não diminuía este acolhimento popular quando Jesus passava de um lugar para outro. Juntavam-se-lhe massas de gente, relativamente grandes. Por isso, muitas vezes as autoridades se espantavam diante dele, perguntando-se o que se lhe devia fazer, pois o consideravam perigoso: “seguiram-no grandes multidões, vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão” (Mt 4,25). As autoridades e outros tentavam difamá-lo e desacreditá-lo.

Jesus não foi bem recebido, por exemplo, pelos seus conterrâneos: “ Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria…?” (Mc 6,3).

Não admira, pois, a pergunta de Jesus aos discípulos: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem? … E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,20).

Arlindo de Magalhães, 27 de Agosto de 2017

O pão essencial

Sieger Koder

Pão e água. Fome e sede. Comprar e vender. Viver ou sobreviver. Partilhar ou (ver) morrer. Tivesse eu que enviar uma mensagem telegráfica de comentário ao que acabámos de escutar e seria algo semelhante a isto que ditaria. Uma vez mais, e como “é costume” nos Domingos deste Tempo dito Comum, é “da vida e à vida”, da sua quotidianidade e simplicidade que a Palavra nos “fala” e para onde nos remete. Palavra de palavras bem conhecidas (por muitas vezes as ouvirmos), mas que sempre nos recordam o essencial. Vejamos se sou capaz de tal “tradução”.

Na primeira leitura, Isaías fala-nos de alimento. Em primeiro lugar, daquele que é essencial e básico à nossa subsistência: da água, que sendo das “nascentes” só pode ser da mais pura e cristalina; do vinho, sinónimo de vida e de alegria para os hebreus e de verdade para os latinos (“in vino veritas”), os mesmos que na referida água, por sua vez, viam a saúde (“in aqua sanitas”, é a segunda parte do mesmo adágio); finalmente, do leite, o “super alimento” por excelência, seja o materno ou “do pacote”, líquido ou em pó… Mas depois Isaías refere uma “outra fome” que nem tais alimentos saciam: a de Deus. Porque “nem só de pão”, há uma “outra fome”, que clama por um “outro alimento”: um “alimento espiritual”, constituído pela Palavra (“Ouvi-me (…) escutai e a vossa alma viverá…”) e fortalecido pela fidelidade, que nos é total e gratuitamente oferecido pelo próprio Deus (ao contrário do outro, o corporal, pelo qual temos que pagar, como o nosso trabalho e dinheiro que dele auferimos). Assim, a “Aliança” que Deus quer estabelecer connosco é, antes de tudo, dom gratuito e total de uma vida plena e feliz; em troca, nenhum dinheiro nem qualquer espécie de despesa; apenas duas palavras e uma atitude: dar graças, e fidelidade.

E, no Evangelho, é o mesmo acento tónico, com mais concretas consequências…

Estamos na presença do conhecido trecho da (primeira) “multiplicação dos pães” (a segunda ocorrerá no capítulo seguinte – Mt 15, 29-39 – onde se referem igualmente um grande número de curas, a fome da multidão, os pães – sete – e “alguns peixinhos”), e todo ele é um relato simbólico: no “local deserto e afastado” vislumbra-se a referência ao Êxodo, e, através desta, à fome e à sede experimentadas pelo povo hebreu na sua travessia… Mas igual e paradoxalmente é ao “maná” do céu enviado por Deus para saciar o Seu povo que o texto aponta: outrora foi Moisés, agora é Jesus quem oferece um novo maná, igualmente reconfortante (ao ponto de os “cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças” terem comido e ficado saciados) e abundante (pois com as sobras se encheram “doze cestos”, símbolo das 12 tribos, ou seja, todo o povo de Israel a quem este “novo maná” se destina). Jesus é, assim, (pelo menos) tão importante como Moisés… mas certamente mais poderoso que Elias (com quem o haveriam, aliás, de confundir – Mt 16, 14) que alimentou mais de 100 e ainda sobrou (1 Rs 4, 44)… Sentado na relva, qual pastor a guardar as suas ovelhas, ele alimenta aqueles que o seguem, e fá-los saborear do descanso em “prados verdejantes” (Sl 23, 2).

Finalmente, repare-se nos seus gestos, todos eles prefigurativos da Eucaristia: Ele chama os discípulos (para o serviço), Ele toma nas suas mãos os pães, abençoa-os, parte-os e entrega-os aos discípulos (futuros “ministros da comunhão”) para que os repartam pela multidão… Até a referência às “mulheres e crianças” parece ser alusão ao carácter familiar que a Eucaristia deve ter, rompendo assim com as “barreiras sociológicas” que então imperavam…

Mas, ao contrário do que comumente se costuma pensar e dizer, creio que é no início do relato que encontramos o “segredo” deste texto. Reparemos que Jesus, apesar de se ter “afastado para um local deserto” (certamente para chorar, em silêncio, a morte de seu primo João Baptista, de que acabara de ter conhecimento), não manda embora quem vai atrás dele. O seu sofrimento era grande, certamente… mas nem isso lhe toldou o olhar e a sensibilidade diante do sofrimento daqueles que d’Ele se abeiram a pedir socorro, a mendigar a cura das suas enfermidades. Uma vez mais, Jesus mostra-nos que, mesmo quando seria “lícito”, ”normal” exigir(mos) dos outros algum isolamento (em razão do sofrimento que nos atinge), este nunca nos deve permitir que “viremos as costas“ aos nossos próximos: não é no isolamento “do alto dos montes” que a verdadeira paz é alcançada; é no partilhar da dor com/do nosso semelhante que a cura (dele e nossa) acontece…

E é tão forte esta comunhão e tão intenso este “processo de cura” que Jesus nem dá pelo tempo a correr. É por isso que os discípulos O interrompem: “Este local é deserto e a hora avançada. Manda embora toda esta gente …” Ou seja: “já é tarde… não temos que comer nem nada para alimentar esta gente toda… é melhor mandá-los embora… e que cada um se arranje…”. Jesus dá-se conta, uma vez mais, de que nem eles perceberam ainda o que tantas vezes lhes tinha já ensinado… por isso responde com dureza: “Dai-lhes vós de comer!” Diante deste “comprar” (em que ecoa também o texto da primeira leitura), Jesus impõe que se “dê de comer”, pois isso sim é o fundamental: não é o dinheiro com que se compram coisas, mas sim a capacidade, a inteligência, a disponibilidade para tudo fazer de modo a que todos tenham direito ao seu “pão de cada dia” o mais importante. À tentativa da “saída limpa” dos discípulos (“cada um que se arranje”) Jesus responde com a exigência da responsabilização individual: “dai-lhes vós de comer”. Porque aonde poderá ir quem anda “cego de fome”? Como poderá encontrar o caminho certo aquele a quem a fome e a sede turvam o olhar e o entendimento? Já diz o povo: “Casa onde não há pão…”

Mas os discípulos, embora anuindo, continuam céticos: só dispõem de cinco pães e dois peixes. Parece-lhes muito pouco… mas para Jesus é suficiente. As “parcelas” do seu “cálculo” são diferentes: contam sempre com a “Graça”, a graça que brota da partilha, fraterna e desinteressada. Porque quando todos partilham do (pouco) que têm, a fome de todos é saciada. Por aqui – melhor o percebemos agora – passa uma das “lições” essenciais do texto: só uma sociedade humana profundamente “eucarística”, em que todos sejam capazes e estejam disponíveis para partilhar do seu pão com os famintos, tornará possíveis as estruturas, os agentes e as ações necessárias à justa e equilibrada repartição de recursos suficientes para todos. É isto que nos ensinam os povos das margens do rio Nagara (Japão), os andinos de Cusco e Puno (Peru), os pastores Masai do Quénia e da Tanzânia, que juntos caçam ou pescam, juntos trabalham, tudo partilham: do que sabem e podem, e do que a Natureza lhes dá e que eles sumamente respeitam; e, certamente por isso, nas suas comunidades ninguém morre à fome.

Não nos equivoquemos: se vivermos “nos altos dos montes” dos nossos desejos e preocupações, de costas voltadas para os que vivem “cá/lá em baixo” no “vale… de lágrimas” da existência, perderemos a nossa identidade cristã; não seremos fiéis a Jesus; a Eucaristia que (semanal ou diariamente) celebrarmos pouco ou nada valerá, pois será inócua, porque insensível ao “sacrifício do mundo” que, quotidianamente, tais vidas entregam no Altar onde vimos (ou deveríamos vir, precisamente) partilhar o pão e o vinho e, neles e através deles, a Vida…

Por isso, o “grande milagre”, hoje como naquele tempo, não será tanto o da “multiplicação”… mas sim o da “conversão”. Falo do milagre da conversão da nossa sensibilidade, que se quer (mais) atenta, (mais) ativa e (mais) proactiva, responsável e responsabilizante, que nos faça disponíveis para a compaixão diante do sofrimento alheio, principalmente daqueles a quem falta o mais básico/elementar: o “pão de cada dia” e a “dignidade inerente a todos os membros da família humana (…) fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo” (in “Preâmbulo” da Declaração Universal dos Direitos do Homem, 1948). “Milagre”, porque grande (enorme!) sim, mas feito de “coisas pequenas”: pequenas e singelas iniciativas, totalmente ao alcance das nossas capacidades e competências, para as quais não precisamos (porque não devemos) “ficar à espera de alguém… lá de cima”. Iniciativas concretas, modestas, parciais, certamente… mas gotas de um oceano que só pelas mãos de todos poderá ser vazado…

Foi (e é) desta “conversão” à “fraternidade (d)e proximidade” que a Igreja se fez (e faz) universal. Foi na partilha (do pão e do vinho, dos gozos e das dores, no e do Caminho) que a Europa se fez nova… E há de ser, necessariamente, na mesma partilha (distribuição e retribuição) justa e solidária que a velha Europa se há-de refazer.

Porque o dinheiro, esse, “já está todo feito” (apenas mal repartido, dizem os Economistas). E o pão, esse, há quanto “chegue e sobre” (a Terra assim no-lo diz, e assim o demonstram os relatórios da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). O que falta então? “Mais flores! Mais flores!”, dizia o poeta… e com razão: que desabrochem novamente as flores da Esperança e da Partilha, da Fé alegre e do Amor operativo, esse tal de que nos fala S. Paulo: o total, o invencível, o pleno, de que nada, “nem a morte nem a vida” nos poderá separar…

É (também) disto que é preciso voltar a “avisar toda a gente”

Luís Leal, 6 de Agosto de 2017

Reagir ao desalento

Reserva das dunas de S. Jacinto

Se fosse necessário resumir numa palavra a mensagem que o Papa Francisco quer transmitir perante os graves problemas de Humanidade, recorreríamos à palavra Esperança. Há futuro porque “o Futuro a Deus pertence”: empenhar-se na consecução de um mundo justo tem sentido, não é uma tarefa inútil. Não vamos sós porque o Senhor que “faz novas todas as coisas” (Apo 21,5) abre-nos o caminho.

O Papa publicou já três documentos que levam no seu título uma mão cheia de esperança: “A alegria do Evangelho” (2013), “Louvado sejas, Senhor” (2015) e “A alegria do Amor” (2016). Cada um deles é um cântico, um poema a agradecer a beleza da vida e o nascer de uma manhã luminosa. Exatamente!, uma mensagem de esperança aos migrantes e refugiados de Lampedusa ou de Lesbos, às vítimas da máfia calabesa em Cassano, aos movimentos populares de Roma ou de Santa Cruz, na Bolívia, às crianças das ruas de Manila, aos desempregados de qualquer país europeu, aos excluídos de Kangemi em Nairobi, … sabe-se lá que mais.

Os problemas do meio ambiente de que temos falado e a sua intrincada relação com a exclusão dos seres humanos podem desalentar-nos. São problemas muito complexos e de dimensões colossais. Sabemos que muitos deles vão ainda perdurar pois que, uma vez postos em marcha, talvez possamos ainda travá-los, mas não detê-los. O alcance destes problemas é global e a nossa contribuição individual será sempre pequena e quase impercetível.

É, portanto, necessário reagir ao desalento. “Há sempre uma saída… poderemos sempre fazer alguma coisa para resolver os problemas” (LS 61). Esta é a nossa experiência, em tantas circunstâncias da vida escondidas na obscuridade. De repente, abre-se a luz e descobre-se uma nova vida.

Aqui e ali começam a aparecer chispas do Reino no meio da escuridão do quotidiano: aqui, Comunidades há que reduzem o seu consumo; ali, cidades e países que reciclam; além, fora com o plástico; escolas em que as crianças aprendem desde pequeninas a valorizar e cuidar do meio ambiente; mercados de produtos de “segunda mão”; reservas naturais com atividades humanas limitadas; tratamento de águas residuais; legislações que protegem o meio ambiente, impedindo a contaminação ou sobre-exploração dos recursos naturais; políticas fiscais que redistribuem a riqueza, combatem a desigualdade e protegem os mais pobres; ordenamentos jurídicos que penalizam o desrespeito pelos direitos humanos; economias ao serviço do bem comum; tecnologias limpas e energias alternativas sem emissões de carbono; e uma melodia suave, quase impercetível ainda, mas que já se ouve, a cantar a necessidade de modos de vida sustentáveis e inclusivos que nos farão mais humanos…

Realmente, o Reino já está a caminho. A toalha no cimo do monte (Is 25,6) começa a estender-se. E, lá, “muitos virão sentar-se à mesa” (Lc 13,29).

Em julho de 2014, faz agora 3 anos, em Caserta, pediram a Francisco: “Papa, dê-nos esperança!”. E ele respondeu: “Esperança não posso dá-la. Mas posso dizer-vos que, onde Jesus estiver, estará esperança. Onde estiver Jesus, os irmãos amam-se, comprometem-se a salvaguardar a sua vida e a sua saúde, e respeitam até o meio ambiente e a natureza”.

“Caminhemos cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança”, diz o Papa Francisco no final da Louvado Sejas!

Entretanto, uma pergunta: Precisamos mesmo de usar palhinhas de plástico? Só nos Estados Unidos, todos os dias são usadas perto de 500 milhões de palhinhas de plástico. E isto é uma estimativa.
 Não são recicladas e acabam em aterros sanitários, nas ruas e na água. Há alternativa? Sim. Uma delas é não as usar (Público de 2017.07.03)

Arlindo de Magalhães, 16 de Julho de 2017

É preciso nascer de novo

Foz d’Egua, Piodão

É preciso nascer de novo! “Não haverá uma nova relação com a natureza sem um homem novo. Não há ecologia sem uma adequada antropologia” (LS 118).

O planeta, as culturas, os povos e cada um de nós necessitamos de transformações profundas. Todos somos parte uns dos outros. Todos perfazemos um todo em que nada do que sucede a um dos membros é indiferente ao conjunto.

E é aqui que começa o diálogo: da natureza com o homem, do planeta com a vida, da humanidade com a natureza, das culturas entre si…

E é aqui que entra o diálogo como forma de encontro. Diálogo entendido não como negócio de interesses, mas como procura do bem comum para todos. “Dialogar não é negociar. Negociar é tentar levar a maior fatia do bolo comum. Mas não é isso que eu quero dizer. Dialogar é procurar o bem comum dividido por todos” (Papa Francisco, 2015, Discurso no 5º Congresso da Igreja italiana).

A própria encíclica Louvado sejas foi publicada em maio de 2015, meio ano antes da realização da C(onferência) das O(nu) em P(aris), em dezembro de 2015, oferecendo assim a sua reflexão pessoal e da Igreja Católica.

Francisco diz que a política honesta busca sem descanso o bem comum, o que é uma das formas mais altas do exercício. “O cuidado e a promoção do bem comum da sociedade competem ao Estado. Este, com base nos princípios de subsidiariedade e solidariedade e com um grande esforço de diálogo político e criação de consensos, desempenha um papel fundamental – que não pode ser delegado – na busca do desenvolvimento integral de todos” (EG 240).

E a política também se degrada quando se abdica em favor da economia, encarregada de defender o bem privado. A economia tem de estar ao serviço da política e não o contrário, a política da economia: “A política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia” (LS 189). A política e a economia podem e devem colaborar para que os bens que pertencem ao conjunto da humanidade cheguem a todos os seus membros.

Se todo o documento — Louvado Sejas — tem o diálogo como uma espécie de pano de fundo, destaca-se em alguns campos.

Primeiro, no âmbito internacional: o meio ambiente é um bem comum que ultrapassa as fronteiras. Veja-se a questão de Almaraz, ao lado do Tejo e a dois passos da fronteira portuguesa. A contaminação pode acontecer num país mas estendendo-se, no entanto, os seus efeitos fora de fronteiras.

Em segundo lugar, diálogo no interior de um país. Aqui contamos com muitas mais ferramentas para um debate público. É a nível local que, muitas vezes, se pode gerar uma diferença na vida das pessoas.

Em terceiro, destaca-se o diálogo entre as religiões na defesa do meio ambiente e dos mais pobres: “A maior parte dos habitantes do planeta declara-se crente, e isto deveria levar as religiões a dialogarem entre si, visando o cuidado da natureza, a defesa dos pobres, a construção duma trama de respeito e de fraternidade” (LS 201).

Finalmente, “é indispensável um diálogo entre as próprias ciências, porque cada uma costuma fechar-se nos limites da sua linguagem, e a especialização tende a converter-se em isolamento e absolutização do próprio saber. Isto impede de enfrentar adequadamente os problemas do meio ambiente”. Torna-se necessário também um diálogo aberto e respeitador dos diferentes movimentos ecologistas, entre os quais não faltam as lutas ideológicas” (LS. 201)

«A gravidade da crise ecológica obriga-nos, a todos, a pensar no bem comum e a prosseguir pelo caminho do diálogo, que requer paciência, ascese e generosidade, lembrando-nos sempre que “a realidade é superior à ideia”» (LS 201).

Claro que não podemos ser ingénuos. Sabemos que o diálogo não é fácil, mas também não é decisivo. Mas é, no entanto, o único meio de que dispomos para, juntos, abordarmos estas questões. Não há outro caminho. A crise sócio-ambiental que enfrentamos exige «paciência, ascese e generosidade, lembrando-nos sempre que “a realidade é superior à ideia”» (LS 201).

O diálogo, acompanhado de respeito e mesmo amizade, é o caminho.

Arlindo de Magalhães, 9 de Julho de 2017

Uma nova humanidade

Estou a chegar ao fim destas breves mas fundamentais reflexões sobre a Ecologia (a oikos + logos, em grego >  sobre o tratado da “nossa casa” que é o planeta). Estou a chegar ao fim, mas tenham paciência que o fim ainda não é hoje.

Li e reli, refleti sobre o texto do Papa Francisco. E tenho de concordar com muitos. O Papa Francisco vê ao longe uma humanidade nova: “Não haverá uma nova relação com a natureza sem um homem novo. Não há ecologia sem uma adequada antropologia” (LS 118). A antropologia (ántropos + logos) é a ciência do que é o homem. Só um homem verdadeiro é capaz de cooperar na consecução de uma ecologia a sério.

“Não haverá uma nova relação com a natureza, sem um ser humano novo. Não há ecologia sem uma adequada antropologia” (LS 118). O desafio requer da nossa parte ”um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade”, tudo novo (LS 111). É preciso “nascer de novo”, como Jesus disse a Nicodemos (Jo 3,4). Uma nova cultura, um novo homem, outra sensibilidade, novos estilos de vida, simplicidade de vida — “a sobriedade vivida livre e conscientemente é libertadora” (LS 223).

“É possível necessitar de pouco e viver muito, sobretudo quando se é capaz de dar espaço a outros prazeres, encontrando satisfação nos encontros fraternos, no serviço, na frutificação dos próprios carismas, na música e na arte, no contacto com a natureza, na oração” (LS 223).

“É necessária uma revolução cultural” (LS 114) que nos explique o que deve ser o desenvolvimento: “Para que apareçam novos modelos de progresso, precisamos de converter o modelo de desenvolvimento global, e isto implica refletir responsavelmente sobre o sentido da economia e dos seus objetivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações. Não é suficiente conciliar, a meio termo, o cuidado da natureza com o ganho financeiro, ou a preservação do meio ambiente com o progresso. Neste campo, os meios-termos são apenas um pequeno adiamento do colapso. Trata-se simplesmente de redefinir o progresso. Um desenvolvimento tecnológico e económico, que não deixa um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmente superior, não se pode considerar progresso” (LS 194).

No início do século XX, houve um grande enfrentamento: “Politique d’abord” (primeiro a Política), depois a Moral e o Direito. Foram necessárias  duas guerras mundiais mas nem isso resolveu a questão. Agora, a luta é outra: agora é a política que tem de se sujeitar à economia. A política está agora a pagar o que ontem negava. Hoje, a economia não tem outro objetivo que não seja o do seu próprio benefício, gerando assim mais pobres e mais pobreza. É hoje necessário gritar e dizer que “não a essa economia da exclusão e da desigualdade social. E essa economia mata” (EG 53).

O Papa está consciente da limitação dos recursos da Terra e da vulnerabilidade dos pobres. Não se trata de que os pobres copiem os ricos. Mas “chegou a hora de aceitar um certo decréscimo do consumo nalgumas partes do mundo, fornecendo recursos para que se possa crescer de forma saudável noutras partes” (LS 193).

Claro que na boca de muita gente e em muitos lados, a crítica não se fez esperar. Está maluco, o Papa! Como se pode repartir pelos pobres a riqueza dos ricos? Está maluco! … mas malucos estão os ricos e poderosos. Diziam-nos os mais pequeninos, há 15 dias, que a pobre viúva é que tinha razão, não os homens de muitas moedas!

Para aumentar o seu Património, podem os ricos querer esmagar os pobres?

Efetivamente precisamos de uma revolução cultural, de uma redefinição global das nossas sociedades e dos nós próprios!

É preciso nascer de novo! Seremos capazes?

Arlindo de Magalhães, 25 de Junho de 2017

Ecologia integral

Santa Maria, Açores (foto de Manuel Ferreira)

“Não haverá vida para os pobres num ambiente degradado; e não protegeremos o ambiente se nos esquecermos dos excluídos”. Assim acabei a homilia anterior. Esta dupla problemática — os pobres e um ambiente degradado — é um tremendo desafio. Não basta boa vontade para lhe respondermos.

Por isso, o Papa Francisco propõe um conceito novo: ecologia integral, isto é, o cuidado de tudo o que é vida, na multiplicidade das suas formas. A ecologia integral não consiste só e unicamente na defesa da natureza mas na proteção de tudo o que é vida, incluindo a humana, sobretudo onde se encontra em perigo.

A palavra ecologia (oikos + logos > tratado da casa) até há pouco tempo referia-se apenas à vida da natureza: que era necessário proteger os espaços naturais, lugares de beleza e harmonia, defender as espécies animais e vegetais, respeitar a água… Entendida desta maneira o que seja a ecologia, temos de dizer que já há muitos anos há muitas organizações a trabalhar na defesa do ambiente.

Entretanto, a seu tempo, João Paulo II falou já numa “ecologia humana”: “Além da destruição do ambiente natural, é de recordar outra ainda mais grave, a do ambiente humano, a que estamos ainda longe de prestar uma necessária atenção” (Centesimus annus 38).

Francisco dá agora um passo em frente: “Não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos” (LS 91).

Portanto, a ecologia integral acrescenta à ecologia da natureza uma sólida preocupação pela vida humana, pelo bem comum, que exige respeito pelos direitos inalienáveis de cada ser humano e pelo tecido social (pessoas e instituições que garantem o ordenamento social e político). O bem comum está, portanto, acima de legítimos interesses particulares quando estes atentam contra os direitos dos outros seres humanos.

O bem comum apela à solidariedade e reclama a opção preferencial pelos mais pobres: “Nas condições atuais da sociedade mundial, onde há tantas desigualdades e são cada vez mais numerosas as pessoas postas de lado, privadas dos direitos humanos fundamentais, o princípio do bem comum torna-se imediatamente, como consequência lógica e inevitável, um apelo à solidariedade e uma opção preferencial pelos mais pobres” (LS 158).

Esta ecologia integral não pode esquecer a justiça entre gerações: temos a obrigação de deixar aos que viverão depois de nós um planeta em que eles possam viver e desenvolver-se como seres humanos em plenitude. Os nossos direitos não estão por cima dos deles.

Estendeu ainda mais o conceito de ecologia integral o Papa Francisco, lembrando a proteção das culturas num tempo em que assistimos a uma globalização cultural que está a pôr em risco numerosas, ricas e diferentes culturas humanas. Uma autêntica ecologia tem de respeitar estas formas culturais que carregam uma sabedoria e uma riqueza que remontam a sociedades anteriores à nossa, em que havia um conhecimento profundo do significado do ser humano.

Uma ecologia integral aponta também uma “vida boa”, isto é, digna de ser vivida e profundamente humana. Para isso, nós temos que conviver em harmonia com os mais seres humanos e com as demais realidades, ajudando-as a crescer.

O Pai, criador da vida, convida-nos a gozá-la — a “vida boa” — e a celebrá-la, a descobri-la, a admirá-la, a cultivá-la e a respeitá-la, tornando-se cada um de nós mais humano no processo. Esta é, sim, uma ecologia integral.

Arlindo de Magalhães, 4 de Junho de 2017

A água

Batistério de Mértola

Meus irmãos:

Na Liturgia cristã, o que é primeiro ou mais: o pão ou a água?

Claro que é a água: o pão alimenta, mas sem água não há vida.

Não há vida, dizem-no a ciência e os cientistas, mas não só. Francisco põe um exemplo:

“A água potável e limpa constitui uma questão de primordial importância, porque é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos. …. A pobreza da água pública verifica-se especialmente na África, onde grandes setores da população não têm acesso a água potável segura, ou sofrem secas que tornam difícil a produção de alimento. Nalguns países, há regiões com abundância de água, enquanto outras sofrem de grave escassez“.

Tão importante é a água que, mesmo no sacramento, antes do pão com os Apóstolos, a água com a samaritana.

A Escritura está cheia de água: ela “jorrará até no deserto” (Is 35,6); “Vinde beber desta água, … vós mesmos que não tendes dinheiro [para a comprar]” (55,1).

“Vós, batizados, — agora é Paulo que fala — morrestes ou morreis como Cristo. Ele morreu e foi enterrado na terra; vós sois enterrados como ele, mas na água; ressuscitareis depois da água tal como ele ressuscitou do sepulcro” (Rm 6,4).

Representar isto? No cristianismo primitivo, havia uma piscina (batismal): o batizando entrava na água dum lado e morria nela; mas saía do outro lado, ressuscitado homem novo. É só ir a Monforte (Palma), a Idanha ou a Mértola…, ou mesmo a Conímbriga (este batistério já não é bem, bem assim)…

S. Pedro dizia isto doutra maneira, não da mesma, claro: “O Pai do Senhor Jesus Cristo gerou-nos de novo para uma esperança viva! Aconteceu o mesmo que com a ressurreição de Jesus” (1 Pe 1, 3-6).

Vamos então ao sinal da água. O do pão virá depois, a seu tempo.

Arlindo de Magalhães, 21 de Maio de 2017

Um grito de dor

São Pedro da Cova

A Terra é um precioso bem que nos foi confiado; mas nós apropriamo-nos dela, violentámo-la e maltratámo-la. Vindo das suas entranhas, surge um grito de dor que nos interpela: mas, desde que apareceu, o homem alterou sempre o meio ambiente. O pior foi quando, no Tempo neolítico (que começou uns 10.000 anos aC com a agricultura e acabou uns 7.000 também aC com a escrita e os metais): foi então que os nossos antepassados começaram a queimar florestas para conseguirem campos e vales férteis, conquistando espaços virgens e aumentando a densidade populacional. Isto manteve-se durante muitos séculos.

 Com o surgir da segunda revolução industrial, no séc. XVIII, tudo se acelerou. A população humana aumentou, desencadeou-se um progresso material sem precedentes, é verdade, mas ao mesmo tempo destruiu-se por todo o lado o meio ambiente.

Por isso, o Papa Francisco, e não só ele, tem falado com frequência dos males a que, atualmente, está sujeita a Terra, a nossa “casa comum”. E tem pedido que “a ciência e a religião, que fornecem diferentes abordagens da realidade, possam entrar num diálogo intenso e frutuoso para ambas” (LS 62).

Dentre os numerosos danos e riscos que hoje mais castigam a Terra escolheu Francisco os quatro que melhor exprimem o conjunto dos seus males.

O primeiro é a contaminação dos despejos dos novos processos produtivos. A natureza reutilizava tudo, ervas e folhas, ramos e fezes dos animais, fruta espalhada pelo chão e animais que se comiam uns aos outros… Mas controlar hoje sobretudo os despejos industriais ou manter a reutilização de antigos processos dá muito mais trabalho que ir ao Continente comprar um saco de adubo. A prejudicar a natureza, a fábrica despeja tudo para o rio que passa perto! Vão ver, de Guimarães a Famalicão, do Pevidém a não sei quê: passem pelos rios Ave e Vizela, e vejam o lixo da indústria têxtil! Ou então, vão a S. Pedro da Cova ver o que puseram dentro das minas abandonadas!

Em segundo lugar, o aquecimento climático: “Há um consenso científico muito consistente que indica que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático” (LS 23). A causa deste “preocupante aquecimento” está na maneira como o homem tem tratado a natureza. O atual modelo de desenvolvimento baseado na produção de energia a partir de combustíveis fósseis e da desflorestação é o grande causador do aquecimento do planeta, consequência da emissão de gazes que o provocam.

O terceiro prejuízo é a perda da biodiversidade, isto é, a extinção de muitas e muitas espécies de animais e plantas, causada pela  deterioração dos ecossistemas. Um ecossistema é uma área formada por um meio natural e pela comunidade de organismos animais e vegetais que o habitam. Se um ecossistema é atacado… Eu dou um exemplo: as cerejas ali de Cinfães – Resende – Penajóia são muito boas: mas, se se põe ali uma fábrica, os seus fumos, estradas, camiões pra trás e prá frente, lixos sólidos e líquidos, adeus cerejas! Pode também atacar-se a interconexão das espécies. Eu tenho um amigo que é “filho do asfalto e do cimento armado”: gostava muito de galinhas pica-no-chão…; então, fez-lhes uma gaiola muito bonita, de cimento, etc.; mas as galinhas não tinham bichinhos para picar-no-chão e morriam-lhe todas e ele não sabia porquê!… Os ataques feitos à interconexão das espécies, dizia eu, espécies tiradas dos seus ambientes próprios (um animal que vive no gelo glaciar não pode ser levado para o quente deserto africano), matam as plantas e os animais que equilibravam o ecossistema, etc., etc.

Em quarto lugar, a água, a irmã água. Não apenas a água da garrafinha! Fala-se aqui da água em geral, da água que há cada vez menos, em quantidade e que, muitas vezes e em muitos lugares, é nenhuma. A primeira vez que ouvi dizer que em África há lugares onde é necessário caminhar um dia — 24 horas !!! — para colher um pequeno cântaro de água potável…!!! A água potável e limpa é indispensável não só para beber, mas também para os ecossistemas terrestres e as zonas aquáticas. A sua corrupção gera doenças e mete na cadeia substâncias alimentares nocivas.

Todos estes prejuízos — o lixo, o aquecimento, a perda da biodiversidade e a falta ou corrupção da água — afetam, dia após dia, a vida na terra, no seu conjunto, e, de modo particular, os seres vivos mais indefesos. Dentro destes seres vivos contam-se também os pobres!

O Papa Francisco não se limita a denunciar os sintomas do prejuízo que estão a crescer no planeta Terra, e a matá-la. Acrescenta que “Os recursos da terra estão a ser depredados também por causa das formas imediatistas de entender a economia e a atividade comercial e produtiva” (LS 32).

A ambição económica que protege quase sempre apenas os interesses particulares prejudica com frequência o interesse comum. Por isso, o Papa Francisco é por vezes duro no que diz: «qualquer realidade que seja frágil, o meio ambiente por exemplo, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta» (LS 56).

“A economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas para o ser humano. A finança sufoca a economia real. Não se aprendeu a lição da crise financeira mundial e só muito lentamente se aprende a lição da deterioração ambiental… [Por isso é que] as raízes mais profundas dos desequilíbrios atuais … têm a ver com a orientação, os fins, o sentido e o contexto social do crescimento tecnológico e económico” (LS 109).

Numa última palavra!: existe um pensar segundo o qual se pode dar cabo do ambiente, pode-se fazer tudo, não faz mal nenhum! Isso é o que pensa o desenvolvimento puramente consumista e insustentável, que utiliza a técnica e a ciência para impor o domínio dos poderosos, degradando praticamente tudo, excetuando algumas coisas, é verdade, mas só em utilidade lucrativa.

No meio desta confusão, deste barulho, de toda esta sujidade, de toda esta exploração do homem rico ao homem pobre, se levantam os gemidos da terra e dos pobres.

E é necessário ouvi-los.

Arlindo de Magalhães, 14 de Maio de 2017

A bondade e perfeição

A encíclica Louvado sejas diz, logo no princípio, que a terra é “como uma irmã… como uma boa mãe” (LS 1) no âmbito das relações familiares. Assim como pessoas diferentes em tudo compõem uma família, assim o universo: tudo e todos “estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal” (LS 89).

O relato da criação do Génesis — que montámos aqui na Vigília Pascal deste ano — insiste na nossa origem comum. O laço de fraternidade que nos abraça não envolve só a humanidade; envolve tudo o que foi criado, toda a Criação.

Esse relato do Génesis não é uma teoria. “Tudo está relacionado. E todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra” (LS 92).

Esta afirmação está presente, digamos, em todo o texto da encíclica e pode ser interpretada como um dos eixos de compreensão da mesma, assim como uma premissa a partir da qual se tiram consequências necessárias ao nosso “bem viver”.

Isto tem de ser levado a sério. Trata-se, de facto, de um dado sólido avalizado pela ciência. Nos mais diversos campos, a comunidade científica afirma hoje que a origem do universo remonta a um momento único, o Big Bang, acontecido há 13.800 milhões de anos. Diz também a comunidade científica que a vida apareceu na Terra há 4.000 milhões de anos e que as diversas espécies — vegetais e animais — surgem por diferenciações progressivas mas a partir de troncos comuns. Poderíamos — mas eu não sou cientista — continuar a referir aqui numerosas certezas semelhantes a estas duas, sustentadas pela ciência.

A isto chegou ou chega a ciência. Mas os místicos, — sim, os místicos! —, por sua vez, conseguem um olhar penetrante sobre a realidade que, com frequência, lhes permite chegar a uma verdade profunda sem recorrer a longos raciocínios e estudos. A fé permite-lhes chegar muito mais para lá do mundo visível e ver com muito mais clareza.

Para S. Francisco de Assis, por exemplo, “qualquer criatura era para ele uma irmã, unida a ele por laços de carinho. Por isso, sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe” (LS 11).

São Boaventura, seu discípulo, contava que, “enchendo-se da maior ternura ao considerar a origem comum de todas as coisas, dava a todas as criaturas – por mais desprezíveis que parecessem – o doce nome de irmãos e irmãs” (LS 11).

A ser assim, se tudo está conectado, então todas as realidades têm sentido e valor, cada uma é como é, sempre diferente das mais, mas sempre parte de um conjunto. Nada é demais, nada é avarento, nada é mesquinho. Cada coisa tem a sua bondade e a sua perfeição.

Por outro lado, a degradação de qualquer realidade ou a sua decomposição em unidades de menor complexidade empobrece o universo. Nada é supérfluo. O Evangelho regista uma palavra de Jesus: “Não se vendem cinco passaritos por duas moedas? Pois bem! Mas Deus não se esquece de nenhum deles“ (Lc 12,6).

Cada realidade do cosmos tem o seu significado e a sua função e possui dignidade.

Daí se concluiu o erro de um “antropocentrismo despótico” desentendido das demais criaturas; isto é, o ántropos> homem, colocado no meio do mundo, pode fazer tudo o que lhe apetece. Não, não pode: “O fim último das restantes criaturas não somos nós (os homens). Mas todas avançam, juntamente connosco e através de nós, para a meta comum, que é Deus” (LS 83). Daí que, quanto mais frágil seja uma coisa criada por Deus, maior deva ser o cuidado a ter com ela. Como dizia já o Livro do Deuteronómio: “Se encontrares no caminho, em cima de uma árvore ou no chão, um ninho de pardais com filhotes ou com a mãe a chocar os ovos, não apanharás nem a pardala nem a ninhada” (Dt 22,6).

Isto possibilitará até uma melhor defesa do valor de cada ser humano também criado por Deus e feito à sua imagem e semelhança.

Sermos parte desta grande família, mas a nossa autonomia sobre ela não é absoluta. Não podemos “considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e nela nos compenetramos”.

É por isso que “O conjunto do universo, com as suas múltiplas relações, mostra melhor a riqueza inesgotável de Deus” (LS 86).

Arlindo de Magalhães, 23 de Abril de 2017

Humanidade

Safet Zec

Tudo começou em 1971, quando Paulo VI, na Carta Apostólica Octogesima Adveniens, escreveu assim: “Por causa da exploração inconsiderada da natureza, o homem começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser também vítima dessa degradação”. Isto é: a continuar a tratar assim a natureza, o homem atual pode começar a dar cabo de si próprio; e não precisa para tal de bombas atómicas, que as há.

Na Encíclica Louvado sejas, o Papa Francisco escreveu: “Todas as comunidades cristãs têm um papel importante a desempenhar na educação para a responsabilidade ambiental” (214). Um pouco adiante, acrescentou: ”Deus criou o mundo, inscrevendo nele uma ordem e um dinamismo que o ser humano não tem o direito de ignorar” (221).

Mas, no mínimo, o que está a acontecer é que “A terra, a nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo” (21).

Um dia destes (2017.03.28), o jornal que leio diariamente publicava um trabalho a duas páginas, com este título, em parangonas: “Corais estão a morrer e a culpa é nossa”.

Não vou agora explicar, mas…

Sabemos todos o que são corais: pequeníssimos animais coloniais que amontoados formam verdadeiros rochedos e vivem nos mares quentes, a uma profundidade razoável…, aqui ao lado, em Aveiro, por exemplo. Estes bichinhos são muito antigos no planeta: 400 milhões de anos!. E vivem, a certas temperaturas, no meio de algas que lhes dão belíssimos coloridos. Mas, se a temperatura das águas sobe, eles perdem a coloração, ficam brancos e morrem. Ficam sem acesso a nutrientes. É o que está a acontecer de há 80 anos para cá.

E que mal tem isso?

Tem que “Um mundo sem recifes de coral é um mundo em que a extinção humana [— o desaparecimento do homem —] neste planeta está cada vez mais próxima. Mas ainda vamos a tempo de nos salvar, começando por salvar os recifes de coral!” – diz o autor do artigo.

Quando li esta ameaça — “Um mundo sem recifes de coral é um mundo em que a extinção humana neste planeta está cada vez mais próxima” — andava o Pe Anselmo Borges a publicar num outro jornal umas curiosíssimas páginas sobre Transhumanismo e Pós-humanismo.

Que raio de palavras são estas?

Humanismo tem a ver com o homem; trans é uma preposição latina que significa “além de”: Transporte é o metro do Porto ou a camioneta do Vinhas que “levam para …”, isto é, transportam para um sítio diferente daquele em que se está quaisquer bens ou pessoas. Transhumanismo é, portanto, um entendimento do mundo e do homem muito diferente do humanismo que conhecemos e em que vivemos — sabe Deus como! —, que nasceu pelos séculos XV e XVI e veio até ao nosso tempo.

Pós-humanismo (depois do humanismo) é algo que está para além do humanismo tal como o entendemos hoje. Vou dar um exemplo: no nosso mundo ou em certos mundos, o dinheiro é, quase sempre, muito mais importante que o homem. Mas o verdadeiro humanismo entende que no centro do mundo deve estar o homem e não o dinheiro! Ponto final.

O transhumanismo apresenta-se como o fruto da terceira revolução industrial (a 1ª aconteceu entre o séc. XV e o XVIII; a 2ª, de meados do séc. XVIII até ao nosso tempo; a 3ª está a começar: desaparecerá o homo sapiens). “Os futuros senhores da Terra serão, provavelmente, mais diferentes de nós do que nós o somos dos nossos antepassados”. Com a engenharia genética, produziremos porcos com gorduras boas, será possível criar ratos verdes e fluorescentes e superinteligentes. E se isso é verdade, “porque não fazer seres humanos também superinteligentes?”. O mais revolucionário será a possibilidade de ligar um computador a um cérebro humano, captando sinais do cérebro de outrem.

Novas tecnologias permitem pensar que, em breve, transformar e melhorar a espécie humana deixou de ser ficção. Uma investigadora destas ciências diz assim: “Pode ser que pela primeira vez o homem seja capaz de mudar o seu próprio código genético e a longo prazo concretizar o sonho de melhorar a nossa espécie. Não vamos ser imortais, mas poderemos ser super-homens”.

E haverá depois os robots a substituir os humanos em funções de trabalho. Se forem robots ao serviço unicamente do homem…!

Tudo isto modificará muita coisa. O Parlamento Europeu já estuda um estatuto legal para os conter.

Tenho consciência de que isto que acabo de dizer provoca hoje a mesma reação que se levantou no século XIX quando Júlio Verne (1828-1905) escreveu  romances como “Da Terra à Lua” ou “Paris no séc. XX”. Muitos se riram dele, mas ele tinha razão.

Com o Transhumanismo e o Pós-humanismo surgirão graves problemas filosóficos, éticos, políticos e religiosos. Porque:

«A fé permite-nos interpretar o significado e a beleza misteriosa do que acontece. A liberdade humana pode prestar a sua contribuição inteligente para uma evolução positiva, como pode também acrescentar novos males, novas causas de sofrimento e verdadeiros atrasos. Isto dá lugar à apaixonante e dramática história humana, capaz de transformar-se num desabrochamento de libertação, engrandecimento, salvação e amor, ou, pelo contrário, num percurso de declínio e mútua destruição. Por isso, a Igreja, com a sua ação, procura não só lembrar o dever de cuidar da natureza mas também e «sobretudo proteger o homem da destruição de si mesmo» (79).

E «todas as comunidades cristãs têm um papel importante a desempenhar nesta educação. Espero também que, nos nossos Seminários e Casas Religiosas de Formação, se eduque para uma austeridade responsável, a grata contemplação do mundo, o cuidado da fragilidade dos pobres e do meio ambiente. Tendo em conta o muito que está em jogo, do mesmo modo que são necessárias instituições dotadas de poder para punir os danos ambientais, também nós precisamos de nos controlar e educar uns aos outros» (214).

É por isso que, neste dia de Páscoa, repito o que já disse aqui muitas vezes: respondendo ao apelo do Papa Francisco, continuaremos a debruçar-nos sobre este tema com a atitude com que o Papa começou esta encíclica: ”Louvado sejas, Senhor!”.

Arlindo de Magalhães, 16 de Abril de 2017

 

As celebrações do Tríduo Pascal

Georg Baselitz, ‘Kreuz mit Herbstastern’, 1963

1º dia do Tríduo – O Senhor Crucificado

Celebração da Ceia do Senhor (5ª feira, às 21H30)

A celebração do 1º dia do «Tríduo Santíssimo do Senhor Crucificado, Sepultado e Ressuscitado» — assim se exprimia Sto. Agostinho — começa com a celebração da «Ceia do Senhor», em tarde (ou noite) de 5ª feira.

Nela se faz memória da Ceia Pascal de Jesus com os Discípulos, da entrega do Mandamento Novo (sublinhada com o gesto do lava-pés), da advertência à atitude cristã do serviço e da instituição da Eucaristia.

Fazemos anteceder esta celebração de um ritual que nos põe em sintonia com a Páscoa da Antiga Aliança, etapa histórica importantíssima da Páscoa Cristã. É a História da Salvação resumida numa Ceia que reúne os Irmãos em Alegria e Sobriedade, apressadamente, pois que é necessário iniciar a celebração do Tríduo.

 

Como fazer a Ceia?

É necessário começar pontualmente às 20H45. Cada um trará, por si ou por outrem, só a quantidade de alimentos que comer; tudo o que sobrar será queimado. Que alimentos? Apenas frango assado (ou cozido, se for caso de dieta) e ervas (saladas verdes ou hortaliças cozidas). A Comunidade porá à disposição pão, vinho e água. Não se permitirá a entrada na mesa de mais nada.

A refeição terá de ser comida apressadamente: as pessoas vêm do trabalho e vão para a celebração, que é preciso preparar. Por isso, às 21H15 tem de estar a ‘comida’ terminada. Esta refeição não é propriamente de festa: um ambiente de certo recolhimento deve ser criado.

 

Celebração da Morte do Senhor (6ª feira, às 21H30)

A segunda celebração do Tríduo faz ainda parte do 1º dia do Tríduo: é a celebração da Morte do Senhor, que, segundo o relato evangélico, ocorreu por volta das três da tarde. Assim, esta celebração deveria ocorrer por essa hora. Só o facto de grande parte da Comunidade estar então a trabalhar nos obriga a deslocá-la para a noite.

Há alguns anos que, entre nós, esta celebração é antecedida de uma refeição de jejum de pão, água e uma maçã, na consonância com a Morte do Senhor (às 21H00).

O jejum visa a disponibilização do espírito para Deus e a recolha de bens a partilhar com os irmãos que deles necessitam e que, nos dias que correm, não são poucos. Assim, no fim da refeição, far-se-á a coleta, que será integralmente entregue ao Serviço da Partilha Fraterna. E cada um trará um pouco de pão. A água pô-la-á a Comunidade.

 

 

2º dia do Tríduo  – O Senhor sepultado

O Sábado do Tríduo ficou sempre um dia sem Liturgia; desde a mais remota antiguidade que é um dia de silêncio e jejum, de profunda reflexão nas igrejas.

 

 

3º dia do Tríduo, o 1º da semana – O Senhor ressuscitado

  1. Celebração da Vigília Pascal (Sábado, às 21H30)

A celebração deste último dia do Tríduo começa com a Vigília Pascal, que, no princípio, se iniciava por alturas do pôr-do-sol e durava toda a noite.

Esta celebração é, por assim dizer, uma celebração quádrupla: da Luz, da Palavra, da Água (batismal) e da Eucaristia.

Terminada a grande celebração da Vigília, juntar-nos-emos em convívio alegre à volta da mesa, traduzindo assim a alegria da Ressurreição. Este convívio terá uma «cor» completamente diferente da Ceia de 5ª feira e, por maioria de razão, da refeição de 6ª. Pensamos numa reunião fraterna e alegre à volta da Mesa Comum onde, alta noite e depois de uma longa celebração, possamos «petiscar» qualquer coisa, «beber um copo» ou mesmo aquecer com um caldo verde ou um chá, do que o cuidado fraterno for capaz. No caldo e no chá, os serviços da comunidade pensarão, sendo possível; tudo o mais estará ao cuidado de cada um.

 

  1. Celebração do Dia (Domingo, às 11H00)

Esta celebração seria uma evidente duplicação para quem celebrou a Vigília até alta madrugada: mas, de facto, alguns irmãos não poderão estar na celebração noturna.

Tríduo Pascal

Trifólio, tridente, trienal, tricampeonato, tem tudo a ver com tri (latim); tríduo deriva do latim tri+dies (três dias). Mas, afinal, o Tríduo Pascal tem quatro dias: 5ª, 6ª, Sábado e domingo (de Páscoa), tudo dias “santos” (5ª feira santa, 6ª feira santa, etc.), são quatro dias, e não três?

Explique-se. De facto, o Tríduo Pascal são três dias. Vamos lá ver.

Antigamente, não havia relógios a não ser “de sol”: só trabalhavam quando havia sol. Mesmo assim…

Mas, antigamente ainda, os dias começavam e acabavam sempre com o pôr-do-sol, não à meia-noite; era aí, ao pôr-do-sol, que começava um dia e acabava outro. No fim da tarde (que no Verão era muito tarde e no Inverno muito cedo), acabava um dia e começava outro.

Sendo assim, no pôr-do-sol da nossa 5ª feira começou a 6ª feira antiga, que durou até ao pôr do dia seguinte. Foi o primeiro dia do tríduo.

No pôr-do-sol seguinte, acabava a 6ª feira e começava o Sábado, que terminava no pôr-do-sol do segundo dia do tríduo.

E começava então o terceiro dia do tríduo, aquele em que Jesus ressuscitou, “o primeiro dia da semana”.

Três dias, portanto. No primeiro, recordava-se a Páscoa judaica que Jesus celebrou com os discípulos: aí o Mandamento Novo e o lava-pés, bem como a sua morte (à hora no[n]a dos antigos, 15 horas para nós, antes, portanto, do pôr-do-sol). Mas ainda no primeiro dia — “estava mesmo a começar o Sábado” (Lc 23,54) — o cadáver foi sepultado (Lc 23,53). Tudo no “primeiro dia”. Ainda tiveram tempo, as mulheres, de preparar aromas e perfumes para, depois do Sábado, que era o dia sagrado dos judeus, irem ungir o cadáver como costumavam fazer os mesmos judeus.

No segundo, nada!, portanto, silêncio absoluto! O Senhor está morto, sepultado. E “durante o Sábado observaram o descanso, conforme o preceito” (Lc 23,56).

No terceiro, isto é, “no primeiro dia da semana, ao romper da alva, as mulheres foram ao sepulcro e levavam os perfumes que tinham preparado…” (Lc 24,1). Encontraram a pedra do túmulo removida, Ressuscitou! Não está aqui! Aleluia!, aleluia! E foi o terceiro dia!

Resumindo. No primeiro: da ceia ao sepulcro; no segundo: um silêncio sepulcral!; terceiro: aleluia! aleluia!, ressuscitou!

Nós sabemos que os primeiros cristãos desde aquele dia passaram a celebrar em todos “os primeiros dias da semana” a ressurreição de Jesus. Foram os judeus que criaram a semana (não vamos aqui falar disso hoje) com os seus sete dias, sendo o Sábado o último. Jesus ressuscitou num “primeiro dia”.

 Mas  sabemos que, pelo menos nos meados do séc. II, os primeiros cristãos, pelo menos os de Roma, já celebravam uma Páscoa anual. Como é que não. É claro que nestes tempos primeiros — não havia nem missais nem tabletes — as igrejas não eram conformes na Liturgia. Ela, de resto, estava ainda a criar-se.

Aconteceu entretanto que, no séc. IV, uma mulher aqui de cima, da Galiza, Egéria ou Etéria, resolveu ir a Jerusalém em peregrinação. E quando lá chegou… encontrou uma maneira, digamos, teatral de celebrar a Páscoa. Teve Etéria o bom senso de apontar tudo no seu Itinerarium, como é que lá se celebrava a Páscoa.

Naquele Lugar Santo, nos ipsissima loca [nos mesmíssimos lugares] da Paixão e Morte de Jesus, recordavam-se, a par e passo e nos exatos sítios onde se haviam desenrolado, os episódios vários da Paixão e Morte do Senhor. Era um verdadeiro drama revivido liturgicamente num Triduum Sacratissimum Crucifixi, Sepulti et Ressuscitati (tríduo sacratíssimo do crucificado, sepultado e ressuscitado), na expressão de Santo Agostinho.

Tudo se fazia segundo a contagem antiga do tempo: o dia iniciava-se com o pôr-do-sol do dia anterior.

  1. Assim sendo, o Tríduo Pascal começava com a Cœna Domini (a Ceia do Senhor). Nesta celebração, os cristãos celebravam a Última Ceia de Jesus com os Discípulos, como mandava o Antigo Testamento (Ex 12). Mas foi aí que Jesus lhes lavou os pés e entregou o Mandamento Novo (Jo 13,1-11 e 33-35).

Para além desta, não havia, de início, qualquer outra celebração nos dois primeiros dias do Tríduo. Eram para a Igreja dias de jejum e silêncio rigoroso.

Entretanto, surgiria, também em Jerusalém, no final desse primeiro dia do Tríduo (ainda 6ª feira, donde a Sexta Feira Maior), uma segunda celebração, esta da Morte do Senhor, que, no entanto, nunca foi eucarística e sempre teve um acento fortemente episódico. Recomendava-se, por isso, às três horas ou cinco da tarde, antes do pôr-do-sol. Nós passámo-la para a noite, que é um dia de trabalho.

Esta liturgia conserva o esquema das antigas reuniões de oração sem celebração da Eucaristia: Liturgia da Palavra, Preces ou Oração Universal, Serviço de comunhão.

Entretanto, pelo século VII, vindo do Oriente, também de Jerusalém, introduziu-se-lhe o rito da veneração da Cruz. No início, naquela cidade, tratava-se mesmo de uma relíquia da verdadeira Cruz (?). Depois, pouco a pouco, este rito foi-se espalhando por todo o mundo cristão, feito não já com uma relíquia autêntica mas com um crucifixo.

  1. O Sábado, o segundo dia do Tríduo ficou sempre sem Liturgia própria: é desde a mais remota Antiguidade um dia alitúrgico, de silêncio e jejum, de profunda reflexão nas Igrejas e preparação da Liturgia da noite.
  2. No terceiro dia, “terminado o Sábado, ao romper do primeiro dia da semana” (Mt 28,1), a Ressurreição. Começava com uma Grande Noite: “4 em 1”!

Celebração da LUZ

Celebração da PALAVRA

Celebração da ÁGUA (Batismo)

Celebração da EUCARISTIA

Noite de toda a alegria, nos bons velhos tempos, a celebração da Vigília era sempre seguida de um ágape (refeição comum, fraterna) que rompia o jejum quaresmal e abria o Tempo Pascal da grande alegria.

Arlindo de Magalhães, 2 de Abril de 2017

O primeiro dia da semana

Rupnik, Resurrection of Christ | College of St. Stanislaus Ljubljana

Paramos a encíclica Louvado sejas do Papa Francisco, que temos o Tríduo Pascal à porta.

Sabemos todos — de Marcos a João — que foi no primeiro dia da semana que ele ressuscitou: “Terminado o sábado, ao romper do primeiro dia da semana… o anjo disse-lhes… Não está aqui. Ressuscitou!” (Mt 28,1). “De manhã, ao nascer do sol, muito cedo, no primeiro dia da semana, … um anjo disse-lhes: Ressuscitou!” (Mc 16,2). “No primeiro dia da semana, ao romper da alva… Não está aqui, ressusctou!” (Lc 24, 1). “No primeiro dia da semana…  logo de manhã, ainda escuro… e Maria Madalena, a correr…” (Jo 20,1).

De facto, tanto “primeiro dia da semana”! Mas há mais.

“Oito dias depois” (Jo 20,26), portanto, noutro primeiro dia da semana; “Tendo ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana”, insiste Marcos (16,9). Os Atos contam que “no primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o pão…” (20,7).

A importante importância do primeiro dia da semana!

“No primeiro dia da semana…” dirige-se Paulo aos de Corinto (1Cor 16,2).

Só o Apocalipse (1,10) refere o primeiro dia da semana utilizando uma expressão diferente: “No dia senhorial…”, isto é, no dia do Senhor… dies domini > dies dominialis > domingalis > chegamos ao domingo.

“Tendo ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana”, “dia do Senhor”, “estávamos nós reunidos para partir o pão”.

Que faziam então os cristãos no primeiro dia de semana? Atenção que nenhum destes textos que utilizámos tinha mais de 50/60 anos! Quer dizer que, muito antes do fim do séc. I, já os primeiros cristãos faziam o que Jesus lhes tinha dito — “Fazei isto em memória de mim” (Jesus só lhes disse que fizessem “isto”, não no “primeiro dia da semana”; isso resolveram-no eles), — no primeiro dia da semana, dia da Ressurreição. Era no primeiro dia da semana, no dia da Ressurreição, que os primeiros cristãos respondiam ao “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19).

56 “primeiros dias da semana” por ano a celebrar a Ressurreição do Senhor!

E se, uma vez por ano, “fizéssemos o nosso melhor”?, uma festa especial e  maior da Ressurreição do Senhor?!

Pois é isso que vamos fazer! O nosso melhor. Nem preto nem roxo, branco! Mas quando?

Branco só na Primavera: há malmequeres, jarros, gardénias, rosas, azáleas, camélias, cravos, crisântemos, flor de sabugueiro, gipsofila, mas tudo branco, jacintos,  jasmins, lírios, dálias, flor de laranjeira, sei lá que mais, tudo branco, até os paramentos, porque o Senhor ressuscitou, aleluia! aleluia!; venha a água, pois sem ela não há vida; fora com a cinza, cantar e dançar, alegria; depois do Inverno duro e frio, a Primavera suave e luminosa, as religiões escolhem todas! o sol, venha o sol; o pão sem fermento, pão novo, o da primeira colheita, o renascimento da Primavera; cantemos…

Este foi o raciocíno dos nossos pais, dos primeiros seguidores de Jesus.

A festa da Primavera, originária da Caldeia, aquela rica região do delta dos rios Tigre e Eufrates, terra de grandes culturas, todos os anos se celebrava, no ciclo cósmico da Natureza; era a festa da Novidade. Introduzida na cultura judaica, era já celebrada no exílio do Egito: ofereciam-se a Iavé as primícias do rebanho e do campo, o cordeiro e a primeira cevada, costumes de civilizações primitivas, de pastores e agricultores. Comia-se o cordeiro assado no fogo, com pães sem fermento e ervas amargas. E bebia-se vinho misturado com água.

Fiéis à memória dos seus antepassados, os filhos de Israel, recordados da libertação do Egito, carregaram então a festa cósmica da Páscoa com a celebração da libertação: “Conservareis a memória deste dia, celebrando-o como uma festa em honra do Senhor: fareis isto de geração em geração, pois é uma instituição perpétua” (Ex 12,14). É o que significava o rito observado pelos judeus, no qual o filho mais novo da casa perguntava formalmente ao adulto mais idoso qual a significação de quanto se passava, ao que este lhe respondia: “É o sacrifício da Páscoa em honra do Senhor” (Ex 12,26).

O ritual da Páscoa conservou-se assim praticamente igual ao da Festa da Primavera da Caldeia pagã: cordeiro e pão ázimo, isto é, pão absolutamente novo, sem nada velho, nem fermento sequer. Havia, porém, uma diferença essencial: a festa judaica assentava na História, na Libertação do Povo, enquanto que a Festa caldaica da Primavera era a celebração do ciclo repetitivo da Natureza. Nesta última celebrava-se o eterno retorno da Natureza; na judaica, o avanço do caminho histórico; aqui, há uma Natureza que se renova; ali, um Povo que avança, não obstante as dificuldades do Mar e do Deserto, rumo à Terra Prometida.

Este ritual perdurou através dos séculos: ao tempo de Jesus, celebrava-se assim a Páscoa, tal como se lê no Evangelho de Lucas (22,7/20).

Com a Morte e Ressurreição de Jesus, o maior acontecimento da História da Salvação, foi isso que os cristãos passaram a celebrar, sempre sem perder nada de vista: toda a memória de toda a história anterior.

Permitam-me que saliente uma coisa: nós temos história a celebrar, recordamos eventos. Os caldeus não, esses era “vira o disco e toca o memo”.

Quer isto dizer que só se pode celebrar a Páscoa se há quê e porquê. Esta celebração fazêmo-la ainda nós, hoje, e de duas maneiras, fundamentalmente:

1 — Recordamos a ceia pascal caldaica e depois judaica (a que Jesus celebrou com os discípulos);

2 — recordamos esse gesto de lavar os pés aos irmãos;

3 — recordamos a morte e ressurreição de Jesus;

4 — recordamos a celebração do Batismo, especial conformação com a Morte e Ressurreição, sacramento que é de morte para o Homem Velho e Vida para o Homem Novo (ver Rm 6,1/11);

5 — cumprindo o recado do Senhor — fazei isto em memória de mim (Lc 22,19) — com pão de trigo sem fermento comemos o pão de que necessitamos para o Caminho.

É a solenidade das solenidades e a festa das festas. Dela nasceria todo o ano litúrgico.

Cantemos com alegria…

Arlindo de Magalhães, 24 de março de 2017

Uma relação fraterna

Serra da Arrábida

“Enchei a Terra e dominai-a” (Gn 1,28).

A esta tarefa apontada ao Homem, criado à Imagem e Semelhança de Deus, é preciso acrescentar o que explica o segundo relato da Criação quando diz que o Éden foi entregue por IAVÉ ao Homem, mas “para ele o proteger e guardar” (2,15).

Na afirmação do próprio texto bíblico, portanto, o poder de dominar e transformar a Natureza é limitado, contrariamente ao que se pensou durante muito tempo. Francis Bacon, filósofo inglês (1561-1626), afirmava que “saber é poder”, isto é, “o poder do Homem sobre todas as coisas” depende “totalmente das artes e da ciência”. Em nome deste princípio é que … tudo o que se podia fazer era lícito ou devia mesmo fazer-se.

Mas foi exatamente esta mentalidade que levou ao desequilíbrio ecológico (que é também um desequilíbrio económico, social, cultural e humano, numa palavra) que pode acabar num colapso de todo o planeta (não se pense que só o nuclear pode destruir as condições da Vida) e que, sendo uma verdadeira profanação da Natureza, é uma blasfémia contra o Criador.

Para além de tudo isto, a possibilidade científica e técnica da exploração ilimitada e incontrolada da Natureza tornou o Homem vítima da ambição e da exploração, bem como originou um verdadeiro desperdício que inconscientemente ele leva a cabo.

A exploração da Natureza feita com o fito de, sem limites, aumentar a produção tem como consequência a destruição da mesma Natureza; e, destruída a Natureza, desapareceriam as condições da vida do Homem no planeta. Por isso surgiu a moderna ciência da Ecologia (palavra que deriva de oikos > casa + logos > palavra ou tratado da Casa do Homem).

Os variados movimentos ecológicos vão entendendo que a Natureza é a CASA DO HOMEM e os consequentes movimentos ecológicos e a sua tradução política, os partidos, bem como as modernas ciências do Ambiente, começam a pregar a sua preservação, defesa e promoção, exatamente porque Homem e Natureza estão intimamente interligados.

Esta nova área do saber e da preocupação (política) do Homem moderno tem duas vertentes muito importantes que refiro rapidamente:

  1. A Ecologia é, antes de mais, um fenómeno crítico.

A depravação da Natureza e do Ambiente está a atingir níveis altamente preocupantes.

A partir da revolução industrial, nos fins do séc. XVIII, o meio ambiente sofreu um acelerado processo de degradação, causado essencialmente pelo vertiginoso aumento demográfico e pelas sucessivas conquistas da ciência e da técnica que permitiram ao homem não só dominar mas também destruir o meio ambiente. Os fumos das fábricas, os escapes dos automóveis, os efluentes industriais, as experiências nucleares, os esgotos, os derrames de petróleo no mar, a urbanização desenfreada, o esgotamento dos recursos naturais (especialmente dos “combustíveis fósseis”), a intoxicação dos pesticidas (o célebre DDT, que provocou, por exemplo, a extinção de grandes quantidades de aves de rapina por causa da sua ação nociva sobre as cascas dos ovos, foi já encontrado laboratorialmente nas neves do Alasca e nos oceanos!), a destruição da fauna e da flora, os ruídos exagerados, a alteração da cadeia alimentar no termo da qual o homem se encontra, etc., etc., etc., trouxeram a este séc. XXI problemas de saúde física e mental de difícil solução e graves consequências.

Para além disso, na corrida louca para a industrialização, foram aniquiladas comunidades inteiras, de modo que muitos padrões culturais e sociais foram destruídos, sem que antes tivessem sido criados outros em alternativa. A vida urbana reflete particularmente todo este processo de degradação através do aparecimento cada vez maior de práticas antissociais que saem muito caras não só nem principalmente em termos económicos, mas sobretudo porque são negação de uma vivência saudável em comunidade.

Enquanto isto, as relações de equilíbrio biológico entre solo, água e atmosfera, que são muito estreitas, estão gravemente alteradas.

Etc., etc., etc.

A depravação da Natureza e do Ambiente está a atingir níveis altamente preocupantes – dizia.

Esta denúncia, para a qual não estávamos preparados nem de que somos ainda capazes, tem sido suscitada e mesmo feita em muito grande parte pelo recente movimento ecológico.

  1. Mas a ecologia é também um conceito e uma prática relacional.

A Natureza é a nossa Casa. E a nossa vida está interligada e muitas vezes dependente das espécies animais e vegetais e do ambiente em geral (o sol, a água, a terra). Para o homem, esta ligação é natural e é cultural; não se resiste ao frio no pino do inverno nas alturas do Barroso transmontano da mesma forma que um magrebino suporta o calor do Sará, no pino do verão. E esta resistência tem a sua tradução cultural: na habitação, no vestuário, na alimentação, nas festas, etc. Por isso é que o nível cultural do homem depende dele e nele se revela – do modo como ele respeita e desenvolve esta relação íntima com a Natureza em que se insere e a que está ligado, originando tanto a qualidade do ambiente como o da vida que vive.

É para esta relação Homem/Natureza que a Ecologia vem chamando a atenção. Que se o homem está nela equilibradamente inserido, tudo bem. Mas se esta relação é destruída, é o homem que destrói o seu ambiente e nega as suas condições biológicas., bem como as próprias raízes humanas e culturais.

Francisco de Assis (séc. XIII) foi muito justamente proclamado “patrono da Ecologia”, exatamente pela sua capacidade de relação “fraterna” com a Natureza: ele que tão “fraternalmente” se relacionava com “o Irmão Sol”, a “Irmã Água”, a “Irmã Terra”, a “Irmã Lua “…

Arlindo de Magalhães, 19 de Março de 2017

A Natureza

Lagoa do Canário, São Miguel – Açores

Nas religiões e culturas primitivas, a Natureza era considerada como o «lugar divino»[1] por excelência: «o céu e a terra» foram sempre, de facto, desde as origens, a grande manifestação e a morada dos deuses. Sentindo a sua vida ameaçada pelos rios e pelos astros, pelo mar, sabendo-se incapaz de enfrentar vitoriosamente os «elementos do mundo» ou ainda de canalizar as suas energias, os homens, para afastar o temor que lhes incutiam, reverenciavam-nos. Esta primeira atitude do Homem diante da Natureza foi, portanto, uma atitude religiosa, comandada embora pelo medo e pelo utilitarismo.

Deus criou o Mundo para o Homem — pensaram assim os nossos antepassados: a sua beleza, a regular idade do ciclo dos astros e das estações…! — mas, sempre que preciso, a mando de Deus, o Mundo castigava o Homem (tempestades, terramotos, vulcões, tufões e vórtices, tsunamis…).

Por um lado, o espetáculo da grandeza e da beleza do mundo, o regular funcionamento do ciclo dos astros e das estações; do outro, o poder do vento, das tempestades, dos tornados aos…, mas que Deus é este?, não será isto um castigo de Deus?

O livro do Génesis, entretanto, regista o enorme esforço dos homens, que, de geração em geração, cresceram no domínio da Natureza e na alegria dos seus recursos. É a história das culturas e civilizações.

O progressivo domínio da Natureza deu ao Homem o poder de explorar os seus recursos, o que teve fundamentalmente dois tipos de efeitos:

– primeiro, os frutos desse domínio não foram e continuam a não ser igualmente repartidos por todos os homens, apesar dos esforços de montes de gente, analistas e militantes, responsáveis políticos, instâncias humanitárias e eclesiais, no sentido de fazerem progredir, nas mentalidades e na prática, a ideia de que a terra pertence a todos e de que, por conseguinte, todos têm direito, segundo modalidades a determinar, a beneficiar dos seus frutos;

– depois, a exploração sistemática dos recursos naturais começou a conduzir ao esgotamento das reservas energéticas e das matérias primas, e originou graves atentados à paisagem, ao solo, ao mar e ao espaço, bem como encheu de «lixo» toda a superfície e atmosfera do globo. E o Homem foi de novo obrigado a interrogar-se pela sua relação com a Natureza. De resto, começou a sentir-se ligado a ela mais do que supunha; descobriu-a como «condição» e «meio» da sua vida e começou a perceber também que tinha de a respeitar; que em vez de delapidar os seus recursos, tinha de os gerir conscientemente. E que as urgências maiores são agora o respeito, a conservação e a proteção da Natureza. Numa palavra, que «não basta limpar o exterior do prato e do copo se o interior está cheio de rapina e malvadez» (Mt 23,25).

Por isso, urge, antes de mais, tomar consciência da amplidão do desastre já cometido e do perigo que se continua a correr. À poluição que por todos os lados se topa podem juntar-se o crescente perigo nuclear (os desastres com centrais deste tipo acontecem um pouco por todo o lado), as sucessivas marés-negras e as desflorestações maciças (a Amazónia é apenas um caso), a rutura da camada de ozono, as chuvas ácidas, que são algumas das questões para que temos vindo a ser alertados. Mas mais: o homem primitivo temia a Natureza e seus poderes maléficos, que atribuía aos deuses; mas o homem contemporâneo sabe-se o autor desses poderes maléficos, verdadeira Caixa de Pandora aberta pela sua inconsciência, incompetência e inabilidade, donde saíram muitos males e pode mesmo sair o poder destruidor final. E é preciso também tomar consciência de que, contrariamente ao que se pensava, os recursos da Natureza não são ilimitados, e que o progresso material e o desenvolvimento técnico não são, sem mais, a priori, positivos. Isto é: nem tudo o que pode ser feito deve ser feito, e nem tudo o que traz (aparente) benefício para o homem deve ser feito. Doutro modo ainda: nem impotente diante da Natureza, nem todo-poderoso contra ela; o Homem é antes o responsável da sua própria existência, que não pode viver a não ser na Natureza e com a Natureza.

Hoje em dia, pode dizer-se que a relação do Homem com a Natureza não mais será regulada nem por um simples deixar-correr apoiado nas leis da mesma Natureza e no comportamento espontâneo dos homens, nem apenas pela ciência e pela técnica, mas sim por uma ética. Só uma ação humana responsável — capaz de anunciar quer valores quer normas — pode alterar o presente estado de coisas.

Em primeiro lugar, é preciso conseguir na geração presente uma atitude fundamental de sobriedade e respeito para com a Natureza, contrária a qualquer tipo de delapidação irresponsável, o que não exclui uma utilização razoável orientada por critérios de procura do melhor benefício possível para a Humanidade.

Depois, é preciso gritar que o verdadeiro adversário da Natureza é, na civilização atual, não a técnica mas a economia. De facto, a procura de um melhor poder de compra e de um maior conforto, e o aumento exagerado dos lucros, fazem com que seja a economia que, antes de mais nada, tenha de ser metida na ordem.

Em terceiro lugar, urge desacelerar a procura desenfreada do lucro económico e mesmo, numa certa medida, do progresso técnico. Isto é: o móbil do mundo moderno é o de realizar o tecnicamente possível e de conseguir o economicamente vantajoso. Mas isto, sem mais, não pode continuar.

Não mais é possível levar a cabo quaisquer iniciativas só porque são tecnicamente possíveis e dão lucro aos seus promotores: as decisões a tomar têm de ter em conta as verdadeiras necessidades do maior número possível de homens.

Depois, impõe-se absolutamente o respeito pelas gerações futuras.

Nunca como hoje o homem esteve tão claramente na situação de se perceber como responsável tanto pelo seu destino como pela sua própria vida. Nunca como hoje o homem esteve em condições de verificar em que medida a Humanidade é una. Nunca como hoje, no auge do seu poderio técnico, económico e político, o homem viu tão claramente quanto esta grave questão lhe exige uma ética e o põe na perspetiva da dimensão religiosa. O anúncio bíblico do Deus único, Senhor e Autor do mundo, confiado à Humanidade criada «à sua imagem e Semelhança», que, com a sua Graça, caminha para a perfeição última e definitiva, exige dos cristãos, em toda esta questão do respeito pela Natureza, uma postura decorrente da sua fé. Porque, também neste campo, «se os Filhos de Abraão se calam, gritarão as pedras». E como elas têm gritado!

Arlindo de Magalhães, 12 de Março de 2017

[1] Os deuses das religiões nórdicas viviam no centro das florestas transformadas em bosques sagrados: é daí, por exemplo, que vem o pinheiro do Natal. “As grandes forças que criaram o Universo não podiam ser adoradas numa casa construída por mãos humanas, nem o Infinito podia estar contido dentro de qualquer coisa feita pelo Homem” (in As brumas de Avalon).

A Folha da Serra

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Começou a publicar-se no ano 2000 uma obra de 7 volumes, a História Religiosa de Portugal. No 3º Volume (publicado em 2002), havia um longo capítulo sobre “O catolicismo português no século XX”. Entre os vários subtítulos e respetivos textos, havia um — “Em Portugal, 20 anos depois” (do Vaticano II, 1962-1982) — que, na página 250, era ilustrado com a fotografia da Folha Dominical 358, da Serra do Pilar, de 2 de janeiro de 1982.

O texto a que me refiro resumo-o nesta frase: “Refletindo os esforços de renovação pastoral da Igreja Católica, o II Concílio do Vaticano repercutiu-se no catolicismo português, gerando novo impulso reformador, em particular nos setores mais envolvidos nas questões da transformação da sociedade, nomeadamente a justiça social, a paz e a liberdade — temas centrais do magistério pontifício nesta década” (p. 249-250). É verdade o que escreveu o historiador Paulo Fontes, que não falava só da Serra do Pilar. A Comunidade da Serra do Pilar esforçava-se na renovação pastoral da Igreja e na transformação da sociedade, visando a justiça social, a paz e a liberdade. O autor entendeu que a Folha dominical da Serra do Pilar era ótima para ilustrar o seu pensamento. Continue reading

Os gemidos da irmã Terra

Rio Vez, Arcos de Valdevez

Rio Vez, Arcos de Valdevez

Citei aqui há 15 dias Carlo Petrini, um jornalista italiano que fundou um movimento contra a fast-food e o McDonald’s: “Não são poucos os homens de ciência que pressagiaram um futuro da Terra em que, mais cedo ou mais tarde, a raça humana se extinguirá, se continuar a consumir mais recursos do que aqueles de que a natureza dispõe”.

De facto, e volto ao Papa Francisco, “A Terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo”. É a cultura do “use e bote fora”, seja o que for: o que era limpo e belo está agora cheio de lixo. Lijó, Vilar de Andorinho, no que resta de um caminho que pode ter sido romano mas que a memória popular continua a chamar a “estrada de Viseu” ou “caminho de Santiago” é agora um esgoto de água choca!

Mas o clima!, o clima, que é um bem comum, preocupa muito mais, indicando que estamos perante um inquietante aquecimento do sistema climático que, por sua vez é causa de uma elevação constante do nível do mar. Ao mesmo tempo, a falta de água potável, a baixa produção agrícola, o derreter das calotas polares e dos glaciares, o desmatar das florestas, as migrações de animais e vegetais que nem sempre se adaptam noutros lugares, etc., levantam problemas sérios ao equilíbrio do Planeta.

A água limpa e potável é uma questão de primeira importância. O nosso corpo é e exige muita água, e nós não podemos viver sem ela. Por isso, “o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício de outros direitos humanos”. Escassez de água quer também dizer alimentos mais caros. E são sempre os mais pobres os mais apanhados por estes problemas.

Desaparecem anualmente milhares de espécies vegetais e animais: milhares já não as podemos ver, e a outros mais milhares a geração que nos segue não lhes porá os olhos em cima.

Com o seu derrube, as florestas, pulmões do Planeta, estavam até há pouco tempo repletas de biodiversidade. Agora, porém, derrubadas para desenvolver cultivos, intensivos e super-intensivos, perdem, em poucos anos, inúmeras espécies, e vastas áreas se transformam em áridos desertos.

O homem, “que tem direito a viver e ser feliz e, além disso, possui uma dignidade especial, não pode deixar de considerar os efeitos da degradação ambiental, do modelo atual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas”.

Por exemplo: “Nota-se hoje…, o crescimento desmedido e descontrolado de muitas cidades que se tornaram pouco saudáveis para viver, devido não só à poluição proveniente de emissões tóxicas mas também ao caos urbano, aos problemas de transporte e à poluição visível e acústica. Muitas cidades são grandes estruturas que não funcionam, gastando energia e água em excesso”. E daqui nascem “a exclusão social, a desigualdade no fornecimento e consumo da energia e doutros serviços, a fragmentação social, o aumento da violência e o aparecimento de novas formas de agressividade social, o narcotráfico e o consumo crescente de drogas entre os mais jovens, a perda de identidade”, uma ”verdadeira degradação social, uma silenciosa rutura dos vínculos de integração e comunhão social”. “O ambiente humano e o ambiente natural degredam-se em conjunto”. Quem se não lembra da Escarpa da Serra, “a Etiópia aqui ao lado”? “Hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica se torna sempre uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres”.

Tudo isto, e muito mais, “provoca os gemidos da irmã Terra”, como dizia S. Francisco. No entanto, “nunca maltratámos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos. Mas somos chamados a tornar-nos os instrumentos de Deus Pai para que o nosso planeta seja o que Ele sonhou ao criá-lo e corresponda ao seu projeto de paz, beleza e plenitude”. Para isso, “torna-se indispensável criar um sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a proteção dos ecossistemas, antes que as novas formas de poder derivadas do paradigma tecno-económico acabem por arrasá-los não só com a política, mas também com a liberdade e a justiça”.

A Igreja não tem proposta nenhuma definitiva para resolver esta premente questão mas tem consciência de que deve escutar e promover o debate honesto entre os cientistas, e não só, respeitando a diversidade de opiniões. Basta olhar a realidade com sinceridade, para ver que há uma grande deterioração da nossa casa comum.

A esperança convida-nos a reconhecer que há sempre uma saída, sempre podemos mudar de rumo, sempre podemos fazer alguma coisa para resolver os problemas. «Olhando as regiões do nosso planeta, depressa nos apercebemos de que a humanidade frustrou a expectativa divina”.

(Todos os textos entre aspas são do 1º capítulo da encíclica Laudato Si)

Arlindo de Magalhães, 19 de fevereiro de 2017

Casa Comum

Loriga (Seia), Rio Videira

Loriga (Seia), Rio Videira

Recitou-se aqui, domingo passado, o célebre Cântico do Sol, de S. Francisco de Assis (1182-1226), afinal uma oração saída da sua alma de poeta. A posteriori, a gente entende; de princípio, não. Quando se ouviu da varanda do Vaticano Habemus papam!, que escolhera o nome de Francisco, perguntei-me de imediato porque tinha um jesuíta escolhido o nome do pobre e franciscano São Francisco de Assis.

Não foi necesário muito tempo para percebermos aonde queria chegar o Papa Francisco. Logo na 1ª encíclica — A alegria do Evangelho —, ele escreveu claro: “A Terra é a nossa casa comum, e todos somos irmãos … (e) a Igreja não pode nem deve ficar à margem da luta pela justiça”. Por isso, “cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade” (EG 183.187). Logo começou Francisco a falar de uma ecologia (oikos > casa + logos > palavra) integral.

Que casa é esta? A antiquíssima palavra grega — oikos — foi escolhida por E. Haeckel, um biólogo alermão do séc. XIX/XX (1834-1919), para referir a ciência que estuda as relações dos seres vivos (homens, animais e plantas) entre si e com o meio ambiente, a tal casa comum (a biosfera, o planeta terra e o nosso habitat [o nosso espaço físico, geográfico e cultural]).

Mas, primeiro, esta casa não é só minha: é de todos, e “todos somos irmãos” (Mt 23,8). E, por isso, na casa que é de todos, não podemos separar o Homem da Natureza, nem de Deus, nem das demais Pessoas. É o que se quer dizer com o adjetivo integral. Porque a oikos não é só minha.

Estas quatro realidades — o Homem, a Natureza, Deus e as mais Pessoas — têm que estar estreitamente ligadas entre si: recebemos ou temos um mundo [que não é meu], vivemos com outras pessoas e somos solidários com elas, tanto as deste tempo como as do tempo futuro, e não podemos — pelo menos nós, os crentes, os que que acreditamos — esquecer nem um Deus Criador nem que “todos somos irmãos”.

Esta é a questão do Papa Francisco. Não só dele. Este seu documento tem um fundo espiritual, mas também científico (percebe-se perfeitamente que, a partir do capítulo 3º, há uma 2ª mão por detrás), filosófico e teológico. Como que se reuniram um filósofo, um teólogo, um cientista e um economista, que, em conjunto, prepararam o documento. Não tenho dúvida de que foi um bocadinho assim.

De todo este trabalho saiu um texto que, a si próprio, se define assim:

“Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer? Esta pergunta não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma fragmentária. Quando nos interrogamos acerca do mundo que queremos deixar, referimo-nos sobretudo à sua orientação geral, ao seu sentido, aos seus valores. Se não pulsa nelas esta pergunta de fundo, não creio que as nossas preocupações ecológicas possam alcançar efeitos importantes. Mas, se esta pergunta é posta com coragem, leva-nos inexoravelmente a outras questões muito diretas: Com que finalidade passamos por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra? Por isso, já não basta dizer que devemos preocupar-nos com as gerações futuras; exige-se ter consciência de que é a nossa própria dignidade que está em jogo. Somos nós os primeiros interessados em deixar um planeta habitável para a humanidade que nos vai suceder. Trata-se de um drama para nós mesmos, porque isto interpela o significado da nossa passagem por esta terra.” (LS 160).

Arlindo de Magalhães, 12 de Fevereiro de 2017