Ecologia integral

Santa Maria, Açores (foto de Manuel Ferreira)

“Não haverá vida para os pobres num ambiente degradado; e não protegeremos o ambiente se nos esquecermos dos excluídos”. Assim acabei a homilia anterior. Esta dupla problemática — os pobres e um ambiente degradado — é um tremendo desafio. Não basta boa vontade para lhe respondermos.

Por isso, o Papa Francisco propõe um conceito novo: ecologia integral, isto é, o cuidado de tudo o que é vida, na multiplicidade das suas formas. A ecologia integral não consiste só e unicamente na defesa da natureza mas na proteção de tudo o que é vida, incluindo a humana, sobretudo onde se encontra em perigo.

A palavra ecologia (oikos + logos > tratado da casa) até há pouco tempo referia-se apenas à vida da natureza: que era necessário proteger os espaços naturais, lugares de beleza e harmonia, defender as espécies animais e vegetais, respeitar a água… Entendida desta maneira o que seja a ecologia, temos de dizer que já há muitos anos há muitas organizações a trabalhar na defesa do ambiente.

Entretanto, a seu tempo, João Paulo II falou já numa “ecologia humana”: “Além da destruição do ambiente natural, é de recordar outra ainda mais grave, a do ambiente humano, a que estamos ainda longe de prestar uma necessária atenção” (Centesimus annus 38).

Francisco dá agora um passo em frente: “Não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos” (LS 91).

Portanto, a ecologia integral acrescenta à ecologia da natureza uma sólida preocupação pela vida humana, pelo bem comum, que exige respeito pelos direitos inalienáveis de cada ser humano e pelo tecido social (pessoas e instituições que garantem o ordenamento social e político). O bem comum está, portanto, acima de legítimos interesses particulares quando estes atentam contra os direitos dos outros seres humanos.

O bem comum apela à solidariedade e reclama a opção preferencial pelos mais pobres: “Nas condições atuais da sociedade mundial, onde há tantas desigualdades e são cada vez mais numerosas as pessoas postas de lado, privadas dos direitos humanos fundamentais, o princípio do bem comum torna-se imediatamente, como consequência lógica e inevitável, um apelo à solidariedade e uma opção preferencial pelos mais pobres” (LS 158).

Esta ecologia integral não pode esquecer a justiça entre gerações: temos a obrigação de deixar aos que viverão depois de nós um planeta em que eles possam viver e desenvolver-se como seres humanos em plenitude. Os nossos direitos não estão por cima dos deles.

Estendeu ainda mais o conceito de ecologia integral o Papa Francisco, lembrando a proteção das culturas num tempo em que assistimos a uma globalização cultural que está a pôr em risco numerosas, ricas e diferentes culturas humanas. Uma autêntica ecologia tem de respeitar estas formas culturais que carregam uma sabedoria e uma riqueza que remontam a sociedades anteriores à nossa, em que havia um conhecimento profundo do significado do ser humano.

Uma ecologia integral aponta também uma “vida boa”, isto é, digna de ser vivida e profundamente humana. Para isso, nós temos que conviver em harmonia com os mais seres humanos e com as demais realidades, ajudando-as a crescer.

O Pai, criador da vida, convida-nos a gozá-la — a “vida boa” — e a celebrá-la, a descobri-la, a admirá-la, a cultivá-la e a respeitá-la, tornando-se cada um de nós mais humano no processo. Esta é, sim, uma ecologia integral.

Arlindo de Magalhães, 4 de Junho de 2017

A água

Batistério de Mértola

Meus irmãos:

Na Liturgia cristã, o que é primeiro ou mais: o pão ou a água?

Claro que é a água: o pão alimenta, mas sem água não há vida.

Não há vida, dizem-no a ciência e os cientistas, mas não só. Francisco põe um exemplo:

“A água potável e limpa constitui uma questão de primordial importância, porque é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos. …. A pobreza da água pública verifica-se especialmente na África, onde grandes setores da população não têm acesso a água potável segura, ou sofrem secas que tornam difícil a produção de alimento. Nalguns países, há regiões com abundância de água, enquanto outras sofrem de grave escassez“.

Tão importante é a água que, mesmo no sacramento, antes do pão com os Apóstolos, a água com a samaritana.

A Escritura está cheia de água: ela “jorrará até no deserto” (Is 35,6); “Vinde beber desta água, … vós mesmos que não tendes dinheiro [para a comprar]” (55,1).

“Vós, batizados, — agora é Paulo que fala — morrestes ou morreis como Cristo. Ele morreu e foi enterrado na terra; vós sois enterrados como ele, mas na água; ressuscitareis depois da água tal como ele ressuscitou do sepulcro” (Rm 6,4).

Representar isto? No cristianismo primitivo, havia uma piscina (batismal): o batizando entrava na água dum lado e morria nela; mas saía do outro lado, ressuscitado homem novo. É só ir a Monforte (Palma), a Idanha ou a Mértola…, ou mesmo a Conímbriga (este batistério já não é bem, bem assim)…

S. Pedro dizia isto doutra maneira, não da mesma, claro: “O Pai do Senhor Jesus Cristo gerou-nos de novo para uma esperança viva! Aconteceu o mesmo que com a ressurreição de Jesus” (1 Pe 1, 3-6).

Vamos então ao sinal da água. O do pão virá depois, a seu tempo.

Arlindo de Magalhães, 21 de Maio de 2017

Um grito de dor

São Pedro da Cova

A Terra é um precioso bem que nos foi confiado; mas nós apropriamo-nos dela, violentámo-la e maltratámo-la. Vindo das suas entranhas, surge um grito de dor que nos interpela: mas, desde que apareceu, o homem alterou sempre o meio ambiente. O pior foi quando, no Tempo neolítico (que começou uns 10.000 anos aC com a agricultura e acabou uns 7.000 também aC com a escrita e os metais): foi então que os nossos antepassados começaram a queimar florestas para conseguirem campos e vales férteis, conquistando espaços virgens e aumentando a densidade populacional. Isto manteve-se durante muitos séculos.

 Com o surgir da segunda revolução industrial, no séc. XVIII, tudo se acelerou. A população humana aumentou, desencadeou-se um progresso material sem precedentes, é verdade, mas ao mesmo tempo destruiu-se por todo o lado o meio ambiente.

Por isso, o Papa Francisco, e não só ele, tem falado com frequência dos males a que, atualmente, está sujeita a Terra, a nossa “casa comum”. E tem pedido que “a ciência e a religião, que fornecem diferentes abordagens da realidade, possam entrar num diálogo intenso e frutuoso para ambas” (LS 62).

Dentre os numerosos danos e riscos que hoje mais castigam a Terra escolheu Francisco os quatro que melhor exprimem o conjunto dos seus males.

O primeiro é a contaminação dos despejos dos novos processos produtivos. A natureza reutilizava tudo, ervas e folhas, ramos e fezes dos animais, fruta espalhada pelo chão e animais que se comiam uns aos outros… Mas controlar hoje sobretudo os despejos industriais ou manter a reutilização de antigos processos dá muito mais trabalho que ir ao Continente comprar um saco de adubo. A prejudicar a natureza, a fábrica despeja tudo para o rio que passa perto! Vão ver, de Guimarães a Famalicão, do Pevidém a não sei quê: passem pelos rios Ave e Vizela, e vejam o lixo da indústria têxtil! Ou então, vão a S. Pedro da Cova ver o que puseram dentro das minas abandonadas!

Em segundo lugar, o aquecimento climático: “Há um consenso científico muito consistente que indica que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático” (LS 23). A causa deste “preocupante aquecimento” está na maneira como o homem tem tratado a natureza. O atual modelo de desenvolvimento baseado na produção de energia a partir de combustíveis fósseis e da desflorestação é o grande causador do aquecimento do planeta, consequência da emissão de gazes que o provocam.

O terceiro prejuízo é a perda da biodiversidade, isto é, a extinção de muitas e muitas espécies de animais e plantas, causada pela  deterioração dos ecossistemas. Um ecossistema é uma área formada por um meio natural e pela comunidade de organismos animais e vegetais que o habitam. Se um ecossistema é atacado… Eu dou um exemplo: as cerejas ali de Cinfães – Resende – Penajóia são muito boas: mas, se se põe ali uma fábrica, os seus fumos, estradas, camiões pra trás e prá frente, lixos sólidos e líquidos, adeus cerejas! Pode também atacar-se a interconexão das espécies. Eu tenho um amigo que é “filho do asfalto e do cimento armado”: gostava muito de galinhas pica-no-chão…; então, fez-lhes uma gaiola muito bonita, de cimento, etc.; mas as galinhas não tinham bichinhos para picar-no-chão e morriam-lhe todas e ele não sabia porquê!… Os ataques feitos à interconexão das espécies, dizia eu, espécies tiradas dos seus ambientes próprios (um animal que vive no gelo glaciar não pode ser levado para o quente deserto africano), matam as plantas e os animais que equilibravam o ecossistema, etc., etc.

Em quarto lugar, a água, a irmã água. Não apenas a água da garrafinha! Fala-se aqui da água em geral, da água que há cada vez menos, em quantidade e que, muitas vezes e em muitos lugares, é nenhuma. A primeira vez que ouvi dizer que em África há lugares onde é necessário caminhar um dia — 24 horas !!! — para colher um pequeno cântaro de água potável…!!! A água potável e limpa é indispensável não só para beber, mas também para os ecossistemas terrestres e as zonas aquáticas. A sua corrupção gera doenças e mete na cadeia substâncias alimentares nocivas.

Todos estes prejuízos — o lixo, o aquecimento, a perda da biodiversidade e a falta ou corrupção da água — afetam, dia após dia, a vida na terra, no seu conjunto, e, de modo particular, os seres vivos mais indefesos. Dentro destes seres vivos contam-se também os pobres!

O Papa Francisco não se limita a denunciar os sintomas do prejuízo que estão a crescer no planeta Terra, e a matá-la. Acrescenta que “Os recursos da terra estão a ser depredados também por causa das formas imediatistas de entender a economia e a atividade comercial e produtiva” (LS 32).

A ambição económica que protege quase sempre apenas os interesses particulares prejudica com frequência o interesse comum. Por isso, o Papa Francisco é por vezes duro no que diz: «qualquer realidade que seja frágil, o meio ambiente por exemplo, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta» (LS 56).

“A economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas para o ser humano. A finança sufoca a economia real. Não se aprendeu a lição da crise financeira mundial e só muito lentamente se aprende a lição da deterioração ambiental… [Por isso é que] as raízes mais profundas dos desequilíbrios atuais … têm a ver com a orientação, os fins, o sentido e o contexto social do crescimento tecnológico e económico” (LS 109).

Numa última palavra!: existe um pensar segundo o qual se pode dar cabo do ambiente, pode-se fazer tudo, não faz mal nenhum! Isso é o que pensa o desenvolvimento puramente consumista e insustentável, que utiliza a técnica e a ciência para impor o domínio dos poderosos, degradando praticamente tudo, excetuando algumas coisas, é verdade, mas só em utilidade lucrativa.

No meio desta confusão, deste barulho, de toda esta sujidade, de toda esta exploração do homem rico ao homem pobre, se levantam os gemidos da terra e dos pobres.

E é necessário ouvi-los.

Arlindo de Magalhães, 14 de Maio de 2017

A bondade e perfeição

A encíclica Louvado sejas diz, logo no princípio, que a terra é “como uma irmã… como uma boa mãe” (LS 1) no âmbito das relações familiares. Assim como pessoas diferentes em tudo compõem uma família, assim o universo: tudo e todos “estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal” (LS 89).

O relato da criação do Génesis — que montámos aqui na Vigília Pascal deste ano — insiste na nossa origem comum. O laço de fraternidade que nos abraça não envolve só a humanidade; envolve tudo o que foi criado, toda a Criação.

Esse relato do Génesis não é uma teoria. “Tudo está relacionado. E todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra” (LS 92).

Esta afirmação está presente, digamos, em todo o texto da encíclica e pode ser interpretada como um dos eixos de compreensão da mesma, assim como uma premissa a partir da qual se tiram consequências necessárias ao nosso “bem viver”.

Isto tem de ser levado a sério. Trata-se, de facto, de um dado sólido avalizado pela ciência. Nos mais diversos campos, a comunidade científica afirma hoje que a origem do universo remonta a um momento único, o Big Bang, acontecido há 13.800 milhões de anos. Diz também a comunidade científica que a vida apareceu na Terra há 4.000 milhões de anos e que as diversas espécies — vegetais e animais — surgem por diferenciações progressivas mas a partir de troncos comuns. Poderíamos — mas eu não sou cientista — continuar a referir aqui numerosas certezas semelhantes a estas duas, sustentadas pela ciência.

A isto chegou ou chega a ciência. Mas os místicos, — sim, os místicos! —, por sua vez, conseguem um olhar penetrante sobre a realidade que, com frequência, lhes permite chegar a uma verdade profunda sem recorrer a longos raciocínios e estudos. A fé permite-lhes chegar muito mais para lá do mundo visível e ver com muito mais clareza.

Para S. Francisco de Assis, por exemplo, “qualquer criatura era para ele uma irmã, unida a ele por laços de carinho. Por isso, sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe” (LS 11).

São Boaventura, seu discípulo, contava que, “enchendo-se da maior ternura ao considerar a origem comum de todas as coisas, dava a todas as criaturas – por mais desprezíveis que parecessem – o doce nome de irmãos e irmãs” (LS 11).

A ser assim, se tudo está conectado, então todas as realidades têm sentido e valor, cada uma é como é, sempre diferente das mais, mas sempre parte de um conjunto. Nada é demais, nada é avarento, nada é mesquinho. Cada coisa tem a sua bondade e a sua perfeição.

Por outro lado, a degradação de qualquer realidade ou a sua decomposição em unidades de menor complexidade empobrece o universo. Nada é supérfluo. O Evangelho regista uma palavra de Jesus: “Não se vendem cinco passaritos por duas moedas? Pois bem! Mas Deus não se esquece de nenhum deles“ (Lc 12,6).

Cada realidade do cosmos tem o seu significado e a sua função e possui dignidade.

Daí se concluiu o erro de um “antropocentrismo despótico” desentendido das demais criaturas; isto é, o ántropos> homem, colocado no meio do mundo, pode fazer tudo o que lhe apetece. Não, não pode: “O fim último das restantes criaturas não somos nós (os homens). Mas todas avançam, juntamente connosco e através de nós, para a meta comum, que é Deus” (LS 83). Daí que, quanto mais frágil seja uma coisa criada por Deus, maior deva ser o cuidado a ter com ela. Como dizia já o Livro do Deuteronómio: “Se encontrares no caminho, em cima de uma árvore ou no chão, um ninho de pardais com filhotes ou com a mãe a chocar os ovos, não apanharás nem a pardala nem a ninhada” (Dt 22,6).

Isto possibilitará até uma melhor defesa do valor de cada ser humano também criado por Deus e feito à sua imagem e semelhança.

Sermos parte desta grande família, mas a nossa autonomia sobre ela não é absoluta. Não podemos “considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e nela nos compenetramos”.

É por isso que “O conjunto do universo, com as suas múltiplas relações, mostra melhor a riqueza inesgotável de Deus” (LS 86).

Arlindo de Magalhães, 23 de Abril de 2017

Humanidade

Safet Zec

Tudo começou em 1971, quando Paulo VI, na Carta Apostólica Octogesima Adveniens, escreveu assim: “Por causa da exploração inconsiderada da natureza, o homem começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser também vítima dessa degradação”. Isto é: a continuar a tratar assim a natureza, o homem atual pode começar a dar cabo de si próprio; e não precisa para tal de bombas atómicas, que as há.

Na Encíclica Louvado sejas, o Papa Francisco escreveu: “Todas as comunidades cristãs têm um papel importante a desempenhar na educação para a responsabilidade ambiental” (214). Um pouco adiante, acrescentou: ”Deus criou o mundo, inscrevendo nele uma ordem e um dinamismo que o ser humano não tem o direito de ignorar” (221).

Mas, no mínimo, o que está a acontecer é que “A terra, a nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo” (21).

Um dia destes (2017.03.28), o jornal que leio diariamente publicava um trabalho a duas páginas, com este título, em parangonas: “Corais estão a morrer e a culpa é nossa”.

Não vou agora explicar, mas…

Sabemos todos o que são corais: pequeníssimos animais coloniais que amontoados formam verdadeiros rochedos e vivem nos mares quentes, a uma profundidade razoável…, aqui ao lado, em Aveiro, por exemplo. Estes bichinhos são muito antigos no planeta: 400 milhões de anos!. E vivem, a certas temperaturas, no meio de algas que lhes dão belíssimos coloridos. Mas, se a temperatura das águas sobe, eles perdem a coloração, ficam brancos e morrem. Ficam sem acesso a nutrientes. É o que está a acontecer de há 80 anos para cá.

E que mal tem isso?

Tem que “Um mundo sem recifes de coral é um mundo em que a extinção humana [— o desaparecimento do homem —] neste planeta está cada vez mais próxima. Mas ainda vamos a tempo de nos salvar, começando por salvar os recifes de coral!” – diz o autor do artigo.

Quando li esta ameaça — “Um mundo sem recifes de coral é um mundo em que a extinção humana neste planeta está cada vez mais próxima” — andava o Pe Anselmo Borges a publicar num outro jornal umas curiosíssimas páginas sobre Transhumanismo e Pós-humanismo.

Que raio de palavras são estas?

Humanismo tem a ver com o homem; trans é uma preposição latina que significa “além de”: Transporte é o metro do Porto ou a camioneta do Vinhas que “levam para …”, isto é, transportam para um sítio diferente daquele em que se está quaisquer bens ou pessoas. Transhumanismo é, portanto, um entendimento do mundo e do homem muito diferente do humanismo que conhecemos e em que vivemos — sabe Deus como! —, que nasceu pelos séculos XV e XVI e veio até ao nosso tempo.

Pós-humanismo (depois do humanismo) é algo que está para além do humanismo tal como o entendemos hoje. Vou dar um exemplo: no nosso mundo ou em certos mundos, o dinheiro é, quase sempre, muito mais importante que o homem. Mas o verdadeiro humanismo entende que no centro do mundo deve estar o homem e não o dinheiro! Ponto final.

O transhumanismo apresenta-se como o fruto da terceira revolução industrial (a 1ª aconteceu entre o séc. XV e o XVIII; a 2ª, de meados do séc. XVIII até ao nosso tempo; a 3ª está a começar: desaparecerá o homo sapiens). “Os futuros senhores da Terra serão, provavelmente, mais diferentes de nós do que nós o somos dos nossos antepassados”. Com a engenharia genética, produziremos porcos com gorduras boas, será possível criar ratos verdes e fluorescentes e superinteligentes. E se isso é verdade, “porque não fazer seres humanos também superinteligentes?”. O mais revolucionário será a possibilidade de ligar um computador a um cérebro humano, captando sinais do cérebro de outrem.

Novas tecnologias permitem pensar que, em breve, transformar e melhorar a espécie humana deixou de ser ficção. Uma investigadora destas ciências diz assim: “Pode ser que pela primeira vez o homem seja capaz de mudar o seu próprio código genético e a longo prazo concretizar o sonho de melhorar a nossa espécie. Não vamos ser imortais, mas poderemos ser super-homens”.

E haverá depois os robots a substituir os humanos em funções de trabalho. Se forem robots ao serviço unicamente do homem…!

Tudo isto modificará muita coisa. O Parlamento Europeu já estuda um estatuto legal para os conter.

Tenho consciência de que isto que acabo de dizer provoca hoje a mesma reação que se levantou no século XIX quando Júlio Verne (1828-1905) escreveu  romances como “Da Terra à Lua” ou “Paris no séc. XX”. Muitos se riram dele, mas ele tinha razão.

Com o Transhumanismo e o Pós-humanismo surgirão graves problemas filosóficos, éticos, políticos e religiosos. Porque:

«A fé permite-nos interpretar o significado e a beleza misteriosa do que acontece. A liberdade humana pode prestar a sua contribuição inteligente para uma evolução positiva, como pode também acrescentar novos males, novas causas de sofrimento e verdadeiros atrasos. Isto dá lugar à apaixonante e dramática história humana, capaz de transformar-se num desabrochamento de libertação, engrandecimento, salvação e amor, ou, pelo contrário, num percurso de declínio e mútua destruição. Por isso, a Igreja, com a sua ação, procura não só lembrar o dever de cuidar da natureza mas também e «sobretudo proteger o homem da destruição de si mesmo» (79).

E «todas as comunidades cristãs têm um papel importante a desempenhar nesta educação. Espero também que, nos nossos Seminários e Casas Religiosas de Formação, se eduque para uma austeridade responsável, a grata contemplação do mundo, o cuidado da fragilidade dos pobres e do meio ambiente. Tendo em conta o muito que está em jogo, do mesmo modo que são necessárias instituições dotadas de poder para punir os danos ambientais, também nós precisamos de nos controlar e educar uns aos outros» (214).

É por isso que, neste dia de Páscoa, repito o que já disse aqui muitas vezes: respondendo ao apelo do Papa Francisco, continuaremos a debruçar-nos sobre este tema com a atitude com que o Papa começou esta encíclica: ”Louvado sejas, Senhor!”.

Arlindo de Magalhães, 16 de Abril de 2017

 

As celebrações do Tríduo Pascal

Georg Baselitz, ‘Kreuz mit Herbstastern’, 1963

1º dia do Tríduo – O Senhor Crucificado

Celebração da Ceia do Senhor (5ª feira, às 21H30)

A celebração do 1º dia do «Tríduo Santíssimo do Senhor Crucificado, Sepultado e Ressuscitado» — assim se exprimia Sto. Agostinho — começa com a celebração da «Ceia do Senhor», em tarde (ou noite) de 5ª feira.

Nela se faz memória da Ceia Pascal de Jesus com os Discípulos, da entrega do Mandamento Novo (sublinhada com o gesto do lava-pés), da advertência à atitude cristã do serviço e da instituição da Eucaristia.

Fazemos anteceder esta celebração de um ritual que nos põe em sintonia com a Páscoa da Antiga Aliança, etapa histórica importantíssima da Páscoa Cristã. É a História da Salvação resumida numa Ceia que reúne os Irmãos em Alegria e Sobriedade, apressadamente, pois que é necessário iniciar a celebração do Tríduo.

 

Como fazer a Ceia?

É necessário começar pontualmente às 20H45. Cada um trará, por si ou por outrem, só a quantidade de alimentos que comer; tudo o que sobrar será queimado. Que alimentos? Apenas frango assado (ou cozido, se for caso de dieta) e ervas (saladas verdes ou hortaliças cozidas). A Comunidade porá à disposição pão, vinho e água. Não se permitirá a entrada na mesa de mais nada.

A refeição terá de ser comida apressadamente: as pessoas vêm do trabalho e vão para a celebração, que é preciso preparar. Por isso, às 21H15 tem de estar a ‘comida’ terminada. Esta refeição não é propriamente de festa: um ambiente de certo recolhimento deve ser criado.

 

Celebração da Morte do Senhor (6ª feira, às 21H30)

A segunda celebração do Tríduo faz ainda parte do 1º dia do Tríduo: é a celebração da Morte do Senhor, que, segundo o relato evangélico, ocorreu por volta das três da tarde. Assim, esta celebração deveria ocorrer por essa hora. Só o facto de grande parte da Comunidade estar então a trabalhar nos obriga a deslocá-la para a noite.

Há alguns anos que, entre nós, esta celebração é antecedida de uma refeição de jejum de pão, água e uma maçã, na consonância com a Morte do Senhor (às 21H00).

O jejum visa a disponibilização do espírito para Deus e a recolha de bens a partilhar com os irmãos que deles necessitam e que, nos dias que correm, não são poucos. Assim, no fim da refeição, far-se-á a coleta, que será integralmente entregue ao Serviço da Partilha Fraterna. E cada um trará um pouco de pão. A água pô-la-á a Comunidade.

 

 

2º dia do Tríduo  – O Senhor sepultado

O Sábado do Tríduo ficou sempre um dia sem Liturgia; desde a mais remota antiguidade que é um dia de silêncio e jejum, de profunda reflexão nas igrejas.

 

 

3º dia do Tríduo, o 1º da semana – O Senhor ressuscitado

  1. Celebração da Vigília Pascal (Sábado, às 21H30)

A celebração deste último dia do Tríduo começa com a Vigília Pascal, que, no princípio, se iniciava por alturas do pôr-do-sol e durava toda a noite.

Esta celebração é, por assim dizer, uma celebração quádrupla: da Luz, da Palavra, da Água (batismal) e da Eucaristia.

Terminada a grande celebração da Vigília, juntar-nos-emos em convívio alegre à volta da mesa, traduzindo assim a alegria da Ressurreição. Este convívio terá uma «cor» completamente diferente da Ceia de 5ª feira e, por maioria de razão, da refeição de 6ª. Pensamos numa reunião fraterna e alegre à volta da Mesa Comum onde, alta noite e depois de uma longa celebração, possamos «petiscar» qualquer coisa, «beber um copo» ou mesmo aquecer com um caldo verde ou um chá, do que o cuidado fraterno for capaz. No caldo e no chá, os serviços da comunidade pensarão, sendo possível; tudo o mais estará ao cuidado de cada um.

 

  1. Celebração do Dia (Domingo, às 11H00)

Esta celebração seria uma evidente duplicação para quem celebrou a Vigília até alta madrugada: mas, de facto, alguns irmãos não poderão estar na celebração noturna.

Tríduo Pascal

Trifólio, tridente, trienal, tricampeonato, tem tudo a ver com tri (latim); tríduo deriva do latim tri+dies (três dias). Mas, afinal, o Tríduo Pascal tem quatro dias: 5ª, 6ª, Sábado e domingo (de Páscoa), tudo dias “santos” (5ª feira santa, 6ª feira santa, etc.), são quatro dias, e não três?

Explique-se. De facto, o Tríduo Pascal são três dias. Vamos lá ver.

Antigamente, não havia relógios a não ser “de sol”: só trabalhavam quando havia sol. Mesmo assim…

Mas, antigamente ainda, os dias começavam e acabavam sempre com o pôr-do-sol, não à meia-noite; era aí, ao pôr-do-sol, que começava um dia e acabava outro. No fim da tarde (que no Verão era muito tarde e no Inverno muito cedo), acabava um dia e começava outro.

Sendo assim, no pôr-do-sol da nossa 5ª feira começou a 6ª feira antiga, que durou até ao pôr do dia seguinte. Foi o primeiro dia do tríduo.

No pôr-do-sol seguinte, acabava a 6ª feira e começava o Sábado, que terminava no pôr-do-sol do segundo dia do tríduo.

E começava então o terceiro dia do tríduo, aquele em que Jesus ressuscitou, “o primeiro dia da semana”.

Três dias, portanto. No primeiro, recordava-se a Páscoa judaica que Jesus celebrou com os discípulos: aí o Mandamento Novo e o lava-pés, bem como a sua morte (à hora no[n]a dos antigos, 15 horas para nós, antes, portanto, do pôr-do-sol). Mas ainda no primeiro dia — “estava mesmo a começar o Sábado” (Lc 23,54) — o cadáver foi sepultado (Lc 23,53). Tudo no “primeiro dia”. Ainda tiveram tempo, as mulheres, de preparar aromas e perfumes para, depois do Sábado, que era o dia sagrado dos judeus, irem ungir o cadáver como costumavam fazer os mesmos judeus.

No segundo, nada!, portanto, silêncio absoluto! O Senhor está morto, sepultado. E “durante o Sábado observaram o descanso, conforme o preceito” (Lc 23,56).

No terceiro, isto é, “no primeiro dia da semana, ao romper da alva, as mulheres foram ao sepulcro e levavam os perfumes que tinham preparado…” (Lc 24,1). Encontraram a pedra do túmulo removida, Ressuscitou! Não está aqui! Aleluia!, aleluia! E foi o terceiro dia!

Resumindo. No primeiro: da ceia ao sepulcro; no segundo: um silêncio sepulcral!; terceiro: aleluia! aleluia!, ressuscitou!

Nós sabemos que os primeiros cristãos desde aquele dia passaram a celebrar em todos “os primeiros dias da semana” a ressurreição de Jesus. Foram os judeus que criaram a semana (não vamos aqui falar disso hoje) com os seus sete dias, sendo o Sábado o último. Jesus ressuscitou num “primeiro dia”.

 Mas  sabemos que, pelo menos nos meados do séc. II, os primeiros cristãos, pelo menos os de Roma, já celebravam uma Páscoa anual. Como é que não. É claro que nestes tempos primeiros — não havia nem missais nem tabletes — as igrejas não eram conformes na Liturgia. Ela, de resto, estava ainda a criar-se.

Aconteceu entretanto que, no séc. IV, uma mulher aqui de cima, da Galiza, Egéria ou Etéria, resolveu ir a Jerusalém em peregrinação. E quando lá chegou… encontrou uma maneira, digamos, teatral de celebrar a Páscoa. Teve Etéria o bom senso de apontar tudo no seu Itinerarium, como é que lá se celebrava a Páscoa.

Naquele Lugar Santo, nos ipsissima loca [nos mesmíssimos lugares] da Paixão e Morte de Jesus, recordavam-se, a par e passo e nos exatos sítios onde se haviam desenrolado, os episódios vários da Paixão e Morte do Senhor. Era um verdadeiro drama revivido liturgicamente num Triduum Sacratissimum Crucifixi, Sepulti et Ressuscitati (tríduo sacratíssimo do crucificado, sepultado e ressuscitado), na expressão de Santo Agostinho.

Tudo se fazia segundo a contagem antiga do tempo: o dia iniciava-se com o pôr-do-sol do dia anterior.

  1. Assim sendo, o Tríduo Pascal começava com a Cœna Domini (a Ceia do Senhor). Nesta celebração, os cristãos celebravam a Última Ceia de Jesus com os Discípulos, como mandava o Antigo Testamento (Ex 12). Mas foi aí que Jesus lhes lavou os pés e entregou o Mandamento Novo (Jo 13,1-11 e 33-35).

Para além desta, não havia, de início, qualquer outra celebração nos dois primeiros dias do Tríduo. Eram para a Igreja dias de jejum e silêncio rigoroso.

Entretanto, surgiria, também em Jerusalém, no final desse primeiro dia do Tríduo (ainda 6ª feira, donde a Sexta Feira Maior), uma segunda celebração, esta da Morte do Senhor, que, no entanto, nunca foi eucarística e sempre teve um acento fortemente episódico. Recomendava-se, por isso, às três horas ou cinco da tarde, antes do pôr-do-sol. Nós passámo-la para a noite, que é um dia de trabalho.

Esta liturgia conserva o esquema das antigas reuniões de oração sem celebração da Eucaristia: Liturgia da Palavra, Preces ou Oração Universal, Serviço de comunhão.

Entretanto, pelo século VII, vindo do Oriente, também de Jerusalém, introduziu-se-lhe o rito da veneração da Cruz. No início, naquela cidade, tratava-se mesmo de uma relíquia da verdadeira Cruz (?). Depois, pouco a pouco, este rito foi-se espalhando por todo o mundo cristão, feito não já com uma relíquia autêntica mas com um crucifixo.

  1. O Sábado, o segundo dia do Tríduo ficou sempre sem Liturgia própria: é desde a mais remota Antiguidade um dia alitúrgico, de silêncio e jejum, de profunda reflexão nas Igrejas e preparação da Liturgia da noite.
  2. No terceiro dia, “terminado o Sábado, ao romper do primeiro dia da semana” (Mt 28,1), a Ressurreição. Começava com uma Grande Noite: “4 em 1”!

Celebração da LUZ

Celebração da PALAVRA

Celebração da ÁGUA (Batismo)

Celebração da EUCARISTIA

Noite de toda a alegria, nos bons velhos tempos, a celebração da Vigília era sempre seguida de um ágape (refeição comum, fraterna) que rompia o jejum quaresmal e abria o Tempo Pascal da grande alegria.

Arlindo de Magalhães, 2 de Abril de 2017

O primeiro dia da semana

Rupnik, Resurrection of Christ | College of St. Stanislaus Ljubljana

Paramos a encíclica Louvado sejas do Papa Francisco, que temos o Tríduo Pascal à porta.

Sabemos todos — de Marcos a João — que foi no primeiro dia da semana que ele ressuscitou: “Terminado o sábado, ao romper do primeiro dia da semana… o anjo disse-lhes… Não está aqui. Ressuscitou!” (Mt 28,1). “De manhã, ao nascer do sol, muito cedo, no primeiro dia da semana, … um anjo disse-lhes: Ressuscitou!” (Mc 16,2). “No primeiro dia da semana, ao romper da alva… Não está aqui, ressusctou!” (Lc 24, 1). “No primeiro dia da semana…  logo de manhã, ainda escuro… e Maria Madalena, a correr…” (Jo 20,1).

De facto, tanto “primeiro dia da semana”! Mas há mais.

“Oito dias depois” (Jo 20,26), portanto, noutro primeiro dia da semana; “Tendo ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana”, insiste Marcos (16,9). Os Atos contam que “no primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o pão…” (20,7).

A importante importância do primeiro dia da semana!

“No primeiro dia da semana…” dirige-se Paulo aos de Corinto (1Cor 16,2).

Só o Apocalipse (1,10) refere o primeiro dia da semana utilizando uma expressão diferente: “No dia senhorial…”, isto é, no dia do Senhor… dies domini > dies dominialis > domingalis > chegamos ao domingo.

“Tendo ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana”, “dia do Senhor”, “estávamos nós reunidos para partir o pão”.

Que faziam então os cristãos no primeiro dia de semana? Atenção que nenhum destes textos que utilizámos tinha mais de 50/60 anos! Quer dizer que, muito antes do fim do séc. I, já os primeiros cristãos faziam o que Jesus lhes tinha dito — “Fazei isto em memória de mim” (Jesus só lhes disse que fizessem “isto”, não no “primeiro dia da semana”; isso resolveram-no eles), — no primeiro dia da semana, dia da Ressurreição. Era no primeiro dia da semana, no dia da Ressurreição, que os primeiros cristãos respondiam ao “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19).

56 “primeiros dias da semana” por ano a celebrar a Ressurreição do Senhor!

E se, uma vez por ano, “fizéssemos o nosso melhor”?, uma festa especial e  maior da Ressurreição do Senhor?!

Pois é isso que vamos fazer! O nosso melhor. Nem preto nem roxo, branco! Mas quando?

Branco só na Primavera: há malmequeres, jarros, gardénias, rosas, azáleas, camélias, cravos, crisântemos, flor de sabugueiro, gipsofila, mas tudo branco, jacintos,  jasmins, lírios, dálias, flor de laranjeira, sei lá que mais, tudo branco, até os paramentos, porque o Senhor ressuscitou, aleluia! aleluia!; venha a água, pois sem ela não há vida; fora com a cinza, cantar e dançar, alegria; depois do Inverno duro e frio, a Primavera suave e luminosa, as religiões escolhem todas! o sol, venha o sol; o pão sem fermento, pão novo, o da primeira colheita, o renascimento da Primavera; cantemos…

Este foi o raciocíno dos nossos pais, dos primeiros seguidores de Jesus.

A festa da Primavera, originária da Caldeia, aquela rica região do delta dos rios Tigre e Eufrates, terra de grandes culturas, todos os anos se celebrava, no ciclo cósmico da Natureza; era a festa da Novidade. Introduzida na cultura judaica, era já celebrada no exílio do Egito: ofereciam-se a Iavé as primícias do rebanho e do campo, o cordeiro e a primeira cevada, costumes de civilizações primitivas, de pastores e agricultores. Comia-se o cordeiro assado no fogo, com pães sem fermento e ervas amargas. E bebia-se vinho misturado com água.

Fiéis à memória dos seus antepassados, os filhos de Israel, recordados da libertação do Egito, carregaram então a festa cósmica da Páscoa com a celebração da libertação: “Conservareis a memória deste dia, celebrando-o como uma festa em honra do Senhor: fareis isto de geração em geração, pois é uma instituição perpétua” (Ex 12,14). É o que significava o rito observado pelos judeus, no qual o filho mais novo da casa perguntava formalmente ao adulto mais idoso qual a significação de quanto se passava, ao que este lhe respondia: “É o sacrifício da Páscoa em honra do Senhor” (Ex 12,26).

O ritual da Páscoa conservou-se assim praticamente igual ao da Festa da Primavera da Caldeia pagã: cordeiro e pão ázimo, isto é, pão absolutamente novo, sem nada velho, nem fermento sequer. Havia, porém, uma diferença essencial: a festa judaica assentava na História, na Libertação do Povo, enquanto que a Festa caldaica da Primavera era a celebração do ciclo repetitivo da Natureza. Nesta última celebrava-se o eterno retorno da Natureza; na judaica, o avanço do caminho histórico; aqui, há uma Natureza que se renova; ali, um Povo que avança, não obstante as dificuldades do Mar e do Deserto, rumo à Terra Prometida.

Este ritual perdurou através dos séculos: ao tempo de Jesus, celebrava-se assim a Páscoa, tal como se lê no Evangelho de Lucas (22,7/20).

Com a Morte e Ressurreição de Jesus, o maior acontecimento da História da Salvação, foi isso que os cristãos passaram a celebrar, sempre sem perder nada de vista: toda a memória de toda a história anterior.

Permitam-me que saliente uma coisa: nós temos história a celebrar, recordamos eventos. Os caldeus não, esses era “vira o disco e toca o memo”.

Quer isto dizer que só se pode celebrar a Páscoa se há quê e porquê. Esta celebração fazêmo-la ainda nós, hoje, e de duas maneiras, fundamentalmente:

1 — Recordamos a ceia pascal caldaica e depois judaica (a que Jesus celebrou com os discípulos);

2 — recordamos esse gesto de lavar os pés aos irmãos;

3 — recordamos a morte e ressurreição de Jesus;

4 — recordamos a celebração do Batismo, especial conformação com a Morte e Ressurreição, sacramento que é de morte para o Homem Velho e Vida para o Homem Novo (ver Rm 6,1/11);

5 — cumprindo o recado do Senhor — fazei isto em memória de mim (Lc 22,19) — com pão de trigo sem fermento comemos o pão de que necessitamos para o Caminho.

É a solenidade das solenidades e a festa das festas. Dela nasceria todo o ano litúrgico.

Cantemos com alegria…

Arlindo de Magalhães, 24 de março de 2017

Uma relação fraterna

Serra da Arrábida

“Enchei a Terra e dominai-a” (Gn 1,28).

A esta tarefa apontada ao Homem, criado à Imagem e Semelhança de Deus, é preciso acrescentar o que explica o segundo relato da Criação quando diz que o Éden foi entregue por IAVÉ ao Homem, mas “para ele o proteger e guardar” (2,15).

Na afirmação do próprio texto bíblico, portanto, o poder de dominar e transformar a Natureza é limitado, contrariamente ao que se pensou durante muito tempo. Francis Bacon, filósofo inglês (1561-1626), afirmava que “saber é poder”, isto é, “o poder do Homem sobre todas as coisas” depende “totalmente das artes e da ciência”. Em nome deste princípio é que … tudo o que se podia fazer era lícito ou devia mesmo fazer-se.

Mas foi exatamente esta mentalidade que levou ao desequilíbrio ecológico (que é também um desequilíbrio económico, social, cultural e humano, numa palavra) que pode acabar num colapso de todo o planeta (não se pense que só o nuclear pode destruir as condições da Vida) e que, sendo uma verdadeira profanação da Natureza, é uma blasfémia contra o Criador.

Para além de tudo isto, a possibilidade científica e técnica da exploração ilimitada e incontrolada da Natureza tornou o Homem vítima da ambição e da exploração, bem como originou um verdadeiro desperdício que inconscientemente ele leva a cabo.

A exploração da Natureza feita com o fito de, sem limites, aumentar a produção tem como consequência a destruição da mesma Natureza; e, destruída a Natureza, desapareceriam as condições da vida do Homem no planeta. Por isso surgiu a moderna ciência da Ecologia (palavra que deriva de oikos > casa + logos > palavra ou tratado da Casa do Homem).

Os variados movimentos ecológicos vão entendendo que a Natureza é a CASA DO HOMEM e os consequentes movimentos ecológicos e a sua tradução política, os partidos, bem como as modernas ciências do Ambiente, começam a pregar a sua preservação, defesa e promoção, exatamente porque Homem e Natureza estão intimamente interligados.

Esta nova área do saber e da preocupação (política) do Homem moderno tem duas vertentes muito importantes que refiro rapidamente:

  1. A Ecologia é, antes de mais, um fenómeno crítico.

A depravação da Natureza e do Ambiente está a atingir níveis altamente preocupantes.

A partir da revolução industrial, nos fins do séc. XVIII, o meio ambiente sofreu um acelerado processo de degradação, causado essencialmente pelo vertiginoso aumento demográfico e pelas sucessivas conquistas da ciência e da técnica que permitiram ao homem não só dominar mas também destruir o meio ambiente. Os fumos das fábricas, os escapes dos automóveis, os efluentes industriais, as experiências nucleares, os esgotos, os derrames de petróleo no mar, a urbanização desenfreada, o esgotamento dos recursos naturais (especialmente dos “combustíveis fósseis”), a intoxicação dos pesticidas (o célebre DDT, que provocou, por exemplo, a extinção de grandes quantidades de aves de rapina por causa da sua ação nociva sobre as cascas dos ovos, foi já encontrado laboratorialmente nas neves do Alasca e nos oceanos!), a destruição da fauna e da flora, os ruídos exagerados, a alteração da cadeia alimentar no termo da qual o homem se encontra, etc., etc., etc., trouxeram a este séc. XXI problemas de saúde física e mental de difícil solução e graves consequências.

Para além disso, na corrida louca para a industrialização, foram aniquiladas comunidades inteiras, de modo que muitos padrões culturais e sociais foram destruídos, sem que antes tivessem sido criados outros em alternativa. A vida urbana reflete particularmente todo este processo de degradação através do aparecimento cada vez maior de práticas antissociais que saem muito caras não só nem principalmente em termos económicos, mas sobretudo porque são negação de uma vivência saudável em comunidade.

Enquanto isto, as relações de equilíbrio biológico entre solo, água e atmosfera, que são muito estreitas, estão gravemente alteradas.

Etc., etc., etc.

A depravação da Natureza e do Ambiente está a atingir níveis altamente preocupantes – dizia.

Esta denúncia, para a qual não estávamos preparados nem de que somos ainda capazes, tem sido suscitada e mesmo feita em muito grande parte pelo recente movimento ecológico.

  1. Mas a ecologia é também um conceito e uma prática relacional.

A Natureza é a nossa Casa. E a nossa vida está interligada e muitas vezes dependente das espécies animais e vegetais e do ambiente em geral (o sol, a água, a terra). Para o homem, esta ligação é natural e é cultural; não se resiste ao frio no pino do inverno nas alturas do Barroso transmontano da mesma forma que um magrebino suporta o calor do Sará, no pino do verão. E esta resistência tem a sua tradução cultural: na habitação, no vestuário, na alimentação, nas festas, etc. Por isso é que o nível cultural do homem depende dele e nele se revela – do modo como ele respeita e desenvolve esta relação íntima com a Natureza em que se insere e a que está ligado, originando tanto a qualidade do ambiente como o da vida que vive.

É para esta relação Homem/Natureza que a Ecologia vem chamando a atenção. Que se o homem está nela equilibradamente inserido, tudo bem. Mas se esta relação é destruída, é o homem que destrói o seu ambiente e nega as suas condições biológicas., bem como as próprias raízes humanas e culturais.

Francisco de Assis (séc. XIII) foi muito justamente proclamado “patrono da Ecologia”, exatamente pela sua capacidade de relação “fraterna” com a Natureza: ele que tão “fraternalmente” se relacionava com “o Irmão Sol”, a “Irmã Água”, a “Irmã Terra”, a “Irmã Lua “…

Arlindo de Magalhães, 19 de Março de 2017

A Natureza

Lagoa do Canário, São Miguel – Açores

Nas religiões e culturas primitivas, a Natureza era considerada como o «lugar divino»[1] por excelência: «o céu e a terra» foram sempre, de facto, desde as origens, a grande manifestação e a morada dos deuses. Sentindo a sua vida ameaçada pelos rios e pelos astros, pelo mar, sabendo-se incapaz de enfrentar vitoriosamente os «elementos do mundo» ou ainda de canalizar as suas energias, os homens, para afastar o temor que lhes incutiam, reverenciavam-nos. Esta primeira atitude do Homem diante da Natureza foi, portanto, uma atitude religiosa, comandada embora pelo medo e pelo utilitarismo.

Deus criou o Mundo para o Homem — pensaram assim os nossos antepassados: a sua beleza, a regular idade do ciclo dos astros e das estações…! — mas, sempre que preciso, a mando de Deus, o Mundo castigava o Homem (tempestades, terramotos, vulcões, tufões e vórtices, tsunamis…).

Por um lado, o espetáculo da grandeza e da beleza do mundo, o regular funcionamento do ciclo dos astros e das estações; do outro, o poder do vento, das tempestades, dos tornados aos…, mas que Deus é este?, não será isto um castigo de Deus?

O livro do Génesis, entretanto, regista o enorme esforço dos homens, que, de geração em geração, cresceram no domínio da Natureza e na alegria dos seus recursos. É a história das culturas e civilizações.

O progressivo domínio da Natureza deu ao Homem o poder de explorar os seus recursos, o que teve fundamentalmente dois tipos de efeitos:

– primeiro, os frutos desse domínio não foram e continuam a não ser igualmente repartidos por todos os homens, apesar dos esforços de montes de gente, analistas e militantes, responsáveis políticos, instâncias humanitárias e eclesiais, no sentido de fazerem progredir, nas mentalidades e na prática, a ideia de que a terra pertence a todos e de que, por conseguinte, todos têm direito, segundo modalidades a determinar, a beneficiar dos seus frutos;

– depois, a exploração sistemática dos recursos naturais começou a conduzir ao esgotamento das reservas energéticas e das matérias primas, e originou graves atentados à paisagem, ao solo, ao mar e ao espaço, bem como encheu de «lixo» toda a superfície e atmosfera do globo. E o Homem foi de novo obrigado a interrogar-se pela sua relação com a Natureza. De resto, começou a sentir-se ligado a ela mais do que supunha; descobriu-a como «condição» e «meio» da sua vida e começou a perceber também que tinha de a respeitar; que em vez de delapidar os seus recursos, tinha de os gerir conscientemente. E que as urgências maiores são agora o respeito, a conservação e a proteção da Natureza. Numa palavra, que «não basta limpar o exterior do prato e do copo se o interior está cheio de rapina e malvadez» (Mt 23,25).

Por isso, urge, antes de mais, tomar consciência da amplidão do desastre já cometido e do perigo que se continua a correr. À poluição que por todos os lados se topa podem juntar-se o crescente perigo nuclear (os desastres com centrais deste tipo acontecem um pouco por todo o lado), as sucessivas marés-negras e as desflorestações maciças (a Amazónia é apenas um caso), a rutura da camada de ozono, as chuvas ácidas, que são algumas das questões para que temos vindo a ser alertados. Mas mais: o homem primitivo temia a Natureza e seus poderes maléficos, que atribuía aos deuses; mas o homem contemporâneo sabe-se o autor desses poderes maléficos, verdadeira Caixa de Pandora aberta pela sua inconsciência, incompetência e inabilidade, donde saíram muitos males e pode mesmo sair o poder destruidor final. E é preciso também tomar consciência de que, contrariamente ao que se pensava, os recursos da Natureza não são ilimitados, e que o progresso material e o desenvolvimento técnico não são, sem mais, a priori, positivos. Isto é: nem tudo o que pode ser feito deve ser feito, e nem tudo o que traz (aparente) benefício para o homem deve ser feito. Doutro modo ainda: nem impotente diante da Natureza, nem todo-poderoso contra ela; o Homem é antes o responsável da sua própria existência, que não pode viver a não ser na Natureza e com a Natureza.

Hoje em dia, pode dizer-se que a relação do Homem com a Natureza não mais será regulada nem por um simples deixar-correr apoiado nas leis da mesma Natureza e no comportamento espontâneo dos homens, nem apenas pela ciência e pela técnica, mas sim por uma ética. Só uma ação humana responsável — capaz de anunciar quer valores quer normas — pode alterar o presente estado de coisas.

Em primeiro lugar, é preciso conseguir na geração presente uma atitude fundamental de sobriedade e respeito para com a Natureza, contrária a qualquer tipo de delapidação irresponsável, o que não exclui uma utilização razoável orientada por critérios de procura do melhor benefício possível para a Humanidade.

Depois, é preciso gritar que o verdadeiro adversário da Natureza é, na civilização atual, não a técnica mas a economia. De facto, a procura de um melhor poder de compra e de um maior conforto, e o aumento exagerado dos lucros, fazem com que seja a economia que, antes de mais nada, tenha de ser metida na ordem.

Em terceiro lugar, urge desacelerar a procura desenfreada do lucro económico e mesmo, numa certa medida, do progresso técnico. Isto é: o móbil do mundo moderno é o de realizar o tecnicamente possível e de conseguir o economicamente vantajoso. Mas isto, sem mais, não pode continuar.

Não mais é possível levar a cabo quaisquer iniciativas só porque são tecnicamente possíveis e dão lucro aos seus promotores: as decisões a tomar têm de ter em conta as verdadeiras necessidades do maior número possível de homens.

Depois, impõe-se absolutamente o respeito pelas gerações futuras.

Nunca como hoje o homem esteve tão claramente na situação de se perceber como responsável tanto pelo seu destino como pela sua própria vida. Nunca como hoje o homem esteve em condições de verificar em que medida a Humanidade é una. Nunca como hoje, no auge do seu poderio técnico, económico e político, o homem viu tão claramente quanto esta grave questão lhe exige uma ética e o põe na perspetiva da dimensão religiosa. O anúncio bíblico do Deus único, Senhor e Autor do mundo, confiado à Humanidade criada «à sua imagem e Semelhança», que, com a sua Graça, caminha para a perfeição última e definitiva, exige dos cristãos, em toda esta questão do respeito pela Natureza, uma postura decorrente da sua fé. Porque, também neste campo, «se os Filhos de Abraão se calam, gritarão as pedras». E como elas têm gritado!

Arlindo de Magalhães, 12 de Março de 2017

[1] Os deuses das religiões nórdicas viviam no centro das florestas transformadas em bosques sagrados: é daí, por exemplo, que vem o pinheiro do Natal. “As grandes forças que criaram o Universo não podiam ser adoradas numa casa construída por mãos humanas, nem o Infinito podia estar contido dentro de qualquer coisa feita pelo Homem” (in As brumas de Avalon).

A Folha da Serra

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Começou a publicar-se no ano 2000 uma obra de 7 volumes, a História Religiosa de Portugal. No 3º Volume (publicado em 2002), havia um longo capítulo sobre “O catolicismo português no século XX”. Entre os vários subtítulos e respetivos textos, havia um — “Em Portugal, 20 anos depois” (do Vaticano II, 1962-1982) — que, na página 250, era ilustrado com a fotografia da Folha Dominical 358, da Serra do Pilar, de 2 de janeiro de 1982.

O texto a que me refiro resumo-o nesta frase: “Refletindo os esforços de renovação pastoral da Igreja Católica, o II Concílio do Vaticano repercutiu-se no catolicismo português, gerando novo impulso reformador, em particular nos setores mais envolvidos nas questões da transformação da sociedade, nomeadamente a justiça social, a paz e a liberdade — temas centrais do magistério pontifício nesta década” (p. 249-250). É verdade o que escreveu o historiador Paulo Fontes, que não falava só da Serra do Pilar. A Comunidade da Serra do Pilar esforçava-se na renovação pastoral da Igreja e na transformação da sociedade, visando a justiça social, a paz e a liberdade. O autor entendeu que a Folha dominical da Serra do Pilar era ótima para ilustrar o seu pensamento. Continue reading

Os gemidos da irmã Terra

Rio Vez, Arcos de Valdevez

Rio Vez, Arcos de Valdevez

Citei aqui há 15 dias Carlo Petrini, um jornalista italiano que fundou um movimento contra a fast-food e o McDonald’s: “Não são poucos os homens de ciência que pressagiaram um futuro da Terra em que, mais cedo ou mais tarde, a raça humana se extinguirá, se continuar a consumir mais recursos do que aqueles de que a natureza dispõe”.

De facto, e volto ao Papa Francisco, “A Terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo”. É a cultura do “use e bote fora”, seja o que for: o que era limpo e belo está agora cheio de lixo. Lijó, Vilar de Andorinho, no que resta de um caminho que pode ter sido romano mas que a memória popular continua a chamar a “estrada de Viseu” ou “caminho de Santiago” é agora um esgoto de água choca!

Mas o clima!, o clima, que é um bem comum, preocupa muito mais, indicando que estamos perante um inquietante aquecimento do sistema climático que, por sua vez é causa de uma elevação constante do nível do mar. Ao mesmo tempo, a falta de água potável, a baixa produção agrícola, o derreter das calotas polares e dos glaciares, o desmatar das florestas, as migrações de animais e vegetais que nem sempre se adaptam noutros lugares, etc., levantam problemas sérios ao equilíbrio do Planeta.

A água limpa e potável é uma questão de primeira importância. O nosso corpo é e exige muita água, e nós não podemos viver sem ela. Por isso, “o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício de outros direitos humanos”. Escassez de água quer também dizer alimentos mais caros. E são sempre os mais pobres os mais apanhados por estes problemas.

Desaparecem anualmente milhares de espécies vegetais e animais: milhares já não as podemos ver, e a outros mais milhares a geração que nos segue não lhes porá os olhos em cima.

Com o seu derrube, as florestas, pulmões do Planeta, estavam até há pouco tempo repletas de biodiversidade. Agora, porém, derrubadas para desenvolver cultivos, intensivos e super-intensivos, perdem, em poucos anos, inúmeras espécies, e vastas áreas se transformam em áridos desertos.

O homem, “que tem direito a viver e ser feliz e, além disso, possui uma dignidade especial, não pode deixar de considerar os efeitos da degradação ambiental, do modelo atual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas”.

Por exemplo: “Nota-se hoje…, o crescimento desmedido e descontrolado de muitas cidades que se tornaram pouco saudáveis para viver, devido não só à poluição proveniente de emissões tóxicas mas também ao caos urbano, aos problemas de transporte e à poluição visível e acústica. Muitas cidades são grandes estruturas que não funcionam, gastando energia e água em excesso”. E daqui nascem “a exclusão social, a desigualdade no fornecimento e consumo da energia e doutros serviços, a fragmentação social, o aumento da violência e o aparecimento de novas formas de agressividade social, o narcotráfico e o consumo crescente de drogas entre os mais jovens, a perda de identidade”, uma ”verdadeira degradação social, uma silenciosa rutura dos vínculos de integração e comunhão social”. “O ambiente humano e o ambiente natural degredam-se em conjunto”. Quem se não lembra da Escarpa da Serra, “a Etiópia aqui ao lado”? “Hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica se torna sempre uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres”.

Tudo isto, e muito mais, “provoca os gemidos da irmã Terra”, como dizia S. Francisco. No entanto, “nunca maltratámos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos. Mas somos chamados a tornar-nos os instrumentos de Deus Pai para que o nosso planeta seja o que Ele sonhou ao criá-lo e corresponda ao seu projeto de paz, beleza e plenitude”. Para isso, “torna-se indispensável criar um sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a proteção dos ecossistemas, antes que as novas formas de poder derivadas do paradigma tecno-económico acabem por arrasá-los não só com a política, mas também com a liberdade e a justiça”.

A Igreja não tem proposta nenhuma definitiva para resolver esta premente questão mas tem consciência de que deve escutar e promover o debate honesto entre os cientistas, e não só, respeitando a diversidade de opiniões. Basta olhar a realidade com sinceridade, para ver que há uma grande deterioração da nossa casa comum.

A esperança convida-nos a reconhecer que há sempre uma saída, sempre podemos mudar de rumo, sempre podemos fazer alguma coisa para resolver os problemas. «Olhando as regiões do nosso planeta, depressa nos apercebemos de que a humanidade frustrou a expectativa divina”.

(Todos os textos entre aspas são do 1º capítulo da encíclica Laudato Si)

Arlindo de Magalhães, 19 de fevereiro de 2017

Casa Comum

Loriga (Seia), Rio Videira

Loriga (Seia), Rio Videira

Recitou-se aqui, domingo passado, o célebre Cântico do Sol, de S. Francisco de Assis (1182-1226), afinal uma oração saída da sua alma de poeta. A posteriori, a gente entende; de princípio, não. Quando se ouviu da varanda do Vaticano Habemus papam!, que escolhera o nome de Francisco, perguntei-me de imediato porque tinha um jesuíta escolhido o nome do pobre e franciscano São Francisco de Assis.

Não foi necesário muito tempo para percebermos aonde queria chegar o Papa Francisco. Logo na 1ª encíclica — A alegria do Evangelho —, ele escreveu claro: “A Terra é a nossa casa comum, e todos somos irmãos … (e) a Igreja não pode nem deve ficar à margem da luta pela justiça”. Por isso, “cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade” (EG 183.187). Logo começou Francisco a falar de uma ecologia (oikos > casa + logos > palavra) integral.

Que casa é esta? A antiquíssima palavra grega — oikos — foi escolhida por E. Haeckel, um biólogo alermão do séc. XIX/XX (1834-1919), para referir a ciência que estuda as relações dos seres vivos (homens, animais e plantas) entre si e com o meio ambiente, a tal casa comum (a biosfera, o planeta terra e o nosso habitat [o nosso espaço físico, geográfico e cultural]).

Mas, primeiro, esta casa não é só minha: é de todos, e “todos somos irmãos” (Mt 23,8). E, por isso, na casa que é de todos, não podemos separar o Homem da Natureza, nem de Deus, nem das demais Pessoas. É o que se quer dizer com o adjetivo integral. Porque a oikos não é só minha.

Estas quatro realidades — o Homem, a Natureza, Deus e as mais Pessoas — têm que estar estreitamente ligadas entre si: recebemos ou temos um mundo [que não é meu], vivemos com outras pessoas e somos solidários com elas, tanto as deste tempo como as do tempo futuro, e não podemos — pelo menos nós, os crentes, os que que acreditamos — esquecer nem um Deus Criador nem que “todos somos irmãos”.

Esta é a questão do Papa Francisco. Não só dele. Este seu documento tem um fundo espiritual, mas também científico (percebe-se perfeitamente que, a partir do capítulo 3º, há uma 2ª mão por detrás), filosófico e teológico. Como que se reuniram um filósofo, um teólogo, um cientista e um economista, que, em conjunto, prepararam o documento. Não tenho dúvida de que foi um bocadinho assim.

De todo este trabalho saiu um texto que, a si próprio, se define assim:

“Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer? Esta pergunta não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma fragmentária. Quando nos interrogamos acerca do mundo que queremos deixar, referimo-nos sobretudo à sua orientação geral, ao seu sentido, aos seus valores. Se não pulsa nelas esta pergunta de fundo, não creio que as nossas preocupações ecológicas possam alcançar efeitos importantes. Mas, se esta pergunta é posta com coragem, leva-nos inexoravelmente a outras questões muito diretas: Com que finalidade passamos por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra? Por isso, já não basta dizer que devemos preocupar-nos com as gerações futuras; exige-se ter consciência de que é a nossa própria dignidade que está em jogo. Somos nós os primeiros interessados em deixar um planeta habitável para a humanidade que nos vai suceder. Trata-se de um drama para nós mesmos, porque isto interpela o significado da nossa passagem por esta terra.” (LS 160).

Arlindo de Magalhães, 12 de Fevereiro de 2017

Delicada e preciosa morada

Rio Tua (Codeçais)

Rio Tua (Codeçais)

“Reparte o teu pão com o faminto” (Is 58,7) e “se o sal perder a força, com que se há de salgar?” (Mt 5,13).

Falei aqui nos últimos dois domingos da encíclica “Louvado sejas” do Papa Francisco. Uma encíclica é um documento do Papa em forma de carta dirigida aos bispos e a todos os fiéis, e até “a todos os homens de boa vontade”. Há outros documentos deste jaez, mas não tão importantes (Bulas, Constituições apostólicas, etc.).

Antigamente, estes documentos não chegavam nem às pessoas nem às comunidades. Os próprios bispos não lhes ligavam. E hoje ainda não chegam, pelo menos às pessoas. Mas estão agora na internet e nas livrarias, da FNAC a qualquer outra (5€).

(http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html)

Não faço publicidade, mas digo que — todos sabemos ler e somos cristãos no mínimo com alguma cultura — é tempo de nos começarem a interessar. Rezar o Pai nosso e cantar o Ámen é pouco.

Falei aqui nos últimos dois domingos da encíclica “Louvado sejas” do Papa Francisco, repito. E que bom seria se todos poupássemos uma vez A Bola ou 1 café para podermos comprar esta encíclica sem desequilibrar os dinheiros lá de casa (estes documentos chamam-se pelas suas duas primeiras palavras; neste caso, Louvado sejas, Senhor).

Nesta encíclica, o Papa fala fundamentalmente da “ecologia integral”. A palavra ecologia resulta de duas outras, gregas (oikos > casa + lógos > palavra ou tratado da casa)…

Ecologia integral quer dizer reflexão ou estudo que a Humanidade dá à casa em que vive, este planeta Terra. Integral porque se trata de uma reflexão ou estudo total, global, ou seja, que tenha em conta todos os aspetos da crise ecológica em que estamos metidos: a poluição dos oceanos e rios, o desaparecimento da diversidade biológica (animal e vegetal), a desertificação e a desflorestação, a injustiça no acesso aos recursos naturais e à propriedade da terra (poucos homens têm muito e muitos têm bem pouco ou mesmo nada), a existência de humanos como nós sem dinheiro, sem trabalho, sem saúde, antropologicamente paupérrimos, todos os dias lutando por comida e/ou por água limpa, etc. A devastação da terra é causa do sofrimento dos homens mais vulneráveis do planeta.

Por isso, é preciso governar a casa que é de todos — o planeta — com sabedoria e justiça. A crise ecológica é uma ameaça comum global. Mais tarde ou mais cedo, se lhe não deitamos mão, atingirá todas as latitudes e longitudes. Precisamos, por isso, de um esforço mundial de todos, da Wall Street americana à mais pobre aldeia da Etiópia ou do continente africano.

Precisamos de cuidar da Terra como nossa delicada e preciosa morada que é.

Desenha-se neste momento da nossa História um diálogo entre religiões diferentes, entre Ciência e Religião, entre crentes e não crentes, à volta deste assunto. A crise ambiental exige mudanças profundas, sob pena de os habitantes deste planeta — a raça humana — correr o risco de se extinguir: “Não são poucos os homens de ciência que pressagiaram um futuro da Terra em que, mais cedo ou mais tarde, a raça humana se extinguirá, se continuar a consumir mais recursos do que aqueles de que a natureza dispõe” (Carlo Petrini).

Por isso também o Papa Francisco fala de ecologia integral, isto é, ambiental, económica, social, cultural, que atenda à vida de todos os dias, que proteja o bem comum e que seja capaz de olhar para o futuro: “guardar as pessoas, cuidar de todos, de cada pessoa, com amor, sobretudo das crianças, dos idosos, daqueles que são os mais frágeis e que, muitas vezes, vivem na periferia do coração” – disse o Papa logo na primeira homilia depois da sua eleição.

Os crentes, os que professam outras religiões ou outras formas de espiritualidade, não podem ficar indiferentes ao convite dirigido também ao mundo dos ecologistas-cientistas para se unirem, deixando cair diferenças ideológicas que não levam a sítio nenhum. É preciso imediatamente, sim, garantir a todos o direito à alimentação e à água — a missão principal de um novo humanismo.

É certo que desta encíclica muitos não gostaram e por isso a vêm criticando duramente. Seja como for, “preservar, guardar e cultivar este sistema é nosso dever porque é do nosso interesse: sobrevivência, existência, plenitude de espírito e, por fim, paz. Alegria!”.

“Começai por fazer aquilo que é necessário! Depois, aquilo que é possível! Então, de repente, surpreender-vos-eis a fazer o impossível!”. Esta frase é atribuída a São Francisco de Assis, o modelo inspirador desta questão planetária.

Continuarei, ao longo do ano, sempre que possível, a falar desta questão e deste documento. Se quiserem comprar o texto impresso e gostarem tanto de ir a livrarias como eu a supermercados, nós trazemo-los para aqui e pode ser que mais baratos se vierem muitos. Inscrevam-se ali à saída. O grupo Justiça e Paz trata disso.

Vindo muitos, pode ser que baixe o seu preço, já podem todos tomar mais um café e comprar mais uma Bola!

Arlindo de Magalhães, 5 de Fevereiro de 2017

A Casa Comum

Rio Paiva | Arouca

Rio Paiva | Arouca

Apenas há menos de 2 anos soube que os dentes implicam com a audição e com os olhos. Tinha uns dentes à moda da minha mãe, todos furados, todos caídos, dores terríveis, e não conto mais nada …

Há dois anos disseram-me que …, explicaram-me. Mas quando isso aconteceu já eu não tinha dentes. Nem um.

Conto esta história porque a nossa relação com o planeta foi e é ainda assim: fazíamos, cada um à sua maneira, o que nos dava na beneta. Todos os anos, no parque de campismo, ainda hoje vejo homens e jovens a fazer a barba com a torneira da água aberta o tempo que seja… E isso não é nada: lixo pela janela fora do carro que vai à minha frente, outro automóvel que, mudando de velocidade, expele mais fumo que sei lá o quê, lixeiras abjetas por todos os lados e em qualquer canto, “a terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo”, diz o Papa Francisco (LS 21). É a “cultura do descarte, que afeta tanto os seres humanos excluídos como as coisas que se convertem rapidamente em lixo” (LS 22).

As minudências que refiro, no entanto, são nadas; gravíssimas são aquelas que o Papa refere: o clima (aquecimento do sistema climático); a água (embora o acesso a água potável e segura seja um direito humano essencial, fundamental e universal, a qualidade da água disponível piora constantemente); a perda da biodiversidade (anualmente desaparecem milhares de espécies vegetais e animais); a deterioração da qualidade da vida humana e degradação social: “o crescimento desmedido e descontrolado de muitas cidades” provocou “a exclusão social, a desigualdade no fornecimento e consumo de energia e doutros serviços, a fragmentação social, o aumento da violência e o aparecimento de novas formas de agressividade social, o narcotráfico e o consumo crescente de drogas entre os mais jovens, a perda de identidade”, numa palavra, “uma verdadeira degradação social” (LS 44-45); o ambiente humano e o ambiente natural degradam-se em conjunto mas já não se ouve nem o clamor da terra nem o clamor dos pobres. “Estas situações provocam os gemidos da irmã Terra, que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo, com um lamento que reclama de nós outro rumo” (LS 53). 

Diante deste quadro, que fazer?, que podemos fazer? O grito de Francisco é este:

“Nunca maltratámos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos. Mas somos chamados a tornar-nos os instrumentos de Deus Pai para que o nosso planeta seja o que Ele sonhou ao criá-lo e corresponda ao seu projeto de paz, beleza e plenitude. O problema é que não dispomos ainda da cultura necessária para enfrentar esta crise e há necessidade de construir lideranças que tracem caminhos, procurando dar resposta às necessidades das gerações atuais, todos incluídos, sem prejudicar as gerações futuras. Torna-se indispensável criar um sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a proteção dos ecossistemas, antes que as novas formas de poder derivadas do paradigma tecno-económico acabem por arrasá-los não só com a política, mas também com a liberdade e a justiça” (LS 53).

A China é uma das economias que mais crescem; mas nós — os que estamos aqui — também já vimos na televisão aquelas cidades chinesas em que se não pode sair à rua sem uma máscara, de ar carregado de gazes e que se pode cortar à faca. Isto é: a economia chinesa cresce à custa de quê? Com quem aprendeu a China a proceder assim? Claro que com a revolução industrial europeia. Se os nossos avós procederam assim, porque não podem eles agora fazê-lo também? De resto, aqui ao lado, Madrid também já usa a máscara e os seus automóveis circulam na cidade, sim, mas alternadamente (matrícula par ou impar).

Perante este quadro — pequeníssimo —

“alguns defendem a todo o custo o mito do progresso, afirmando que os problemas ecológicos se resolvem simplesmente com novas aplicações técnicas, sem considerações éticas nem mudanças de fundo.

No extremo oposto, outros pensam que o ser humano, com qualquer uma das suas intervenções, pode ameaçar e comprometer o ecossistema mundial, pelo que convém reduzir a sua presença no planeta e impedir-lhe todo o tipo de intervenção.

(…) Sobre muitas questões concretas, a Igreja não tem motivo para propor uma palavra definitiva e entende que deve escutar e promover o debate honesto entre os cientistas, respeitando a diversidade de opiniões. Basta, porém, olhar a realidade com sinceridade, para ver que há uma grande deterioração da nossa casa comum. A esperança convida-nos a reconhecer que sempre há uma saída, sempre podemos mudar de rumo, sempre podemos fazer alguma coisa para resolver os problemas” (LS 60).

No entanto,

«por causa da alta velocidade das mudanças e da degradação, que se manifestam tanto em catástrofes naturais regionais como em crises sociais ou mesmo financeiras, … há regiões que já se encontram particularmente em risco e, prescindindo de qualquer previsão catastrófica, o certo é que o atual sistema mundial é insustentável a partir de vários pontos de vista, porque deixamos de pensar nas finalidades da ação humana: “Se o olhar percorre as regiões do nosso planeta, apercebemo-nos depressa que a humanidade frustrou a expectativa divina”» (LS 61).

Arlindo de Magalhães, 29 de Janeiro de 2017

Louvado sejas

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Até João XXIII, a doutrina social da Igreja, que nascera com Leão XIII, ficou-se pelo conflito social gerado pelo infortúnio da “miséria imerecida”, isto é, pela questão operária, se bem que, com Pio XII, se tivesse também preocupado com a guerra. Mas o Papa Bom, com a encíclica A Paz na Terra, não se limitou a condenar a guerra, fez sobretudo propostas de paz.

Paulo VI referiu-se já ao problema ecológico, “consequência dramática da atividade descontrolada do Homem”. João Paulo II convidou a uma conversão ecológica global: é necessário – dizia – mudar “os estilos de vida, os modelos de produção e de consumo, as estruturas consolidadas de poder que hoje regem as sociedades”. Bento XVI gritou que o ambiente natural estava já carregado de chagas causadas pelo comportamento irresponsável da Humanidade, a nível planetário!

O Papa Francisco, desde o seu primeiro documento, pegou na questão com esta boca tão simples: “A Terra é a nossa casa comum, e todos somos irmãos… [e a] economia deveria ser a arte de alcançar uma adequada administração da casa comum, que é o mundo inteiro” (EG 183 e 205).

Ficámos todos — católicos e não católicos, crentes e não crentes — à espera do que viria a seguir sobre esta questão. Publicou-o no Pentecostes de 2015, Laudato, Si, mi’Signore > Louvado sejas, meu Senhor. A abrir o documento, referiu S. Francisco de Assis, “o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade”, e o Patriarca Bartolomeu de Constantinopla, Igreja Ortodoxa. Entrevistado depois da publicação do Papa Francisco, disse assim o Patriarca: «A gentil referência que fez nosso irmão o Papa Francisco não me surpreendeu por muitos motivos. Principalmente porque quem busca discernir a beleza de Deus na sacralidade da Criação inevitavelmente reconhecerá “tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honrado, o que é virtuoso e merece louvor” (Fp 4, 8). Em segundo lugar, posto que não podemos falar de uma dupla ordem ou de uma dupla realidade na Criação, todas as Igrejas, todas as religiões e todas as disciplinas confessam a mesma verdade, isto é, que o mundo é um dom divino que todos nós estamos chamados a proteger e a preservar. Em terceiro lugar, a crise ecológica tem uma dimensão ecuménica: não se pode identificar uma instituição em particular e culpá-la pelo dano que temos provocado à Criação, e nenhuma instituição sozinha pode resolver a crise ecológica».

“A sacralidade da Criação”, dizia Bartolomeu. S. Paulo disse-o também, com outras palavras, claro: “O que em Deus é invisível – o seu eterno poder e a sua divindade – tornou-se visível à inteligência, desde a criação do mundo, nas suas obras” (Rm 1,20). Quem nunca, diante de uma bela paisagem, disse assim ou percebeu-o no seu coração: “Deus é grande!”? Quem nunca chorou ou se emocionou diante de uma paisagem destruída, ou por uma barragem, por uma fábrica, ou sei lá pelo quê? Como não posso emocionar-me quando vejo Santo Antão da Barca passado da Ribeira do Sabor lá para cima dum monte!? Já não é Santo Antão da Barca, talvez seja agora da estupidez ou da eletricidade…, num é, Senhor Rei?

Deus é grande diante da sua Criação, diz Paulo, diz Francisco, diz o crente, não o não crente, calado diante de tanta grandeza. E o amarantino Teixeira de Pascoaes diz assim:

Ó bendita paisagem!
Ó sagrada montanha, que eu adoro!…
Alta e santa montanha omnipotente!…
Ó montanha num êxtase divino
Sob o fantasma universal de Deus!…
Santa montanha azul da minha infância
Amo-te, desde a fonte piedosa
Que dos teus flancos mana, duma casta
E fresca transparência religiosa…
Amo-te mais por tudo o que não sei
Dizer, quando te vejo! …
E o homem, criatura e criador,
Ouviu a voz de Deus que lhe falou:
– Na tua consciência, em puro amor,
Existirei por toda a eternidade!

Sobretudo pelo séc. XIX, a Natureza começou a ser tratada com olhos religiosos. Para o panteísmo (pan > tudo, Theos > Deus = tudo é Deus) e o Naturalismo Religioso, a Natureza e/ou o Universo são Deus, entendido em todo o cosmos como uma unidade abrangente. O Naturalismo religioso, diferente do Panteísmo, reconhecia o divino na Natureza, o divino encontrado pelo homem na Natureza.

O cristão, crente, como escreveu S. Paulo, afirma que “o que em Deus é invisível nas suas obras tornou-se desde a criação do mundo visível à inteligência do homem”.

O Papa Francisco diz que a Natureza — o sol e o monte, a chuva e o mar, as flores e os animais, os frutos e a erva, etc. e etc., perfazem a nossa casa, que é comum de todos, e todos somos irmãos… [e a] economia deveria ser a arte de alcançar uma adequada administração da casa comum que é o planeta”, e um dia se saberá se mais que o planeta.

Por isso ele afirma que “o urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador não nos abandona”; pois não, se a gente se portar bem!

Este ano, como pudermos, voltaremos muitas vezes a esta questão.

Arlindo de Magalhães, 22 de Janeiro de 2017

A Unção dos Doentes

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O sacramento da Unção dos Doentes tinha-se tornado, de facto, um sacramento «maldito». E tão maldito que a expressão popular o taxou de «Extrema-Unção», unção extrema, isto é, unção quando a vida estava por um fio ou tinha mesmo já acabado.

Foi o Vaticano II – sempre o Vaticano II! – a resolver e pôr as coisas no seu lugar. Ora ouçam:

“A Extrema-unção, que também pode, e melhor, ser chamada Unção dos Enfermos, não é Sacramento só dos que estão no fim da vida. É já certamente tempo oportuno para a receber quando o fiel começa, por doença ou por velhice, a estar em perigo de morte”. Tudo bem dito, até com delicadeza.

Para entendermos o que é a Unção dos Doentes, há que ter presente, antes de mais, que se trata de um sacramento da Fé, isto é: Todos os sacramentos pressupõem a Fé; é por isso que eu digo que muitos dos casamentos celebrados na Igreja são inválidos. Muitos casamentos e muitos batizados!

Nenhum sacramento é um rito puramente social e jurídico, como o é muitas vezes o batismo ou  o casamento civil. Um sacramento é um sinal de fé ou da fé, pessoal e comunitária. Na celebração litúrgica dos sacramentos “deve sempre preferir-se a celebração comunitária à individual e privada” (SC 27). Ah!, grande Concílio!

Se entendemos isto bem relativamente à Eucaristia dominical, as coisas começam a não ser tão claras quando se trata de sacramentos que têm a ver diretamente com a história pessoal dos crentes, o casamento, por exemplo, a unção dos doentes, a própria penitência… É por isso que os maiores pontos de conflito que ainda hoje se verificam na Serra do Pilar surgem dos casamentos e batizados dos de fora: porque a dimensão eclesial dos Sacramentos desapareceu sobretudo nos que da Igreja andam longe, mas que se sentem com direito de exigir, na Serra do Pilar, tudo e mais alguma coisa, como se o nosso lugar de celebração fosse terra de ninguém e a uma Igreja — isto é, Comunidade — não coubesse o direito e a obrigação de velar por ele, o lugar.

No caso dos doentes, dizia, este entendimento tinha-se perdido. De há muito que a cultura moderna virou as costas à morte e à doença. Daí que o Sacramento da Unção se tenha transformado numa unção extrema, às portas da morte.

A doença é sempre um desequilíbrio – físico, anímico, espiritual e relacional – e uma perda dolorosa das rotinas quotidianas; quando é grave, coloca-nos necessariamente diante da questão dos fins: a vida e a morte, o Cá e o Lá. No meio deste desconcerto, repito, a cultura e a técnica modernas tiram imediatamente o doente do seu meio de vida, do seu mundo de relações, criando-lhe uma acrescida fonte de sofrimento.

É aqui que entra o Sacramento da Unção dos Doentes: um sinal de esperança, e não apenas terrena, diante da debilidade corporal e da desarmonia psíquico-espiritual que a doença e a inevitabilidade da morte provocam necessariamente no indivíduo. Quem se não lembra do «Pai, se é possível, afasta de mim este cálice!» (Lc 22,42) do próprio Filho de Deus, apavorado e angustiado diante da morte, nas palavras utilizadas por todos os evangelistas? Daí que a atenção de todos, e particularmente da Igreja, aos doentes, seja muito importante. Por ela, de resto, seremos perguntados: «estava doente e fostes visitar-me» (Mt 25, 6).

É diferente o caso dos idosos-não-doentes que, tão simplesmente como isso, pedem o sacramento à Comunidade. Explica assim o Ritual revisto após o Concílio Vaticano II:

“A unção dos doentes não é sacramento apenas dos que se encontram no último transe da vida. Por isso, considera-se tempo oportuno aquele em que o fiel começa, por doença ou velhice, a estar em perigo de vida. Este sacramento, que faz parte da solicitude de toda a Igreja, mostra-se nestas palavras: Com a santa unção e a oração dos presbíteros, toda a Igreja encomenda os doentes ao Senhor padecente e glorificado, para que ele os alivie e salve, como diz Tiago na sua Carta (5,14-16)”.

Noutra palavra, a Unção dos Doentes é o sacramento específico da enfermidade ou da idade, e não da morte: unge-se sacramentalmente, portanto, não um moribundo ou um acidentado inconsciente, mas um doente consciente e crente. 

Arlindo de Magalhães, 15 de Janeiro de 2017

Torrente de alegria

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Todos vêm ao teu encontro (Is 60,3);
Os gentios recebem a mesma herança que os judeus: pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio da Boa Nova (Ef 3,5-6);
A estrela que tinham visto no Oriente seguiu à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino (Mt 2.10).
Vêm todos! Até os gentios!

Em 1973, o então Bispo do Porto, D. António, disse na fundação da paróquia de Nossa Senhora da Ajuda (Porto) que:

«(…) uma Igreja que se sente missionária, que tem o mandato deste mundo de hoje como ele é, que se sente pequeno rebanho, assembleia convocada e convocante, com missão principalmente de converter e cristianizar os cristãos ou, na alternativa, de passar aos bárbaros [quer dizer, aos gentios do tempo presente], essa Igreja ensaia novos caminhos de acesso às inteligências e corações deste tempo, a nova linguagem no diálogo com o homem de hoje e os novos métodos de inserção da graça na natureza deste mundo que se quer personalizado e de dimensões humanas na socialização das estruturas e mentalidades. (…).

Ao inaugurar hoje em forma canónica definitiva esta paróquia de Nª Sª da Ajuda, … eu não posso furtar-me à impressão de que algo de novo se está processando no grande plano da Igreja e da sua pastoral. (…).

É tempo de pastoralmente mudar: e, agora, ou mudamos ou seremos os novos pagãos a caminho igualmente do fim. … Que na mutação se perca o menos possível; mas que assim seja, cada vez mais e melhor!…».

Tinha acabado o Concílio Vaticano II (1965), o Bispo chegado do exílio salazarento (1969), e já cheirava a “vila morena” (1974). Eu fora ordenado presbítero sete anos antes, em 1967. Parecia tudo “um mar de rosas”! Voltávamos todos aos Atos dos Apóstolos: “uma só alma” (2,46).

Mas não. Logo em 74, o barco virou o leme. Eu repito o que já paguei muito caro: “Se a reentrada do Bispo Ferreira Gomes abriu renovadas portas de esperança, a sua prática pastoral — D. António era um grande pensador, mas as suas capacidades de Pastor não se lhe podiam comparar — não foi muitas vezes capaz de compreender o que estava em questão”.

Não terão sido muitos os que entenderam que o que estava em causa era isto: Paróquia ou Comunidade? Esta pergunta surgiu no momento em que se manifestava a crise da paróquia, crise devida à explosão urbana, dizem os sociólogos, e — digo eu — à necessidade premente de rever a formação e escolha dos novos presbíteros.

E eu penso que tudo começou pelo Seminário Maior, pela formação dos novos presbíteros, alguns dos quais nós conhecemos.

 A Igreja — era “tempo de pastoralmente mudar”! — devia insistir no esquema paróquia ou abrir-se à “graça da comunidade, reunida à volta da Palavra e do Sacramento, antevisão do Reino” — dizia Bonhöeffer — e “comunidade que é uma graça”, nunca uma instituição ou coisa parecida, e “graça não acessível a todos”! Em 1977, em Ermesinde, era “tempo de pastoralmente mudar”, mas a paróquia bateu o pé, e acabou a conversa.

É verdade que, em 1975, Paulo VI, numa Exortação Apostólica, Evangelii nuntiandi, tinha apontado entre muitas outras coisas, estas duas: Evangelização (anúncio de Cristo àqueles que o desconhecem…) e Comunidade (pequenas comunidades … que nascem da necessidade de viver mais intensamente a vida da Igreja…, sobretudo nas grandes metrópoles urbanas contemporâneas…).

O barco virou o leme. Parte importante do clero diocesano que até aí dava e queria dar aulas (de Moral!) nas escolas do Estado começou a abandonar esse lugar e passou a criar e depois a gerir IPSSs. A par, matou o domingo e multiplicou as missas e as intenções (quanto menos padres, mais missas). Não sei se foi nesta altura que começou esta possibilidade de celebrar casamentos, batizados e sei lá mais quê fora da paróquia de referência (que também por aqui morria) — a paroquial ou a capela do vizinho era mais bonita! — ou em sítios que não lembravam nem ao diabo. E, ainda por cima, começaram a ser os restaurantes a marcar a festa!

Da Evangelização é que ninguém mais se lembrou, ou melhor, quase mais ninguém se lembrou, apesar da palavra de Paulo VI: “evangelizar não de maneira decorativa, mas em profundidade, até às raízes”, e apesar da palavra de Jesus: “Ide por todo o mundo e anunciai a Boa Nova a toda a criatura!” (Mc 16,15).

Quando, em 1982, João Paulo II veio pela primeira vez a Portugal, os senhores bispos desta terra apanharam um grande raspanete do Papa: “Desejo sublinhar uma função do pastor: a de guiar o rebanho. Guiar é ir à frente”. O episcopado reagiu bem, logo no ano seguinte: “Urge desencadear uma ação sistemática de grande envergadura no sentido de proporcionar a todos uma verdadeira iniciação cristã inspirada na pedagogia catecumenal da fé”.

A tarefa era grande e praticamente ninguém lhe pegou. Em 1990, João Paulo II insistiu sobre esta questão, com um documento à escala planetária, “A missão do Redentor”, e o episcopado português repetiu-a, nomeadamente em 1994, com uma importante afirmação: “A formação cristã dos adultos supõe a renovação pastoral das comunidades [e] é a partir da formação cristã dos adultos que podemos encontrar a base para a educação da fé dos mais novos”. Mas nunca se passou à prática.

O clero mais novo depressa optou por fazer obras na paróquia — a Torre dos Clérigos, por exemplo —, e começou a dizer que a religiosidade popular era muito rica e botaba muitas missas, com muitas intenções. Entretanto, começaram os anos — marianos, paulinos, e de: o ano da misericórdia, da alegria do Evangelho, da fé, … —, iniciativas de dimensão planetária, diocesana ou paroquial, umas em cima das outras, com espalhafato e alarde (a que muitos chamam folclore). Assim nasceu “um mal-estar muito vasto não só em relação ao tom e ao conteúdo fundamentalista das homilias dominicais, como acerca das desastradas atitudes no acolhimento aos pedidos de batismo e de casamento. Em certos casos, em vez de constituírem uma oportunidade de evangelização, resultam em afastamento e azedume contra a Igreja” (Fr. Bento).

Sim, é verdade. Mas há mais. Agora, importante é “o restauro das igrejas de S. Lourenço, das Almas, S. José das Taipas, S. Nicolau, capela da Senhora do Ó, S. João Novo e Santo Ildefonso. Entre várias outras iniciativas, o Porto [?] pretende recuperar algumas tradições religiosas, como o presépio vivo, a Via Sacra, o cortejo de Carnaval, a recriação da tragédia da Ponte das Barcas”! Agora, não são os dominicanos que o dizem, mas sim o JN.

Meus irmãos:

Muito se falou da 1ª Exortação Apostólica do Papa Francisco, que levava por título “A alegria do Evangelho”. Encheram tudo de bandeiras e painéis­ – fachadas de igrejas, cruzamentos de caminhos, casas comerciais — a proclamar “A alegria do Evangelho”. Mas não houve nem Evangelho nem alegria. Alegria houve na Samaria quando, ali anunciada a Boa Nova, rebentou “grande alegria na cidade” (At 8,4-8); alegres ficaram os pagãos de Antioquia quando ouviram a palavra do Senhor (At 13,48), ou em Listra, quando Paulo, anunciador, encheu de alegria os corações dos Listrenses (At 14,17).

E já antes, a Boa Nova convidava insistentemente à alegria: Alegra-te é a saudação do anjo a Maria (Lc 1,28). A visita de Maria a Isabel faz com que João salte de alegria no ventre de sua mãe (cf. Lc 1,41). No seu cântico, Maria proclama: O meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador (Lc 1,47). E, quando Jesus começou o seu ministério, João exclamou: Esta minha alegria! Estou felicíssimo! (Jo 3,29). O próprio Jesus estremeceu de alegria sob a ação do Espírito Santo (Lc 10,21). A sua mensagem é fonte de alegria: Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa (Jo 15,11). A nossa alegria cristã brota da fonte do seu coração transbordante. Ele promete aos seus discípulos: Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há de converter-se em alegria (Jo 16,20). E insiste: Eu hei de ver-vos de novo! Então, o vosso coração há de alegrar-se e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria (Jo 16,22). Depois, ao verem-no ressuscitado, encheram-se de alegria (Jo 20,20). O livro dos Atos dos Apóstolos conta que, na primitiva comunidade, tomavam o alimento com alegria (2,46). Que, por onde passavam os discípulos, havia grande alegria (8,8); e eles, mesmo no meio da perseguição, estavam cheios de alegria (13,52). Um eunuco, recém-batizado, seguiu o seu caminho cheio de alegria (8,39); e o carcereiro entregou-se, com a família, à alegria de ter acreditado em Deus (16,34).

Porque não havemos de entrar, nós também, nesta torrente de alegria?!

Levanta-te, Jerusalém, eis a tua Luz!…

A multidão vinha também das cidades próximas… (At 5,16) e muitos seguiam depois o seu caminho cheios de alegria — o eunuco da Etiópia (8, 39) ou Saulo caído do cavalo —, cheios de alegria e do Espírito Santo (13,52) ficaram também Paulo e Barnabé depois de procederem ao anúncio aos pagãos de Antioquia, ou Paulo e Barnabé em Listra (14,17), etc., etc…

Meus irmãos: “Caminhante! Não há caminho, / faz-se caminho ao andar. /A andar faz-se caminho, E ao olhar para trás / Vê-se a senda que jamais / se voltará a pisar. / Caminhante, não há caminho / somente sulcos no mar” (A. Machado).

A parada próxima é a Páscoa, 16 de abril!

Arlindo de Magalhães, 8 de Janeiro de 2017

Aos pedaços

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Na sua mensagem para este Dia Mundial da Paz escreve o papa Francisco: “Enquanto o século passado foi arrasado por duas guerras mundiais devastadoras, conheceu a ameaça da guerra nuclear e um grande número de outros conflitos, hoje, infelizmente, encontramo-nos a braços com uma terrível guerra mundial aos pedaços. (…) Esta violência que se exerce «aos pedaços», de maneiras diferentes e a variados níveis, provoca enormes sofrimentos de que estamos bem cientes: guerras em diferentes países e continentes; terrorismo, criminalidade e ataques armados imprevisíveis; abusos sofridos pelos migrantes e as vítimas de tráfico humano; a devastação ambiental”.

O ano de 2016 foi desastroso para os direitos humanos em todo o mundo. Os conflitos armados, as catástrofes naturais, a discriminação, o racismo, a intolerância, as enormes disparidades económicas que obrigam as famílias a abandonar as suas casas e os seus países e o desejo insaciável de ganhar ou manter o poder a qualquer custo, são das grandes causas das violações dos direitos humanos.

Por todo o mundo, a violência da exploração infantil continua a ser notícia nas suas mais diversas formas: trabalho forçado, exploração sexual, servidão doméstica, recrutamento de crianças-soldado, tráfico de órgãos.

Também a violência doméstica continua a ser um flagelo. As vítimas são mulheres, homens, crianças e idosos. No nosso país, de Janeiro a Novembro de 2016, foram assassinadas 22 mulheres e 23 foram vítimas de tentativa de homicídio. Nos últimos 12 anos, 450 mulheres foram mortas.

As desigualdades entre pobres e ricos acentuam-se por todo o mundo. Portugal não é exceção. E ter um salário pode não ser significado de ter o mínimo para viver com dignidade. Entre nós, 22% dos que vivem abaixo do limiar da pobreza, têm emprego.

Estima a ONU que mais de 65 milhões de pessoas estão deslocadas das suas terras, a grande maioria sobrevivendo amontoados em gigantescos campos de refugiados sobrelotados, na Jordânia, no Líbano, na Turquia, no Quénia, na Grécia, em Itália.

Na Síria, milhares de pessoas mortas, milhões de pessoas deslocadas, milhares de pessoas entre fogo cruzado em Aleppo onde se vive uma catástrofe humanitária. Não há água, não há comida, não há hospitais. Homens, mulheres, crianças. Muitas crianças. Uma guerra que começou há 6 anos, onde se jogam muitos interesses geo-estratégicos, económicos e políticos, onde não tem faltado armamento a nenhuma das partes e que não tem fim à vista.

Nos últimos anos, pelo Mediterrâneo, chegaram à Europa muitos milhares de migrantes fugidos de países arrasados pela guerra, como Síria, Afeganistão, Iémen, Sudão e Iraque ou fugidos da miséria extrema da Eritreia ou da África Subsaariana. Em 2016 morreram afogados cerca de 5 mil. Para travar a sua progressão em território europeu, invocando razões de segurança, diversos países europeus construíram muros e cercas e a União Europeia fez um acordo vergonhoso com a Turquia para impedir a passagem de refugiados pelo seu território.

A segurança tornou-se palavra-chave na Europa. Mas falar de segurança sem falar de justiça e de direitos humanos não faz sentido.

A verdadeira segurança só pode existir na paz e a paz engloba ser capaz de viver e amar o próximo, independentemente da sua nacionalidade, cor, religião ou estrato económico” – conclui a Conferência das Comissões Justiça e Paz Europeias, que alerta “contra a ideia de que a Europa possa alcançar a segurança para si mesma através da construção de muros. Em vez disso, os muros excluem e discriminam, criam uma sensação de injustiça. A segurança para a Europa só será alcançada quando a ordem mundial for justa para toda a população mundial. A paz é mais do que a segurança. O objetivo tem de ser garantir que cada pessoa possa viver a sua vida com dignidade”.

E apela: “à União Europeia e aos Estados Europeus, para abraçarem uma verdadeira política de paz com base no desenvolvimento humano integral e um estilo de política não-violenta que respeite a dignidade de cada pessoa humana; à Igreja, para que realize a sua vocação como um sacramento de paz ao serviço do mundo, um sinal visível e exemplo de como o respeito pela justiça e pelos direitos humanos, proporcionam os fundamentos da verdadeira paz; a todos os cidadãos, para cumprirem a sua responsabilidade individual de construir uma comunidade mais segura e pacífica através do diálogo e dum espírito de fraternidade com o próximo”.

Escrevia o papa Francisco na sua Exortação Apostólica Evangelii gaudium (9):

“(…) enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarreigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há de provocar a explosão. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reação violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e económico é injusto na sua raiz.

Voltamos à sua mensagem para este dia: “Almejo paz a todo o homem, mulher, menino e menina, e rezo para que a imagem e semelhança de Deus em cada pessoa nos permitam reconhecer-nos mutuamente como dons sagrados com uma dignidade imensa. Sobretudo nas situações de conflito, respeitemos esta dignidade mais profunda e façamos da não-violência ativa o nosso estilo de vida. (…) Sejam a caridade e a não-violência a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros nas relações interpessoais, sociais e internacionais. Desde o nível local e diário até ao nível da ordem mundial, possa a não-violência tornar-se o estilo caraterístico das nossas decisões, dos nossos relacionamentos, das nossas ações, da política em todas as suas formas”.

Muitos homens e mulheres experimentam já este desafio de procurar a Paz e a Justiça pelos caminhos da não-violência.

São padeiros, alfaiates, engenheiros, pintores, médicos, farmacêuticos. Conhecidos como Capacetes Brancos. São voluntários, cerca de 3 mil, e percorrem milhares de quilómetros a remediar os danos humanos da guerra civil da Síria. Já prestaram auxílio médico e resgataram dos escombros mais de 70 mil pessoas, nas áreas mais afetadas pelo conflito. O lema dos Capacetes Brancos foi extraído do Alcorão: “Salvar uma vida é salvar toda a humanidade.”

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras foi criada em 1971, em França, por jovens médicos e jornalistas. Desde então, leva cuidados de saúde a pessoas afetadas por conflitos armados, desastres naturais, epidemias, desnutrição ou sem qualquer acesso à assistência médica, em mais de 70 países. Tem tido um papel preponderante no resgate de refugiados no Mediterrâneo.

Criada há 26 anos, a Associação Portuguesa de Apoio à Vitima, apoia vítimas de todo o tipo de violência, sejam mulheres ou homens, crianças ou idosos. Presta apoio moral, social, psicológico, jurídico e económico. Em 2015 recebeu mais de 34 mil pedidos de ajuda e prestou apoio a mais de 9600 vítimas de violência.

Desde 1961 que a Amnistia Internacional se bate para denunciar e pôr termo ao abuso dos Direitos Humanos. Tem organização em 150 países e mobiliza a opinião pública no sentido de exercer pressão sobre governos, grupos políticos armados, empresas e órgãos intergovernamentais exigindo justiça para aqueles cujos direitos estão a ser violados.

E termina o Papa Francisco a sua mensagem: “Todos desejamos a paz; muitas pessoas a constroem todos os dias com pequenos gestos; muitos sofrem e suportam pacientemente a dificuldade de tantas tentativas para a construir. No ano de 2017, comprometamo-nos, através da oração e da ação, a tornarmo-nos pessoas que baniram dos seus corações, palavras e gestos a violência, e a construir comunidades não-violentas, que cuidem da casa comum. Nada é impossível, se nos dirigimos a Deus na oração. Todos podem ser artesãos de paz”.

De Jesus aprendemos que só o Amor é capaz de vencer o ódio e criar um alicerce forte para edificar a casa da Nova Humanidade. No Sermão da Montanha é traçado o perfil dos construtores da Paz: felizes os mansos, os misericordiosos, os pacificadores, os que têm fome e sede de justiça.

Grupo Justiça e Paz, 1 de Janeiro de 2017

Silêncios

Henry Ossawa Tanner -Study for The Annunciation (1898)

Henry Ossawa Tanner -Study for The Annunciation (1898)

Que os Evangelhos não são “reportagens” nem “biografias”, já o sabemos… Também por isso, é o silêncio a resposta que obtemos quando lhes perguntamos o que, provavelmente, nunca nos iriam responder. Ora, querendo nós saber dos “pormenores” do nascimento de Jesus (que é sempre aquilo que mais queremos saber quando alguém nasce… ou morre), Marcos e João não dizem nada. Mateus, esse, diz-nos muito pouco: apresenta-nos a sua “genealogia” (Mt 1, 1-17) e as “circunstâncias especiais” em que “aquilo” acontecera (“Maria estava desposada com José; antes de coabitarem, notou-se que tinha concebido pelo poder do Espírito Santo… – Mt 1, 18); diz-nos até que José, que a dado momento “resolveu deixá-la secretamente”, teve depois um sonho revelador que o leva a mudar de atitude: “José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor, e recebeu sua esposa. E, sem que antes a tivesse conhecido, ela deu à luz um filho, ao qual ele pôs o nome de Jesus.” (Mt 1, 19-25). E depois? Depois já uma estrela brilhava no céu, já vinham por aí uns magos, e atrás deles o Herodes na sua “matança dos inocentes” (Mt 1, 16)…

Lucas, mais sensível e por isso mais dado a “pormenores”, põe tudo a começar na visita do Anjo e no “fiat” de Maria (Lc 1, 26-38); depois, conta-nos que de tão feliz que ela ficara, foi logo a correr contar a sua prima Isabel (que também estava grávida), pois talvez fosse quem melhor poderia compreender tal alegria (Lc 1, 5-25), uma alegria tal que pôs Maria a cantar as “maravilhas que Deus fizera nela” (Lc 1, 46- ). Depois, vem o recenseamento, a viagem “à força” quando era descanso o mais aconselhável… e o esperado-inesperado acontece: “(…) quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria” (Lc 2, 6). E paremos aqui para voltar atrás, pois ainda não é aqui que estamos.

Pormenores, dizia eu no início, muito poucos. Silêncios, muitos mais, portanto. Interrogações, hipóteses, tantas quantas os ditos silêncios (pelo menos). Que fazer? Ater-se ao escrito e nada mais? Tentar perceber as linhasnas entrelinhas? Ou ousar preencher os espaços, à nossa maneira (“quem conta um conto…”)? Nada de grave nem de insólito, se tivermos em conta que foi, precisamente (e) assim que “naquele tempo” tudo começou… a ser re-dito, re-contado, re-escrito… mas esse é outro tema…Tratemos dos pormenores, portanto. Do que, não sendo importante (porque quase sempre se esquecem…) é o mais importante (porque entretecem a História e as “estórias”) dos Evangelhos como da Vida: pormenores que escapam… mas que estão . Quem os vê? Quem os percebe? Quem os explica? Os arqueólogos e os exegetas, certamente. Os historiadores, os teólogos e demais “peritos destas coisas”, pois claro. Mas também os literatos, os poetas. Os poetas-profetas, como aqui há bem pouco tempo se disse e eu também aqui subscrevo.

É longíssima e antiquíssima a lista de nomes e de títulos que a isso se dedicaram: preencher os “espaços em branco” deixados pelos textos bíblicos (do “Evangelho de Pseudo-Tomé” aos “12 anos na infância do mundo” de Philippe Le Guillou). Hoje, neste 4º Domingo do Advento de 2016, só quero trazer um trecho de um dos últimos, e especialmente sobre estes textos e estes tempos, “às portas do Natal”.

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“Os tempos não corriam de feição para o nosso povo. 

– Basta, já não aguento mais! Estes romanos não deixam crescer a erva que pisam! – disse Selemias, o oleiro, que discutia acaloradamente com outros homens, na praça, aonde eu tinha ido naquela manhã por causa de uma vasilha de azeite. – Julgam que são donos do mundo, mas hão-de pagá-las quando o Messias chegar. Olho por olho, dente por dente.

– O Messias? E quando é que ele chega? Já estamos cansados de esperar. E enquanto ficamos à espera os malditos hão-de continuar a sugar-nos o sangue. (…)

Eu falava com o meu menino.

Se naquele Outono tinha firmado com o meu esposo uma forma nova de comunicar, com o cair da folha comecei a comungar com o filho que trazia dentro de mim. Todas as mães fazem conjecturas acerca de como será o seu filho. Sonham acordadas e vão traçando esboços da sua hipotética figura, dos seus gostos, da sua maneira de ser. Falam com ele na intimidade. Em mim dava-se uma estranha conjugação, eu acalentava o bebé que tinha dentro de mim, sim, e falava com ele como se fala com um bebé, mas ao mesmo tempo a minha alma encolhia-se, perdia-se, punha-se de joelhos diante dele, intimidada por tudo o que pressentia do amor e da energia inexplicável que estavam a crescer dentro de mim.

(…)

Naquela altura o que mais havia era revoltas daqueles que estavam à espera que o Messias surgisse como um caudilho capaz de acabar de vez com a tirania dos romanos, dos que, em poucas palavras, estavam à espera de um líder político. Eu, que não passava de uma pobre aldeã, pouco sabia então do que se passava no mundo, e até mesmo na pequena terra em que vivia, que como mais tarde vim a saber, nem sequer aparecia nos mapas nem nos itinerários dos soldados do império. Isaías tinha falado de uma rapariga que havia de conceber e dar à luz um filho, ao qual poria o nome de Emanuel, que quer dizer ‘Deus connosco’. Isto sim, isto tinha eu ouvido ler muitas vezes. Quando o rabino dizia o nome Emanuel, já em criança eu estremecia. E agora sentia um prazer enorme em pensar nele vezes sem conta, em saborear aquela palavra que podia ser-me atribuída.

(…)

Naquela altura, quando fechava os olhos e me punha à escuta das sensações que o filho que trazia nas entranhas me transmitia, apenas sentia uma paz sem nome e acima de tudo uma força interior que nascia da fragilidade, de algo tão frágil e tão pequeno como eu.

(…)

Para mim, como hei-de dizê-lo?, ele era já o Emanuel, ou seja, o Deus Connosco. Tinha nascido do meu silêncio e preenchia todos os silêncios e todos os vazios. A notícia da sua vinda tinha-me chegado quando me encontrava em contemplação e depois, quando contemplava a natureza, sentia o mundo a palpitar dentro de mim. (…) De vez em quando, sendo eu uma insignificante judia, o peso da dúvida acabrunhava-me. Ele seria realmente um rei, um caudilho do povo ou um grande sacerdote do templo de Jerusalém? Mesmo que não passasse de um profeta, isso assustava-me. Pensava nas complicadas histórias dos que se tinham atrevido a dizer a verdade em Israel, dos que denunciavam as injustiças e falavam sem papas na língua aos poderosos, arriscando-se assim a sofrer as consequências. Pressentia que o meu filho ia meter-se em muitas embrulhadas…

(…)

Jesus, Jesus, ai o meu menino, o filho de Javé, o meu príncipe querido… Será esta gente capaz de te compreender?

E logo a alegria de o ver em breve nos meus braços afastava de mim as inquietações. Devo confessar que desde o anúncio da sua chegada a minha vida era uma mistura de confiança e de incertezas, de júbilo e de inquietantes pressentimentos de mãe.

Preparei com entusiasmo a alegre chegada. No fim de contas a realidade da vida impunha-se, dentro e fora de mim. A minha barriga crescia, e com ela a minha esperança. Quanto ao José, tinha muito trabalho em Séforis, a capital, e às vezes ausentava-se por dois ou três dias por causa de encomendas urgentes que lhe faziam de lá. Em contrapartida, em Nazaré, quase não havia trabalho para ele. Eu, que estava cada dia mais grávida, aproveitava o tempo a fazer fraldas e a roupa de cama do bebé e a preparar a casa para a sua vinda. Que sossegadas eram aquelas horas passadas com a roca e a agulha! De vez em quando chegavam (…) boas notícias da Isabel. Estávamos ligadas por um estado de auspiciosas expectativas e acima de tudo pela certeza íntima de que estávamos a percorrer juntas um caminho ainda não sulcado, conduzidas pelo mistério. E eu muitas vezes me perguntava se haveria alguém que, pensando como deve ser, não sentisse que estava a ser conduzido.

Um dia (…) chegou o José, cansado e a enxugar o suor, como sempre. Estava preocupado e não era capaz de o esconder.

– Que se passa, José?

– (…) O que se passa é que esta manhã esteve na praça um pelotão de soldados a cavalo. O centurião leu um édito. “(…) ordena-se que todos os que vivem nestas terras se recenseiem (…)”. Nem podes imaginar como as pessoas estão indignadas, bem sabes como os ânimos são hostis aos romanos. (…) Alguém falou em sublevação, mas houve logo quem replicasse que isso era impossível, uma vez que o povo de Israel está cada vez mais vigiado. Repara bem no que isto significa para nós, Maria, para os nossos planos, e logo agora, no teu estado! O que vamos fazer?

O José estava indignado. Naqueles primeiros instantes devo ter esbugalhado os olhos de medo. (…)

– Temos de partir o mais depressa possível, Maria, se não corremos o risco de o bebé nascer durante a viagem. O melhor era partirmos amanhã mesmo – disse o José, muito excitado, enquanto enxugava o suor da testa.

Vivi então uma inquieta mistura de sentimentos de confusão e sobressalto. Fiquei apreensiva, não há que negá-lo. Aquilo alterava por completo os nossos planos. Tínhamos de preparar um mínimo de coisas para a viagem e de nos pôr a caminho. Abandonar o lar naquele momento (…). Uma pessoa agarra-se à amenidade da sua casa, ao ambiente que conhece, à paisagem que o rodeia, sobretudo quando vai ter o primeiro filho e o imagina no berço, protegido, quente e aconchegado. Aquelas notícias vinham contribuir para as minhas preocupações. Será que nada no meu casamento ou na minha maternidade pode ser fácil?, perguntava-me eu, angustiada. (…) Assim, refugiei-me no meu silêncio e aceitei arrostar às escuras os acontecimentos que a vida me impunha e acolhê-los como providenciais. Algum sentido hão-de ter, dizia a mim própria, baixando a cabeça, consciente de que se tinha dito sim, era um sim que se prolongava. Preparei então algumas provisões e naquela noite pouco dormi.”

In Pedro Miguel Lamet – As Palavras Caladas. Diário de Maria de Nazaré (Edições Tenacitas, 2005)

Luís Leal, 18 de Dezembro de 2016