O justo vive pela fé

 

Já disse que Martinho Lutero, nascido em 1483, era um monge agostinho. Ordenado presbítero em 1507, foi Doutor na Universidade de Wittenberg (1508) e depois seu professor (1513).

A sua primeira educação, a familiar, foi bastante dura: por todos os lados, bruxas, demónios, duendes, feitiçarias, aparições mágicas… A fé, melhor, a crença alemã daquele tempo era toda ela supersticiosa, de origem pagã, espíritos malignos que voavam pelos ares ou penetravam nas águas e nas terras pantanosas… Lutero foi educado a temer o demónio. A luta entre Deus e o diabo, entre Cristo e Satanás, decidiria quem possuía a Igreja e o Mundo. Foi neste contexto, que o pai quis que o filho estudasse Direito. Mas ele começou pela Filosofia.

O demónio, o inferno, o medo de não se salvar e a necessidade de procurar Deus, de o encontrar, a ele, à sua graça e à sua salvação, já Doutor, decidiu-se pela vida religiosa. A vida monástica uma realidade popular e reconhecida socialmente. A todo o custo, o jovem Martinho queria sossegar as suas inquietações espirituais e, por isso, trocou os barulhos do mundo pelo silêncio eloquente do mosteiro. O prior que o recebeu, uma vez conhecidas as suas qualidades intelectuais, concluiu que Lutero oferecia suficientes garantias de poder ser chamado por Deus para a vida religiosa e, portanto, entrou no convento. Assim aconteceu em 1506, tinha 23 anos.

Ordenado presbítero um ano depois, 1507, em 1508 era professor de Filosofia e estudante de Teologia. Com tudo isto, no entanto, o ânimo de Lutero não se livrava das suas melancolias e inquietações, e dos seus escrúpulos. Continuava a não saber como ultrapassar as suas inseguranças e temores, continuando a pensar que Deus era um juiz aterrador e castigador, tremendamente justiceiro e misteriosamente arbitrário. A aparente grandeza e soberania de Deus era para ele uma fonte de angústia.

Em 1510, era já professor de Teologia, e no ano seguinte foi a Roma com um outro irmão seu, religioso, tentando esclarecer um assunto da Ordem monástica. Já então, como diz o dito popular, Roma veduta, fede perduta (“Ir a Roma é perder a fé”), veio de lá convencido que Roma era uma cidade morta, e a Igreja… é melhor não pensar nisso…

Regressado, em 1512 era Doutor e continuou professor de Teologia. No meio de todas as suas dúvidas, tentou alcançar a verdade teológica: professor, começou a denunciar não!, a encontrar no cristianismo que se vivia desordens teóricas e práticas que levantavam muitas dúvidas.. A partir da sua cátedra começou mesmo a fustigar bispos, presbíteros, doutores e religiosos. Mas manteve-se fiel: “Os hereges querem mal à Igreja porque a atacam falsamente e dizem que é um lodaçal de vícios e perversidades. Mas não. A Igreja é o novo povo da fé, nascido da água e do Espírito, a sua cabeça é Cristo; ela cresce e aperfeiçoa-se no meio de luzes e sombras, de pecadores e santos, de perseguidores e hereges. Deus vivifica-a e condu-la à glória futura” (Texto de Lutero).

Estávamos em 1515, Lutero costumava estudar numa sala com estufa situada numa Torre do convento agostinho e, um dia — deve ter dado um grande berro —, apoderou-se dele uma firmíssima intuição ou iluminação concetual como fruto maduro de tanto pensar e orar:

A justiça de Deus não é uma justiça distributiva, nem condenatória, nem punitiva.

A justiça de Deus justifica “per solam fidem” (só pela sua fé). Deus acolhe o pecador e comunica-lhe a sua justiça. A salvação não resulta do esforço do homem [sacrifícios, promessas, peregrinações, rezas…], é totalmente gratuita: recebe-se só pela fé (“sola fides”). A justiça de Deus é aquela de que S. Paulo fala na sua Carta aos romanos: “Iustus autem ex fide vivit” [O justo vive da fé] (Rm 1,17).

Fixado nesta descoberta ou limpeza, encetou ou tentou a purificação da Igreja: tudo o que era lixo, quase tudo, foi para a lixeira. Ficou a fé, porque o justo vive da fé. E basta.

Antes odiava o Deus justo e castigador dos pecadores. Mas agora, uma vez que por “justiça de Deus” se entendia aquela graça (Paulo chama-lhe justiça) pela qual Deus justifica o homem, convertendo-se num Deus de misericórdia, agora o cristão sente-se como que se as portas do Paraíso se lhe abrissem à sua frente e ele (o cristão) nele (paraíso) entrasse. Agora, “o justo vive da fé”!

Não é verdade que “o homem vive da fé”, como diz Paulo (Rm 1,17)? “Eu, que tinha perdido Jesus, o Cristo, na teologia escolástica, encontrei-o agora em Paulo” (Lutero).

Consequências?

Arlindo de Magalhães, 12 de Novembro de 2017

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