Uma relação fraterna

Serra da Arrábida

“Enchei a Terra e dominai-a” (Gn 1,28).

A esta tarefa apontada ao Homem, criado à Imagem e Semelhança de Deus, é preciso acrescentar o que explica o segundo relato da Criação quando diz que o Éden foi entregue por IAVÉ ao Homem, mas “para ele o proteger e guardar” (2,15).

Na afirmação do próprio texto bíblico, portanto, o poder de dominar e transformar a Natureza é limitado, contrariamente ao que se pensou durante muito tempo. Francis Bacon, filósofo inglês (1561-1626), afirmava que “saber é poder”, isto é, “o poder do Homem sobre todas as coisas” depende “totalmente das artes e da ciência”. Em nome deste princípio é que … tudo o que se podia fazer era lícito ou devia mesmo fazer-se.

Mas foi exatamente esta mentalidade que levou ao desequilíbrio ecológico (que é também um desequilíbrio económico, social, cultural e humano, numa palavra) que pode acabar num colapso de todo o planeta (não se pense que só o nuclear pode destruir as condições da Vida) e que, sendo uma verdadeira profanação da Natureza, é uma blasfémia contra o Criador.

Para além de tudo isto, a possibilidade científica e técnica da exploração ilimitada e incontrolada da Natureza tornou o Homem vítima da ambição e da exploração, bem como originou um verdadeiro desperdício que inconscientemente ele leva a cabo.

A exploração da Natureza feita com o fito de, sem limites, aumentar a produção tem como consequência a destruição da mesma Natureza; e, destruída a Natureza, desapareceriam as condições da vida do Homem no planeta. Por isso surgiu a moderna ciência da Ecologia (palavra que deriva de oikos > casa + logos > palavra ou tratado da Casa do Homem).

Os variados movimentos ecológicos vão entendendo que a Natureza é a CASA DO HOMEM e os consequentes movimentos ecológicos e a sua tradução política, os partidos, bem como as modernas ciências do Ambiente, começam a pregar a sua preservação, defesa e promoção, exatamente porque Homem e Natureza estão intimamente interligados.

Esta nova área do saber e da preocupação (política) do Homem moderno tem duas vertentes muito importantes que refiro rapidamente:

  1. A Ecologia é, antes de mais, um fenómeno crítico.

A depravação da Natureza e do Ambiente está a atingir níveis altamente preocupantes.

A partir da revolução industrial, nos fins do séc. XVIII, o meio ambiente sofreu um acelerado processo de degradação, causado essencialmente pelo vertiginoso aumento demográfico e pelas sucessivas conquistas da ciência e da técnica que permitiram ao homem não só dominar mas também destruir o meio ambiente. Os fumos das fábricas, os escapes dos automóveis, os efluentes industriais, as experiências nucleares, os esgotos, os derrames de petróleo no mar, a urbanização desenfreada, o esgotamento dos recursos naturais (especialmente dos “combustíveis fósseis”), a intoxicação dos pesticidas (o célebre DDT, que provocou, por exemplo, a extinção de grandes quantidades de aves de rapina por causa da sua ação nociva sobre as cascas dos ovos, foi já encontrado laboratorialmente nas neves do Alasca e nos oceanos!), a destruição da fauna e da flora, os ruídos exagerados, a alteração da cadeia alimentar no termo da qual o homem se encontra, etc., etc., etc., trouxeram a este séc. XXI problemas de saúde física e mental de difícil solução e graves consequências.

Para além disso, na corrida louca para a industrialização, foram aniquiladas comunidades inteiras, de modo que muitos padrões culturais e sociais foram destruídos, sem que antes tivessem sido criados outros em alternativa. A vida urbana reflete particularmente todo este processo de degradação através do aparecimento cada vez maior de práticas antissociais que saem muito caras não só nem principalmente em termos económicos, mas sobretudo porque são negação de uma vivência saudável em comunidade.

Enquanto isto, as relações de equilíbrio biológico entre solo, água e atmosfera, que são muito estreitas, estão gravemente alteradas.

Etc., etc., etc.

A depravação da Natureza e do Ambiente está a atingir níveis altamente preocupantes – dizia.

Esta denúncia, para a qual não estávamos preparados nem de que somos ainda capazes, tem sido suscitada e mesmo feita em muito grande parte pelo recente movimento ecológico.

  1. Mas a ecologia é também um conceito e uma prática relacional.

A Natureza é a nossa Casa. E a nossa vida está interligada e muitas vezes dependente das espécies animais e vegetais e do ambiente em geral (o sol, a água, a terra). Para o homem, esta ligação é natural e é cultural; não se resiste ao frio no pino do inverno nas alturas do Barroso transmontano da mesma forma que um magrebino suporta o calor do Sará, no pino do verão. E esta resistência tem a sua tradução cultural: na habitação, no vestuário, na alimentação, nas festas, etc. Por isso é que o nível cultural do homem depende dele e nele se revela – do modo como ele respeita e desenvolve esta relação íntima com a Natureza em que se insere e a que está ligado, originando tanto a qualidade do ambiente como o da vida que vive.

É para esta relação Homem/Natureza que a Ecologia vem chamando a atenção. Que se o homem está nela equilibradamente inserido, tudo bem. Mas se esta relação é destruída, é o homem que destrói o seu ambiente e nega as suas condições biológicas., bem como as próprias raízes humanas e culturais.

Francisco de Assis (séc. XIII) foi muito justamente proclamado “patrono da Ecologia”, exatamente pela sua capacidade de relação “fraterna” com a Natureza: ele que tão “fraternalmente” se relacionava com “o Irmão Sol”, a “Irmã Água”, a “Irmã Terra”, a “Irmã Lua “…

Arlindo de Magalhães, 19 de Março de 2017

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