Vocações

Milton – Avery | ‘Stormy Sky, Stormy Sea’ | 1938

Vocações há muitas: vocações e vocações. Vocações fundamentais: Deus chamou muita gente na história bíblica: Abraão, Moisés, Samuel, David — o rei pecador, Job, e quantos mais…

Vocação vem do latim vocare (chamar). Os psicólogos explicam que a vocação resulta da reunião de componentes de ordem biológica, psicológica e social que se ordenam em função de interesses, de motivos de realização, de projectos, de níveis de aspiração e eficiência que permitam a um indivíduo determinadas opções de vida. Falar de componentes de ordem biológica e psicológica é falar da natureza do homem criado, natureza que é dom e criação por Deus. Entramos no domínio da graça pura. Francisco de Assis, Beethoven, Van Gogh, Luther King, como esta lista de nomes podia continuar interminável, vocações claras de construção do homem e da humanidade, chamem-se eles Johan Sébastian Bach ou Mozart, Miguel Ângelo ou Matisse, Ronaldo até no mundo da bola!

Há, na Igreja, vocações e carismas que não são individuais: os beneditinos, os do Ora & Labora; os franciscanos, num tempo de fome criaram o da mendicância; no nosso tempo, Madre Teresa de Calcutá e as irmãs que arrastou atrás de si, naquela profunda Índia, etc.. 

A Igreja é – deveria ser – a “pátria da Liberdade”.

Vem isto a propósito das vocações (ou “chamações“) dos dois primeiros discípulos de Jesus, Simão, depois chamado Pedro, e André.

À partida parece que eram tirados a papel químico: irmãos, e ambos discípulos de João Baptista. Pelos evangelhos sinópticos, sabemos deles mais alguma coisa: eram os dois pescadores.

No entanto, eram muito diferentes como o futuro haveria de mostrar: a um – Simão – haveria Jesus de pôr-lhe o nome de “pedra” (donde Cefas ou Pedro), não certamente pela sua rudeza mas pela sua firmeza. Por isso, seria escolhido para fundamento da Igreja (nele recaiu o ministério de Pedro, hoje assumido pelo Bispo de Roma). Mesmo assim, Pedro haveria de negá-lo, quem diria?

Do outro, André, sabemos muito menos, apesar de ter sido ele que levou o irmão Simão a Jesus (os primeiros são os últimos). Ele pode ter tido alguma primazia entre os Doze, pelo menos no princípio: foi ele que encontrou o rapazito com os cinco pães e os dois peixes que haveriam de ser distribuídos pela multidão (Jo 6,8). Foi ainda ele que, juntamente com Filipe, foi um dia falar com Jesus no sentido de este receber uns gregos que queriam falar com ele (Jo 12,22). Para além disto, pouco mais  sabemos de André, a não ser que, tal como seu irmão Simão, era natural de Betsaida (Jo 1,44), um pequeníssimo e insignificante porto pesqueiro, onde Jesus curaria um cego mas cujas gentes nem assim acreditaram (Mc 8,22-26). E de André não mais sabemos. A tradição, não documentada, pretende-o evangelizador do mundo grego, o que conviria com o já referido episódio dos gregos que, um dia, levou até Jesus.

De Betsaida era também Filipe natural. E este Filipe, na noite do dia da traição de Judas, assumindo-se certamente como porta-voz do grupo, fez a Jesus um pedido à medida da incredulidade dos seus conterrâneos: “Quem me vê, vê o pai, Filipe. Como é que tu me dizes ‘mostra-nos o Pai’? Há tanto tempo que eu estou convosco e ainda não me conheces, Filipe!” (Jo 14,8-9)”. Quando isto, ainda estavam todos à mesa com excepção de Judas que já tinha saído para entregar Jesus.

Seja como for, à partida iguais, o mesmo chamamento, no mesmo dia inclusive, e tão diferentes os chamados!

 Na Igreja, como diz Paulo, “há diversidade de dons mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum” (1 Cor 12,4-7).

É preciso continuar a lutar por uma Igreja — concretizada em comunidades — em que todos tenham lugar e (possibilidade e capacidade de) participação. Digo todos: os cómodos e os incómodos, os construtores e os críticos, os marginalizados e os de direito, os activos e os cristãos de presença, todos os baptizados e não só os ordenados, também os leigos/as, as mulheres e os homens, os idosos, as crianças e os jovens, os brilhantes e os apagados, os de um partido e os de outro partido, sobretudo os pobres mas também os ricos que procuram o Senhor de coração sincero. Tudo o que não for isto é a nossa incapacidade ou — o Senhor no-lo perdoe — o nosso pecado.

Arlindo de Magalhães, 14 de Janeiro de 2018

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