A Folha da Serra

Captura de ecrã 2017-03-03, às 12.14.08

Começou a publicar-se no ano 2000 uma obra de 7 volumes, a História Religiosa de Portugal. No 3º Volume (publicado em 2002), havia um longo capítulo sobre “O catolicismo português no século XX”. Entre os vários subtítulos e respetivos textos, havia um — “Em Portugal, 20 anos depois” (do Vaticano II, 1962-1982) — que, na página 250, era ilustrado com a fotografia da Folha Dominical 358, da Serra do Pilar, de 2 de janeiro de 1982.

O texto a que me refiro resumo-o nesta frase: “Refletindo os esforços de renovação pastoral da Igreja Católica, o II Concílio do Vaticano repercutiu-se no catolicismo português, gerando novo impulso reformador, em particular nos setores mais envolvidos nas questões da transformação da sociedade, nomeadamente a justiça social, a paz e a liberdade — temas centrais do magistério pontifício nesta década” (p. 249-250). É verdade o que escreveu o historiador Paulo Fontes, que não falava só da Serra do Pilar. A Comunidade da Serra do Pilar esforçava-se na renovação pastoral da Igreja e na transformação da sociedade, visando a justiça social, a paz e a liberdade. O autor entendeu que a Folha dominical da Serra do Pilar era ótima para ilustrar o seu pensamento.

Quando isto aconteceu, já ela ia no ano 7º da sua publicação e, às vezes, até já se imprimia em papel de cor. Tinha nascido em 13 de abril de 1975, mas com o número 300 havia já terminado a sua primeira fase que, apesar de tudo, se ocupara mais da vida interna da Comunidade nascente. Saliento uma caixa do número 300:

«Trezentos números na vida de uma folha dominical não é nada, pela mesma razão por que seis anos de história da Igreja nada é. Mas se a Serra do Pilar é hoje uma realidade eclesial, muita da sua vida está retratada nesta pequena folha; a melhor prova de que ela tem lugar na Comunidade da Serra é quando, porventura, um qualquer domingo ela não se publica, toda a gente pergunta por ela».

A partir do nº 300, a Folha passou a ser dactilografada por quem se ofereceu para o fazer. Esse quem, dactilógrafo, rapidamente deixou de o ser pois que depressa amadureceu; e, se alguma vez sofreu algum reparo, foi maneiro, pois que já tinha sido elevado à categoria não de diretor mas de mentor.

A Folha começou a ganhar leitores que nos eram próximos e, ao longe, viviam os mesmos problemas e sonhos que nós: Aborto (325), O Papa vem a Portugal de pára-quedas? (327), Vai, Serra do Pilar (337), O Bispo [Júlio] na Serra do Pilar (372), Timor-Leste, genocídio físico, cultural e religioso (385), Martinho Lutero, 500 anos após o nascimento (393), Uma crise é sempre um desafio à criatividade (399), A teologia da Libertação (427), Salários em atraso, tomada de posição de um grupo de padres da diocese do Porto (458), Vivó Porto!, Título de Futebol (463), A história das cabeças de frango ou A fome e o Parque são biológicos (503), A morte do Chico (638), D. Júlio na investidura da Presidência Leiga (729) …

Quando eu fui para Espanha naquele ano 92, e enquanto por lá andei durante 5 anos!, também eu a recebia pelo correio, ainda não havia internet. Por lá a lia como quem bebe um copo de água fresca em pleno Verão.

Quando regressei, em 1997, já ela navegava em mar alto, sem medo de perigosos ventos, muito menos de ataques de piratas. A Folha chegava a todo o lado: à China, à Inglaterra, a Angola, à França e à Suíça…, ao Fundão, ao Algarve, a Coimbra, à Capela do Rato em Lisboa… Espalhou-se porque já não tratava só do intracomunitário e do histórico, mas sim do novo, do que “está a aparecer, não vedes?”, perguntava o fazedor, com palavras de Isaías (43,19).

Logo chegou o número 1000, em novembro de 1997. Nesse 1000, alguém escreveu assim: “A Unesco e o genoma humano é o título da folha dominical de amanhã. Penso na variedade de temas sobre a vida comunitária, eclesial, cultural e política que têm percorrido estes 1000 números e no importante papel de divulgação que a folha tem tido, tornando acessíveis textos importantes, publicados onde pouca gente os teria lido, ou dando voz a reflexões oriundas do interior da comunidade. … A folha dominical tem a importância de ser epifania da comunidade”.

Era a força da adultez. Ela lá continuou, segura e serena, mar alto, dizia, e no 1500 ela própria se espantava: «tanto caminho já andado!». E foi exatamente para esta, a 1500, que D. Manuel Martins — que já a recebia, em Setúbal — escreveu assim: «É sempre momento de grande prazer e proveito aquele que passo na leitura da Folha Dominical da Comunidade Cristã da Serra do Pilar. Sinto um ar de frescura a invadir-me a alma e a fé. Porque a Folha traz-me a força e a vida de uma Igreja tocada pelos “ventos” de Deus».

No entanto, não por gosto mas ao jeito de noticiar o recuo teológico-pastoral e litúrgico que acontecia na Igreja romana, começaram a surgir muitos, curiosíssimos e variados títulos: E Cristo voltou a chorar nos jardins do Vaticano (1560), Igreja: Casa de Misericórdia ou Tribunal? (1572), Os banqueiros de Deus, salvos da crise graças ao ouro e aos fundos (1574), Hoje já não tenho esses sonhos! (1597), A última tragédia de Deus, Elie Wiesel (1600) … As folhas iam-nos dando conta do caminhar regressivo da Igreja na primeira década do século XXI.

No entanto, uma que outra miragem, lá ao fundo, parecia profetizar: Portas abertas aos católicos divorciados e casados de novo (1627), Deus é negra e sem documentos (1651), Debate dos abusos sexuais na Igreja (1654), Deus é um cultivador de lírios (1714), A Igreja que o Concílio não quis (1752), Cardeal Martini (1779), A lição do silêncio de Auschwitz (1630), O Deus dos ricos não está em crise (1672), Obama canoniza D. Óscar Romero. Por que espera Roma? (1708), O Ano da Fé: do Papa ou de Jesus? (1749), Demitiu-se como Deus manda? Este último título saiu na folha 1.800, fevereiro de 2013. Não sei se o profeta veria melhor ou se foi mesmo o profeta que viu bem!

E em março (de 2013) começou Francisco a puxar. E começou ela a penetrar águas mais profundas: Boas vindas ao Papa Chico (1822), Não só reforma da Cúria mas também do Papado (1823), Necessitamos de outros bispos (1827), Óscar Lopes e o Transcendente (1829), O apartamento vazio do Papa Francisco assusta o Vaticano (1830), Evangelii gaudium (1852), Memória das Coisas (1882), Família e Matrimónio (1879), A porção feminina de Deus (1887), O Islão ainda espera a sua revolução cultural (1900), Permaneço cristão, mesmo se escolher a forma como quero morrer (1902), O pequenito afogado faz-nos chorar e pensar (1925), O papa Francisco, amigo dos pecadores (1928), Comunidade da Serra do Pilar (1958), Iconoclastia e mística (1971), O rosto feminino de Deus (1987), É preciso pensar na matança que ainda hoje ocorre “em nome de Deus” (1992) … E mais, mas muito mais…

O Adelino “rezou” muitas vezes esta ou semelhante poesia de Sophia de Mello:

«Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou Deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos fins do universo
Me decifra e fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco»

Eu creio que as folhas dominicais do Adelino estão para a Serra do Pilar como os Lusíadas de Camões para os portugueses!

***

Mas não esqueçamos o trabalho “duro” dos tipógrafos do antigamente e do modernamente. O Avô Pereira foi um professor da sua arte e todos os mais aprenderam com ele. E eram e são muitos os que a imprimiam, dobravam e enviavam por correio. Bem hajam! Como havemos de vos pagar!?

Arlindo de Magalhães, 5 de Março e 2017

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