Um vulto que a História e a Igreja não esquecem

 

Pairava sobre a Europa uma grande angústia coletiva. O século XIV fora “um século sem esperança” (sempre que se veja uma imagem de Jesus ou de sua mãe, a escorrer-lhes sangue por todos os lados, carregados de dores, as Pietás e seu filho carregados de lágrimas e cruzes…), não duvidem, são do séc. XIV, ou delas copiadas (lembram-se de um filme, A paixão de Cristo, de Mel Gibson, a que alguns comentadores puseram o título de Um Coelho esfolado?).

Quem não tinha medo perante o “Rex tremendae maiestatis”! (Ó rei da tremenda majestade!). A par, a obsessão pela salvação pessoal!

Ao mesmo tempo e até por isso — lembrem-se do que disse aqui há semanas: o povo perguntava a si próprio porque é que o antigo pagão era feliz e o cristão daquele tempo vivia infeliz e atormentado —, ao mesmo tempo e até por isso — dizia — a credibilidade da Igreja, sobretudo a romana, começara a ser posta em causa. Este clima de dúvida generalizada e progressiva, descrendo das verdades impostas por via hierárquica, levou a que, tanto ao nível das elites como das massas populares, muitos perguntassem, e com boa-fé, se a Igreja hierárquica era realmente a Igreja de Jesus.

A par disto, com a descoberta da Bíblia — que a descoberta da imprensa em 1445 foi um verdadeiro fenómeno (do grego fainô > aparecer) —, nasceu a sede de uma Igreja evangélica, livre e simplificada, capaz de substituir a que existia naquele tempo e que há muito já deixara de espelhar o rosto autêntico de Jesus.

Um humanismo cristão, reformista, começou a fazer a crítica das alienações religiosas que tinham sido muitas no fim da Idade Média. Reforma precisa-se!, “do papa ao sacristão, do imperador ao pastor!”, escreveu um dos maiores pregadores e historiadores religiosos do séc XV (Geiler de Strasbourg, 1445-1510). A reforma — Lutero à frente — respondeu a uma situação específica das massas e anseios coletivos.

Claro que, nem tudo o que Lutero fez o fez bem: foi um antissemita particularmente virulento, mesmo para os costumes da época; denunciou, outro exemplo, a promiscuidade entre a Igreja Católica e o poder temporal, embora ele próprio tenha estado sempre estreitamente ligado à nobreza alemã, não hesitando em recomendar que as revoltas camponesas (que as suas ideias, aliás, tinham ajudado a instigar) fossem reprimidas sem dó nem piedade; os anabatistas, outro exemplo (que pretendiam que o batismo das crianças não era válido e ainda que o dos adultos tinha de ser revisto), foram por isso perseguidos e massacrados, etc. Lutero errou aqui e ofendeu acolá.

Morreu no dia 28 de abril do ano que corre, o Pe Carreira das Neves (1934-2017), um dos nomes mais importantes dos estudos bíblicos em Portugal.

Vou pô-lo a falar:

«A Europa continua a ser, a nível religioso, na maioria dos seus habitantes, uma Europa cristã, católica, ortodoxa e protestante. E todos sabemos que, nestes quinhentos anos, não faltaram ataques doutrinais de heresia de católicos contra protestantes e de idolatria de protestantes contra católicos. Pior ainda, houve guerras sangrentas entre as duas fações doutrinais. Pertenço ao tempo em que um católico não falava a um protestante…

É verdade que nestes últimos 50 anos, tudo mudou por obra e graça do Concílio Vaticano II ao defender a liberdade religiosa como um dos princípios fundamentais dos direitos humanos (Dignitatis Humanae), do estabelecimento da democracia representativa em Portugal, do nascimento da União Europeia e do trabalho ecuménico entre católicos e protestantes. Pelo meio surgiu o trabalho teológico e histórico de académicos católicos e protestantes. Hoje em dia existe uma boa relação académica, religiosa, espiritual, de amizade e respeito entre católicos e protestantes. Nunca esquecerei o impacto que recebi ao ler, em 1975, o que o grande teólogo católico Pe Ives Congar escreveu sobre Lutero: ”Lutero é um dos maiores génios religiosos de toda a história. Coloco-o no mesmo plano que Santo Agostinho, São Tomás de Aquino ou Pascal. Posso afirmar que é ainda maior. Ele repensou todo o cristianismo. Ofereceu-nos uma nova síntese, uma nova interpretação”. (…)

Não há dúvida que hoje em dia os católicos veem a pessoa de Lutero pela positiva e não pela negativa, e o mesmo sucede com luteranos em relação a católicos. Valerá, então, a pena voltar à história do século XVI sem reler, uma vez mais, essa figura outrora tão amada e tão odiada? Se o que tapa os olhos de católicos e protestantes foi retirado do campo de visão de ambos os lados, para quê voltar às feridas do passado? Penso que vale a pena repassar e reler, mais uma vez, a vida de um homem que marcou a história religiosa da humanidade, sobretudo da história do cristianismo. Regressar a Jesus Cristo, a São Paulo, aos Evangelhos, à história dos Padres da Igreja, é regressar às fontes com os olhos da exegese bíblica de hoje e com os olhos da cultura religiosa, científica, política e social dos nossos dias. Se Lutero nascesse hoje, tudo seria diferente».

Meus irmãos: pouco vos disse de Lutero nestes últimos domingos. Oxalá entendamos todos que católico-romanos e luteranos-protestantes que são a mesma coisa, anglicanos ou lusitano-evangélicos, batistas e anabatistas, e etc, etc, etc, somos todos cristãos: batizados e caminhantes para o Reino, Jesus é o Senhor e a Eucaristia o farnel para o caminho.

Os sinais da verdadeira Igreja — disse Lutero — são o baptismo, o sacramento do altar, o poder de atar e desatar o pecado, a pregação da Palavra de Deus, o símbolo apostólico (o credo), o Pai-nosso e a oração da Igreja, a honra e o respeito da autoridade, o louvor e a estima do casamento, e o sofrer dos irmãos em tempo de perseguição e morte por causa do Evangelho.

Com o tempo, a História pediria mais: a questão de Deus, o mundo do trabalho e dos pobres, a doutrina social, e quanto mais disse o Concílio Vaticano II: desde logo que a Igreja é “um mistério, um sacramento e um instrumento”, um “Povo de Deus”, mas não só de católicos, pois que os humanos somos todos irmãos. No tempo de Lutero estas questões não eram ainda questão. Mas o seu nome, a sua figura, a sua capacidade e a sua verdade, são linhas de um vulto que a História e a Igreja não esquecem. Por isso lhe dedicamos estas simples reflexões.

Arlindo de Magalhães, 26 de Novembro de 2017

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