É esta a Hora!

The Third | Barnett Newman, 1964

The Third | Barnett Newman, 1964

”Felizes os que Ele encontrar vigilantes… pois quem já nada espera, está em processo de auto-destruição”… Em tempos de tão grandes correrias e de ainda maiores motivos de distracção, parece a despropósito este desafio à “vigilância”… mas, bem vistas as coisas, não é a própria vida cristã tantas vezes uma vida “contra-a-corrente”? Vigiemos, pois, e comecemos pelas palavras da Escritura de hoje…

Na primeira leitura, o autor faz coincidir a Sabedoria com a capacidade e “inteligência” manifestadas pelo Povo Judeu para, “levando a sério as promessas que Deus lhes tinha feito, se enchessem de coragem e de firmeza”, especialmente quando tudo era negro e incerto, quer nos anos do seu cativeiro, quer nessa “noite em que foram mortos os primogénitos do Egipto”, a noite do Êxodo “pascal” (cf. Êx 12, 29-30). “Levar a sério” as promessas, “encher-se de coragem e firmeza”: começa a delinear-se o perfil do crente-vigilante…

Por outro lado, o texto mostra-nos que não só foi o próprio Deus o verdadeiro Autor da libertação do Seu Povo, como igualmente Ele mesmo deu a conhecer esse Seu plano, através de Moisés (cf. Ex 12, 21-28). Por outras palavras, Deus cuida, guarda e liberta o Seu Povo; mas também o informa acerca dos planos que tem para ele… Ora, foi a “sabedoria” dessa confiança-vigilante na promessa de Deus feita a Moisés e na capacidade em ler “os sinais dos tempos” que permitiu ao Povo hebreu experimentar a alegria e a glória da “salvação dos justos”, numa noite que, para os seus inimigos, foi de “ruína” e de “castigo”. E, à Palavra-atuante e libertadora de Deus co-respondem as três acções/atitudes que, ainda hoje, também nós perpetuamos: “oferecer o sacrifício”; tomar parte da herança, “tanto nos bens como nos perigos”; e cantar “os mesmos hinos que seus pais”. Fazer memória da Páscoa da (nossa) libertação, assumir como nossa a “Vida em abundância” (cf. Jo 10, 10) que nos está prometida e destinada; cantar, como quem “reza duas vezes” (Sto. Agostinho) as “maravilhas do Senhor”, esperando vigilantemente “que Ele venha” (cf. Apo 22, 20). Portanto, um convite à memória feita celebração, a fazer “anamnese” (trazer de novo a memória), porque a nossa História é de Salvação. Porque “um Povo sem Memória é um Povo sem História”!

Vamos à segunda leitura, da Carta aos Hebreus. Tudo começa e se centra numa “tese”, logo depois sustentada e desenvolvida com sólidos “argumentos”: “A fé é a garantia dos bens que se esperam e a prova de que existem as coisas que não se vêem”. Comparando esta afirmação com o que S. Paulo nos diz sobre a Fé (para quem esta é sobretudo uma história/processo de relação/adesão pessoal entre o crente e a Pessoa de Jesus, vivida no Presente mas fortalecida por uma Promessa feita num Passado já conhecido), torna-se evidente que aqui a mesma Fé aparece relacionada não tanto com esse Passado comum (de Memória) mas antes com o Futuro e com o que nele nos é ainda desconhecido; concretamente, aqui é a Esperança a “outra face” desta (mesma) Fé. Regressando ao texto, vemos que, para a definir, são usados dois termos: “garantia” e “prova”. Ora, uma “garantia”, diz-nos o Dicionário, é uma “fiança; caução; penhor; o que é garantido (por um acto qualquer)”, enquanto que uma “prova” é, fundamentalmente (e entre os vários sentidos/acepções indicados),  “1. O que serve para estabelecer a verdade de um facto ou de asserção. 2. Testemunha, indício, sinal.”, etc… Que “garantia(s)” podemos então nós ter de que haveremos de receber esses “bens que se esperam”? Que “prova”, indício ou sinal nos é dado de que “existem as coisas que não se vêem”? A resposta aparece demonstrada com argumentos firmes, pois alicerçados na terra mais profunda e mais fértil da História do Povo a quem a carta se dirige: a experiência de Abraão e de Sara, nossos antepassados e modelos na fé, pelo seu testemunho de fidelidade e “confiança vigilante“ na Palavra-Promessa de Deus. A Fé, portanto, é aqui sinónimo de uma atitude interior de vigilância confiante, alicerçada na certeza do cumprimento da Promessa de Deus, que é sempre fiel à Sua Palavra. Memória que se faz Futuro, porque assente na Esperança-Vigilante.

Finalmente, no Evangelho, Jesus incita os seus Discípulos – “pequenino rebanho” – mas também a nós (e em particular os que temos especiais responsabilidades, de acordo com a grandeza dos dons que nos tiverem sido confiados/concedidos) a que estejamos todos “também preparados, porque, à hora em que menos pensardes, é que vem o Filho do Homem!”. De facto, as páginas bíblicas são pródigas em mostrar-nos que é sempre de forma inesperada que Deus vem ao encontro do Homem: desde Adão a João Baptista, e passando por todas as narrativas de vocação/chamamento (ao serviço do Reino), Deus nunca escolhe os previamente escolhidos, nunca Se apresenta revestido das cores com que O pintam, nunca aparece onde nem quando todos O esperam… Como disse o Papa Francisco em Santa Marta (28.04.2015), o nosso Deus é “o Deus das surpresas”… Por isso, é preciso termos sempre “as lâmpadas acesas”, os rins cingidos pelas “cintas apertadas”, sermos “como homens que esperam o seu senhor”, de olhar desperto e ouvidos atentos, de mãos libertas e pés ligeiros para, no meio da noite (e do sono) dos nossos tempos, sabermos e podermos, como Samuel, dizer: “Aqui estou, Senhor.” (cf. 1 Sam 3, 1-11). E, se o povo judeu partiu levando consigo apenas os seus “pequenos nadas” (Ex 12, 32-35), e se Abraão e Sara pouco mais tinham do que a si mesmos, o seu amor mútuo e a sua velhice, a nós, que temos tantas coisas (e que somos tão pouco), Jesus diz-nos para “nada temer”, para tudo vender, e para dar esmola, pois espera-nos um “tesouro inesgotável nos Céus, do qual o ladrão não se aproxima e onde a traça não corrói”. Este é o “substracto”, a “essência” da nossa Fé-Esperança: a certeza de que, com Jesus, é fazendo-nos pobres aos olhos do mundo que nos tornamos ricos aos olhos de Deus.

Onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” Não ontem. Não amanhã. Hoje! Portanto, meus amigos: “corações ao alto”, pois é este o Tempo! É esta a Hora!

Luís Leal, 7 de Agosto de 2016

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *